Renan Calheiros quer reduzir o Senado Federal a um ?centro de patifaria e canalhice?, na opinião do senador Tasso Jereissati, presidente do PSDB. Ele usou essas duras expressões ao sair de uma reunião com os senadores Aloizio Mercadante (PT), José Agripino (DEM) e Jarbas Vasconcellos (PMDB) e as repetiu à imprensa. Nesse tom está o embate criado pelo presidente do Senado Federal, que não quer abandonar nem temporariamente o cargo para responder pelas inúmeras acusações que contra ele pesam e fluem para a Comissão de Ética. Hoje é possível que seja apresentada mais uma representação, oficialmente a quarta, mas na realidade a quinta, pois uma delas, a de que o senador alagoano beneficiou uma cervejaria devedora do INSS, conseguindo perdão de seus débitos, ainda está por ser autuada. A empresa comprou uma fábrica de cervejas de um irmão de Renan, que é deputado federal.
O DEM pretende, com o apoio do PSDB e de dez dos doze senadores do próprio PT, partido de Lula e aliado do PMDB de Renan, apresentar mais uma denúncia. E desta vez motivada por um jogo sujo denunciado pela revista Veja. Renan Calheiros estaria mandando espionar seus adversários senadores, usando para esta missão um assessor da presidência que exerce, para ver se encontra alguma coisa contra eles que sirva de instrumento de chantagem. Ou aliviam a carga de acusações ou ele utilizaria o que fosse descoberto contra os adversários.
Entram como alvos do presidente do Senado os senadores José Agripino, Marconi Perillo e Demóstenes Torres. E já investiu contra dois de seus mais respeitados correligionários, os senadores peemedebistas Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos, uma atitude tão ousada que revoltou até importante parte da bancada do próprio PMDB. Ele conseguiu que o senador gaúcho e o ex-governador de Pernambuco, ambos tidos como reservas morais do nosso Congresso, fossem afastados da Comissão de Ética por terem posição contra a permanência do réu no posto de presidente enquanto investigado e julgado. E os fez substituir por senadores de sua tropa de choque.
Diz-se que já são nove os senadores peemedebistas que hipotecaram solidariedade a Simon e Jarbas e isso está levando o maior partido situacionista, o PMDB, a trabalhar pela anulação da absurda medida. Ela estaria desmoralizando o próprio partido, que tem pretensões de suceder o PT nas próximas eleições presidenciais. É de se notar, de outro lado, o posicionamento firme e independente do senador Aloizio Mercadante, um dos mais respeitados nomes do PT, que vem declarando que Renan Calheiros deve se afastar do cargo e agora já promete conseguir no seu partido dez dos doze votos que tem no Senado para arriar o senador alagoano do seu trono.
Há interpretações das atitudes procrastinadoras da tropa de choque de Renan que levam à conclusão de que o presidente do Senado quer empurrar com a barriga todo o problema até que chegue o ano de 2008, acreditando que então os escândalos em que figura como personagem principal sairão do foco. É impossível afirmar, na situação atual, se Renan Calheiros vence ou não essa guerra. A primeira batalha ganhou na votação secreta e corporativa do plenário do Senado. O certo é que o próprio Senado e o País perdem. O presidente da câmara alta, nas condições em que se encontram os processos que contra ele são movidos, já não pode se beneficiar da presunção de inocência até que se prove ser culpado. É culpado de jogar pesado para manter-se no elevado cargo que ocupa e de obstaculizar as investigações legítimas que contra ele fazem ou tentam fazer. E culpado, ainda, de manobras contra nomes dos mais ilustres do Senado, sejam Simon e Jarbas, sejam aqueles que estaria mandando investigar para poder chantagear.


