Algumas expressões que acompanharam Lula na primeira e, agora, na segunda campanha para presidente da República buscaram implantar um clima de paz, fazendo com que a sociedade aceitasse um governante oriundo das classes trabalhadoras e com histórico político de esquerda socialista. Dentre elas está o refrão ?Lula, lá? acoplado ao ?sem medo de ser feliz?. Tal clima não consegue esconder uma paz armada que pode estar anunciando o confronto inevitável entre oposição e situação, sejam quais forem os integrantes dos dois grandes blocos. E outras forças se movimentam para reivindicar, contestar e combater de frente o governo bisado do presidente petista.

As principais centrais sindicais brasileiras, organizações que sempre estiveram ao lado do líder sindical e depois presidente, decidiram que vão negociar com o governo o reajuste do salário mínimo dos atuais R$ 350 para R$ 420 no início do próximo ano. Ou seja, início do segundo mandato. E para pagamento já em março de 2007.

O reajuste, de 20%, seria maior do que o concedido no ano passado, quando o mínimo foi de R$ 300 para R$ 350, um aumento de 16,6%, substancial em termos comparativos e dos maiores da história. Em 2005 as centrais pediram alta de 33%. Queriam aumento de R$ 300 para R$ 400. Não foram atendidas. Cerca de 25 milhões de brasileiros recebem um salário mínimo por mês. Entre esses, 16 milhões são aposentados. Há, portanto, uma gigantesca massa a ser mobilizada pelas centrais sindicais numa batalha que pode não dar resultados em termos de concessão de um mínimo mais substancial, mas que propiciará batalhas desgastantes para o governo. Brasília já sinalizou que não vai atender ao pleito das centrais. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, declarou que o governo vai discutir um mínimo próximo ao que consta do Orçamento da União de 2007. E este é de apenas R$ 375.

Para o ministro, o mínimo aceitável pelo governo e não desejado pelas centrais sindicais repõe a inflação e nos últimos anos os aumentos levaram a uma recuperação do valor do salário, embora compreenda que os trabalhadores busquem um ganho real.

A correção do salário mínimo reivindicada pelos trabalhadores, segundo suas lideranças, é equivalente à defasagem da tabela do Imposto de Renda em relação à inflação durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva. E ainda há uma defasagem de 39,52% verificada durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. As centrais já iniciaram reuniões nos estados e têm marcada uma reunião para o dia 6 de dezembro, próxima quarta-feira, em Brasília, para pressionar o governo. Para o presidente da CUT, Arthur Henrique, a reivindicação de um salário mínimo de R$ 420 pode ser atendida pelo governo. Disse ele que ?é preciso colocar na pauta do País o crescimento da economia e, quanto mais distribuição de renda tiver, mais a economia estará em desenvolvimento?.

Lembremos que nesse clima de paz armada não estão de prontidão só as forças sindicais. Há também os movimentos dos sem terra com quatro pedras na mão. Isso quando não com foices e até armas, a principal delas as invasões de terras particulares e próprios públicos.