Apesar de internamente o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito ter saído desgastado, por ter sido desautorizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na sua decisão inicial de mandar prender os controladores amotinados no Cindacta1, o Palácio do Planalto assegura estar "muito satisfeito" com a atuação do brigadeiro. Na madrugada de sábado, Lula já "respirava aliviado" e na manhã de ontem sua preocupação era apenas com os procedimentos para a volta à normalidade nos aeroportos ocorrer o mais rápido possível.

"O comandante da Aeronáutica não está comprometido e não foi desautorizado pelo presidente. O presidente não vai mexer no Saito", disse um interlocutor direto do presidente ao relatar o que Lula disse sobre o comandante. "Ele teve coragem de parar no meio do caminho e agiu com sabedoria", afirmou Lula, de acordo com o seu interlocutor.

Concluídas as negociações, na madrugada de sábado ainda Saito convocou uma reunião do Alto Comando da Aeronáutica para às 10 da manhã de ontem para analisar a crise e suas seqüelas – inclusive os danos a sua própria imagem. Mas a expectativa era de que concordasse em permanecer no cargo, para não agravar ainda mais a situação, já que o seu sucessor natural, brigadeiro Jose Américo, já foi comandante do tráfego aéreo e já teria enfrentado problemas com os controladores durante sua administração.

Em relação à situação do ministro da Defesa, Waldir Pires, o interlocutor do presidente afirmou que "não há como negar que não foi positiva a ausência dele de Brasília, na hora que estourou a crise" e que não sabia a razão de sua viagem. Somente ontem, a Defesa explicou que ele foi ver sua filha que havia sido submetida a uma cirurgia.

O assessor do Planalto ressalvou, no entanto, que o presidente Lula tem, por princípio que não se deve tomar decisões definitivas em momentos de crise. "Ele vai analisar a situação e a nossa preocupação principal é resolver o problema na essência, com equipamentos e pessoal, além de acelerar a transição civil para administrar o setor", prosseguiu o interlocutor de Lula.

NEGOCIAÇÃO

A crise se agravou quando o comandante do Cindacta, Carlos Aquino, avisou os controladores que ia prendê-los se mantivessem a greve de fome e a permanência no quartel. Eles, então, decidiram partir para a radicalizar e para todo o tráfego. Nesse momento, os oficiais da aeronáutica, junto com a procuradoria da Justiça Militar, entenderam que solução era aplicar a lei, considerando-os amotinados.

Mas, quando houve uma melhor avaliação do nível de tensão no Cindacta e a primeira sinalização do Planalto, depois concretizada pelo presidente Lula, de que era preciso negociar, o brigadeiro Saito concordou que era preciso flexibilizar sua posição. Ele foi então ao Planalto e informou que tinha enviado o brigadeiro Ramon Cardoso, diretor do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) para levar um ultimato aos controladores para que voltassem ao trabalho, mas abrindo as negociações, já sinalizando com a possibilidade de rever as punições e acelerar a transferência do sistema para o controle civil.

Ao chegar ao Planalto, para a reunião do gabinete de crise, o brigadeiro Saito já estava convencido de que não seria mesmo possível agir unicamente para preservar a hierarquia e disciplina, com base no Regulamento Disciplinar da Aeronáutica, prendendo os revoltados, mas que era preciso negociar. O próprio Saito, neste encontro, reconheceu que a situação era muito tensa e que se prendesse alguns os demais se rebelariam.

Reconheceu, também que, de fato, mesmo que apenas alguns fossem presos, não havia tropa de sargentos-controladores de reserva para substituir os aprisionados para restabelecer os vôos e o caos seria muito maior. "Ele entendeu que era preciso flexibilizar", revelou o auxiliar palaciano. Depois disso, foi aguardar o desfecho da conversa do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, com os controladores, na sede do Cindacta.

"Precisamos preservar a Aeronáutica e evitar que haja novos desgastes para que ela não fique fragilizada", disse o assessor palaciano. "Temos compreensão de que o problema é muito mais complexo. O que o Planalto não sabia, ontem, era que os integrantes do alto comando da FAB estavam reunidos para decidir como conduzir a crise daqui para diante. O Planalto sabia que estavam ocorrendo processos disciplinares na FAB, mas não tinha conhecimento do nível de tensão que estava lá dentro. "Se soubéssemos a situação não teria chegado a este ponto", comentou outro auxiliar do presidente.

Lula,quem acompanhou ontem, de Washington, por telefone, a evolução da questão, retorna na manhã deste domingo ao Brasil, desembarcando em São Paulo. Ele só chega a Brasília no final do dia. Mas, só deverá tratar do problema na tarde desta segunda-feira, depois de conduzir a primeira reunião ministerial com a nova equipe de ministros. Neste encontro para discutir soluções para o setor aéreo, além de Waldir Pires e do comandante da Aeronáutica, estarão presentes o ministro Paulo Bernardo, que foi também elogiado por Lula pela condução das negociações com os controladores, e ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil.