Não há como negar os benefícios que o Plano Real trouxe ao Brasil. Lançado quando Fernando Henrique Cardoso era ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, muitas foram as acusações de que era um golpe visando a eleição de FHC e que seus efeitos iniciais teriam a vida de fogos de artifício. Assim não aconteceu, pois o plano não era, como muitos esperavam, um projeto de desenvolvimento econômico e social para o Brasil e, sim, uma complexa manobra de combate à inflação que havia perdido os freios. Deu certo quando diversos outros, que o antecederam, experimentaram as mais ortodoxas fórmulas, desde os congelamentos e tabelamentos de preços ao confisco, embora temporário, do dinheiro dos cidadãos e das empresas.

A inflação, que atingia patamares inimagináveis, caiu a níveis aceitáveis. Mais beneficiadas foram as classes de menor renda, aqueles que viam seus salários desaparecer, comidos pela inflação, já nos primeiros dias do mês, logo após receberem seus pagamentos e que não tinham a defesa das aplicações na ciranda financeira, possibilidade que aproveitavam os mais ricos.

Isso levou, segundo cálculos da época, a um incremento no consumo das classes trabalhadoras da ordem de 17%. Muita gente que jamais pensara em introduzir nas suas listas de compras coisas como os iogurtes e outras que não eram nem são de primeira necessidade, passaram a poder consumí-las.

Agora, o Plano Real aproxima-se do seu décimo aniversário e estudos feitos pela AC Nielsen mostram que os ganhos de então estão desaparecendo, se diluindo. Em 2003, pela primeira vez desde 1994, o consumo de produtos de uso diário caiu em volume. Essa queda acompanha o empobrecimento da população. E esse empobrecimento – é óbvio – não resulta do Plano Real. Não é um efeito retardado do plano que derrubou a inflação. O relatório demonstra que a queda foi de 0,6% em relação a 2002. Isso confirma a estatística dos supermercados, que dizem que o ano passado foi o pior de todos da última década.

Enquanto o volume de mercadorias vendido diminuiu 0,6% em valor, as vendas aumentaram em 8,7%. Estão vendendo mais mercadorias e ganhando menos. Na média, os preços subiram 9,4% em 2003. Na lista, estão produtos como bebidas, itens de higiene, beleza e saúde, limpeza de casa e outros comercializados pelos supermercados. A conclusão que se tira desses números é que não existe espaço para elevar os preços, sem comprometer a produção. Se aumentam os preços, o povo não compra porque não tem dinheiro e a produção, que já passa por dias negros com a redução ou sustação de investimentos, diminui. A conseqüência mais cruel deste processo, socialmente, é o aumento do desemprego. E mais desemprego, menos compradores, agravando a complexa e paradoxal situação.

Conclui o estudo que hoje nem o fato de os supermercados terem grande poder de barganha junto aos fornecedores faz com que consigam vantagens, resolvendo o problema. O povo está cortando produtos de suas listas de compras, e substituindo por outros mais baratos os indispensáveis que compravam, dando preferência a certas marcas. Quase dez anos depois do início do Plano Real, o povo, o comércio e a indústria estão mais pobres. Anularam-se, em menos de dois anos, as vantagens do plano que derrubou a inflação.