A Polícia Federal (PF) concluiu que o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci foi o mandante da quebra ilegal de sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa, o "Nildo". Para consumar o suposto crime, conforme as apurações, Palocci teria contado com a cumplicidade do ex-presidente da Caixa Econômica Federal (CEF) Jorge Mattoso, acusado de ter determinado a subordinados que bisbilhotassem a poupança de "Nildo" na instituição. O ex-ministro da Fazenda e Mattoso estão indiciados por violação de sigilo funcional e quebra ilegal de sigilo bancário e podem pegar até seis anos de prisão, mais multa.

O inquérito será concluído no dia 21, mas a PF informa acredita ter desvendado a cadeia de comando da violação do sigilo bancário do caseiro. As investigações indicam que, na iminência de serem desmascarados, Palocci e o ex-presidente da CEF teriam concordado em confessar a violação, mas combinaram as versões que apresentariam nos depoimentos para facilitar a defesa deles e evitar outras tipificações penais, como a de formação de quadrilha. Para isso, contrataram bancas de advogados caros, uma delas comandada pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Roberto Batochio.

A análise dos testemunhos e das provas materiais levantadas pela PF mostra que o ex-ministro teria se valido do cargo para obter informação à qual, por lei, não poderia ter acesso e a usado em proveito próprio com o objetivo de perseguir um desafeto, utilizando, assim, aparato fiscal do governo. "É inverossímil que toda a iniciativa tenha partido do Mattoso", observou um policial com acesso às apurações.

Em entrevista à Agência Estado, em março, "Nildo" revelou que Palocci era freqüentador da mansão do Lago Sul, em Brasília, na qual lobistas de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, supostamente, promoviam festas com garotas de programa e partilha de dinheiro.

No depoimento sigiloso que prestou ontem (04) na sua residência, na Península dos Ministros, à qual a reportagem teve acesso, Palocci confirmou que acionou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), subordinado a ele, para levantar dúvidas sobre movimentações de quantias elevadas na conta do caseiro, de modo a forçar a polícia a entrar na averiguação do caso.

Ele disse ter recebido a informação original sobre a existência de "um bom dinheiro" movimentado por "Nildo" da jornalista Helena Chagas, diretora da sucursal do jornal "O Globo" em Brasília. A informação, conforme o relato de Palocci, fora passada a Helena pelo jardineiro da casa dela, que conhece o caseiro.

Ela está em férias e o jornal divulgou uma nota na qual confirma que ela "foi, realmente, procurada pelo ministro Palocci, que buscava obter informações sobre uma possível movimentação financeira estranha do caseiro". Diz "O Globo": "A jornalista disse ao ministro que o jornal tomou conhecimento dessa versão, que circulava em Brasília, mas que não ela não foi confirmada. Por isso, o jornal nada publicou a respeito." Helena e o jardineiro serão convocados para depôr.

Palocci negou que tenha determinado a violação da conta, que Mattoso confessa ter feito por iniciativa própria, alertado, como diz, por informações de técnicos da Caixa Econômica sobre "movimentações atípicas" na conta do caseiro. Entre janeiro e março, ele recebeu depósitos de quase R$ 30 mil na conta, sendo R$ 25 mil do suposto pai.

Mas Palocci tinha certeza de que o dinheiro era fruto de suborno da oposição, numa operação orquestrada pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) para desestabilizar a admiistração federal. Para desmascarar o desafeto, o ex-ministro acionou o aparato fiscal e policial do Poder Executivo para devassar a vida dele.

Para chegar a essa constatação, os policiais perceberam uma contradição no depoimento de Palocci. Ao tempo em que reforça ter recebido a informação original de Helena, ele diz que destruiu "no triturador de papéis" o extrato do caseiro, tão logo teve certeza de que o Coaf abrira processo de investigação da movimentação atípica na conta dele. "Num gesto de desespero, ele fugiu do comportamento profissional e assumiu uma conduta pessoal", comentou o mesmo policial.

Para fechar a rede de cumplicidades na investida atrapalhada do alto escalão do Executivo contra o caseiro, falta agora definir a responsabilidade pela entrega do extrato de "Nildo" para a Revista "Época". Principal suspeito, o jornalista Marcelo Netto, assessor do de Imprensa do ex-ministro, usou hoje o direito de ficar calado para não levantar prova contra si e, apesar desse comportamento, não foi indiciado.

A polícia entendeu que não há elemento de convicção, prova material ou mesmo um depoimento, que permitam o indiciamento, mas Marcelo Netto continuará a ser investigado como principal suspeito do vazamento. Abatido, ele chegou às 8 horas e, depois de depor por cerca de três horas, deixou a sede da PF pela garagem privativa e não falou com a imprensa.

O advogado dele, Eduardo Toledo, disse que o jornalista confirmou ter estado na casa da Palocci no dia 16, data em que o ex-ministro recebeu cópias do extrato do caseiro e reuniu-se com dois assessores do Ministério da Justiça para tentar pôr a PF no encalço de "Nildo".