O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agarrou as duas primeiras oportunidades que lhe apareceram para mostrar que sua política externa é bastante diversa daquela executada por seu antecessor. A postura tímida, por trás da qual a diplomacia de FHC exibia supostas vitórias de bastidores, foi trocada por um posicionamento pró-ativo, em que o Itamaraty toma a iniciativa das ações e deixa de ser apenas caudatário de posições que, não raro, começavam a ser delineadas em Washington ou no chamado circuito Elisabeth Arden, como se diz no jargão diplomático.

A primeira dessas oportunidades foi vislumbrada no caso da Venezuela. Ao ver a situação aflitiva em que se encontrava seu colega da nação vizinha, encurralado por setores oposicionistas que em geral estão divorciados dos segmentos mais populares, Lula não vacilou em propor a formação de um grupo de países amigos da Venezuela.

A situação se inverteu e, desta vez, a Casa Branca é quem ficou a reboque e tratou de se acoplar à iniciativa brasileira, centrada num entendimento que assegure ao presidente Hugo Chávez o cumprimento constitucional de seu mandato. Ou seja, apenas que se cumpra a lei. Lula foi ainda mais longe – saindo da retórica para a prática -e assegurou o abastecimento de combustível a Caracas, num momento em que a posição de Chávez era crítica. Era uma operação comercial, como tantas outras, mas com inegável conteúdo político.

Desde então o quadro venezuelano tende a se normalizar.

A segunda oportunidade veio nesta semana, em Davos, na Suíça. Apressadamente, alguns protagonistas do encontro de Porto Alegre criticaram a presença do presidente no Fórum Econômico Mundial. Como se ela fosse incoerente com sua participação no Fórum Social. Nada mais equivocado.

Lula tirou proveito de uma vitrine mundial para defender a prioridade zero de seu governo – o combate à fome – e que, transposta para um âmbito internacional, poderia ser a plataforma de governos sérios, com um mínimo de viés social, interessados em reduzir as desigualdades entre os países e encarar de frente o problema da miséria nas nações mais empobrecidas.

Cambiar os bilionários planos armamentistas do governo Bush por programas consistentes de combate à fome não é simplesmente fruto de aparente ingenuidade de um governante inexperiente. Pode se inserir na esfera mais elevada de uma política realista e pragmática.

Vá lá, que até seja implementada por pura esperteza, visando a criação de novos mercados de consumo. Mas desde que estes mercados ofereçam renda e salários dignos às populações de países africanos, asiáticos e latino-americanos que atualmente vegetam sem esperança nem perspectiva de melhora. Até esse tipo de esperteza seria preferível à burrice armamentista de Bush e seus capatazes da indústria petrolífera.

Na posse da nova diretoria da Itaipu binacional, em Curitiba, Lula também não deixou margem a dúvidas quanto a seus planos de integração não apenas do Mercosul – destroçado pela política suicida de sobrevalorização das moedas locais -, mas de toda a América do Sul. Essa liderança que se projeta a partir do novo governo sobre as nações do continente será sólida na medida em que se assentar no respeito entre parceiros de uma jornada solidária, atores de um jogo que se define nos organismos multilaterais, sem hegemonia política ou econômica.

A postura externa do governo Lula – alicerçada nos profissionais do Itamaraty – é promissora e encerra um período anódino, no qual a mediocridade era vista como virtude, e a ousadia, punida como defeito grave.

Rubens Bueno é deputado federal, secretário-geral do PPS