Policiais podem ter roubado ladrões que assaltaram o Banco Central

Nunca foi tão fácil. O grupo entrou na casa de Pedro José da Cruz, o Pedrão, e saiu com R$ 2 milhões. Voltou dias depois e pegou mais R$ 450 mil. Os roubos foram denunciados em novembro, mas ninguém foi preso até agora. Quase todos os colegas de Pedrão estão na mesma situação desde que ficaram conhecidos como a quadrilha que furtou R$ 164,7 milhões do Banco Central de Fortaleza. Mas quem roubou o ladrão? A Polícia Federal, advogados e os próprios bandidos não têm dúvidas: foram policiais. Eles se apropriaram de R$ 50 milhões, invadiram casas espancaram mulheres, seqüestraram e mataram. Com exceção de um, que está na cadeia, estão impunes.

A corrida atrás do ouro do BC começou no dia seguinte ao crime, ocorrido em 5 e 6 de agosto em agosto de 2005. Apreensivo, um diretor de departamento da Polícia Civil de São Paulo reuniu seus homens e proibiu que eles investigassem o caso. Queria evitar o desgosto de vê-los envolvidos em corrupção.

O jornal O Estado de S. Paulo apurou com policiais e advogados que aconteceram 15 casos de achaque, seqüestros e execuções cujas vítimas são os ladrões do BC. Só a PF, segundo o delegado Antônio Celso, recebeu quase uma centena de denúncias e investiga seis casos em que a negociação da propina foi gravada, com aval da Justiça. A maioria das extorsões ocorreu em São Paulo, mas houve pelo menos cinco seqüestros no Ceará.

O primeiro caso conhecido até que demorou. Foi o seqüestro de Luís Fernando Ribeiro, o Fê, de 26 anos, levado em 7 de outubro quando saía de uma boate em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, por um grupo formado por criminosos com e sem distintivo. A família pagou R$ 2,1 milhões. Os seqüestradores pegaram o dinheiro e mataram Fê em Camanducaia (MG).

O diretor do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), Godofredo Bittencourt Filho, apressou-se em negar que policiais estivessem envolvidos. Os fatos o desmentiram. Pelo menos dois investigadores participaram do crime: Alessandro Pereira Nunes, que trabalhava no Deic, e Sérgio Antônio dos Santos, do 43º Distrito. Ambos foram presos, mas a Justiça mandou soltar Nunes em setembro. O processo administrativo de ambos ainda não foi concluído pela Corregedoria da Polícia Civil. ‘Deus sentou-se com 12 e tinha um traidor no meio’, disse um constrangido Bittencourt.

Um mês depois, foi a vez de Pedrão ter sua casa, em Suzano, Grande São Paulo, invadida por seis homens que se disseram policiais. Num primeiro depoimento à PF, o ladrão confirmou que pagara R$ 2 milhões aos policiais para não ser preso. Dias depois, outros quatro homens levaram R$ 450 mil. Deixaram R$ 50 mil, depois que o ladrão apelou: daquele jeito, iam deixá-lo duro. Uma semana depois, mais uma vez bateram na porta de Pedrão. Cansado de ser achacado, ele ameaçou denunciar os policiais. O que ele não sabia é que daquela vez era ‘cana’ mesmo: os homens estavam ali para levá-lo preso, e não para roubá-lo. A passagem consta do depoimento.

Em vez de abrir um inquérito específico, a Corregedoria da Polícia Civil resolveu apurá-lo no inquérito do caso Fê. Em novo depoimento, Pedrão negou que seus algozes fossem policiais. Os corregedores exibiram ao ladrão apenas as fotos dos suspeitos do caso Fê – conforme informou a Secretaria da Segurança -, em vez de mostrar álbuns com centenas de fotos de policiais mantidos pela corregedoria. Assim, concluiu, como o Deic fizera no caso Fê, que não havia policiais envolvidos e encerrou o inquérito.

Depois ocorreu uma sucessão do que a polícia chama de trombada: pegar o bandido e depená-lo ao acaso. Um dos chefes do bando do BC, Antônio Jussivan Alves dos Santos, o Alemão, foi apanhado três vezes. Pagou cerca de R$ 1 milhão de cada vez e continua foragido. Na mesma situação estão outros cabeças do grupo: Moisés Teixeira da Silva, o Cabelo, Josiel Lopes Cordeiro, o Tiganá, e Marcos Rogério Machado de Moraes, o Cabeção. Advogados ouvidos pelo Estado contaram que cada um deles pagou o mesmo ou pouco mais do que Alemão.

A PF, cujo objetivo é investigar o furto milionário, coleciona provas que pretende entregar à Polícia Civil. Mas ela própria não está livre de ver seus agentes sob suspeita. Evandro José da Neves, de 37 anos, o Botina, teve a casa invadida por homens que se identificaram como federais e espancaram sua mulher, arrancando-lhe os cabelos. Ameaçaram matar Botina, achado morto, na semana passada, na Favela Alba, zona sul. Botina foi enterrado com nome diferente do registrado no boletim de ocorrência.

Quando deflagrou, em setembro, a Operação Facção Toupeira, maior golpe sofrido até hoje pelo Primeiro Comando da Capital, a PF descobriu novos achaques. A operação levou para a cadeia 47 integrantes do bando, entre eles Lucivaldo Laurindo, seu irmão Jeovan Laurindo e seu primo Raimundo Laurindo Neto, o Piauí. Eles estavam cavando um novo túnel para furtar o Banrisul e a Caixa Econômica Federal de Porto Alegre. Os federais chegaram antes – parte do bando foi surpreendida cavando o túnel.

No caso de Raimundo Neto, a negociação da propina foi gravada pela PF. Ele entregou R$ 450 mil a policiais corruptos, entre eles um chamado Vitão, que trabalhava no ABC e foi transferido para um departamento da elite. Neto já havia pago outros R$ 550 mil, a mesma quantia que Jeovan teria entregue à polícia meses antes para não ser preso.

Até agora, a PF recuperou só R$ 18 milhões do BC. Muito menos que os R$ 50 milhões que ela estima terem sido embolsados por policiais corruptos. E pouco se sabe sobre quem está roubando os ladrões.

Veto

A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança não autorizou o corregedor da Polícia Civil, Ruy Estanislau Silveira Melo, a falar com o jornal O Estado de S. Paulo. Limitou-se a informar em nota que foi aberto um inquérito para investigar conjuntamente os casos de Fê e de Pedrão e outro para o de Neto. O ouvidor da polícia, Antonio Funari Filho, admitiu que o episódio é grave e disse que investigar a corrupção é um desafio ainda a ser vencido. ‘Ela interessa a quem paga e a quem recebe. Por isso acabamos sabendo pouco sobre o que acontece.

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