A presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco, foi indiciada hoje (11) pela Polícia Federal por formação de quadrilha e divulgação de informações protegidas por sigilo legal. Pelos dois crimes, caso seja condenada, ela pode pegar até sete anos de prisão. Acusada de montar no Brasil uma rede de espionagem, em parceria com o banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity, a executiva prestou depoimento por cerca de três horas, assistida por cinco advogados e dois assessores. Carla ficou nervosa durante todo o tempo, mas não se recusou a responder às perguntas. À saída, ela não quis falar com a imprensa.

Segundo a Polícia Federal, as informações de Carla Cicco não acrescentaram nenhum fato novo e nem serviram para invalidar qualquer prova de que ela e o banqueiro contrataram a empresa de auditoria norte-americana Kroll Associates para bisbilhotar concorrentes empresariais e desafetos pessoais de Dantas. A espionagem acabou atingindo membros do primeiro escalão do governo federal. Amanhã (12), será a vez de Dantas receber intimação no Rio de Janeiro para depor ainda esta semana. Ele também deverá ser indiciado, com agravantes, segundo os policiais, pelo fato de ser líder da organização.

Por meio da Operação Chacal, realizada em outubro de 2004, a PF constatou que a rede de espiões montada pela Kroll, sob encomenda e Dantas e Carla Cicco, tinha ramificações em áreas estratégicas do serviço público. Os principais alvos da espionagem eram o empresário Luís Roberto Demarco, ex-sócio de Dantas, o ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, o investidor Naji Nahas e o empresário Nelson Tanure. Entre as empresas investigadas, a espionagem atingiu principalmente a Telecom Itália, que disputa com o Opportunity o controle da Brasil Telecom.

De 2003 até meados de 2004, a Kroll monitorou os contatos da Telecom Italia no Brasil. Os espiões captaram e-mails trocados entre o ministro da Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, e Demarco, ex-sócio de Dantas no Opportunity, com o qual passou a travar uma agressiva batalha judicial. Proprietário, na época do rastreamento dos e-mails (2001 e 2003) de uma consultoria que atendia a fundos de pensão, Gushiken buscava com Demarco informações sobre Daniel Dantas no setor de previdência privada.

A análise de mais de uma tonelada de documentos, disquetes, computadores e relatórios recolhidos durante a Operação Chacal revelou que a Kroll tinha acesso a bancos de dados da Receita Federal e sobre a situação fiscal de contribuintes, pessoas físicas e jurídicas. O acesso incluía dados protegidos por sigilo constitucional, vetados até mesmo ao presidente da República, sem autorização judicial.

Entre os funcionários públicos e ex-servidores influentes que a empresa cooptou para o esquema, a PF identificou o ex-coordenador da unidade central de inteligência da Receita (Copei), Deomar Vasconcellos de Moraes. "Comprovou-se que Deomar possui vínculos e estaria trabalhando regularmente para a Kroll", diz o relatório do inquérito entregue à Justiça.

Deomar confirmou que trabalhou para a Kroll, mas ressalvou que os fatos denunciados ocorreram antes de sua ida para a empresa. Ele disse que cumpriu uma quarentena voluntária de quatro meses antes de ir para a Kroll e que sua atividade se limitava a assessoria na área tributária.

Diálogos telefônicos entre o espião Tiago Nuno Verdial com seu chefe britânico, Willian Peter Goodal, o Bill, clientes e parceiros, interceptados com autorização judicial, comprovaram o poder da Kroll. Num deles, publicado pelo GRUPO ESTADO, Verdial abre o jogo ao tentar impressionar a empresária Marina Barbosa, especialista em marketing empresarial. "Eu tenho uma fonte na Receita que me passa absolutamente qualquer coisa de qualquer empresa", garante o espião. Mais adiante, ele detalha o poder da sua fonte – "Ela (a fonte), me passa de tudo, desde impostos – você não pode falar isso ‘pro’ seu cliente porque você não é ‘caruda’ – mas, eu tenho tudo, pessoa física ou jurídica, Imposto de Renda… Se for uma pessoa jurídica, saber quanto ela deve de impostos, todos impostos, desde IPI, ICMS, ISS…qualquer imposto: municipal, estadual ou federal."

Verdial, Bill e mais sete espiões e empregados da Kroll já estão indiciados no inquérito. Eles foram presos após a Operação Chacal, mas respondem ao processo em liberdade. A Kroll informou, por meio da assessoria, que Verdial não trabalha mais para a empresa desde as primeiras denúncias, em julho de 2004.

Conforme o relatório da PF, o esquema de espionagem envolvia também policiais federais, altos servidores do Banco Central, da Receita e da Caixa Econômica Federal, um juiz de São Paulo e o encarregado da distribuição de processos no Tribunal de Justiça do Rio. Era tão eficiente a captura de dados no setor público que até informações sobre segredo de justiça iam parar nas mãos dos espiões da Kroll, sem dificuldade.