No início da década de 1970, os Estados Unidos, Brasil e todo o Ocidente consideravam como maior inimigo ideológico o regime comunista de Mao Tse Tung, imperante na República Popular da China. Ademais, no golpe de 1964 foram presos e maltratados os cinco chineses que estavam no Rio de Janeiro em missão comercial.

Passando por cima desses embaraços, com sua visão empresarial de descortinar boas perspectivas comerciais para o Brasil no mercado chinês de um bilhão de habitantes, o fundador da Cia. Cacique de Café Solúvel, Horacio Sabino Coimbra, tomou a iniciativa pioneira de visitar a então já famosa feira industrial de Cantão e contatar em Pequim, capital do país, autoridades governamentais.

No período mais duro do regime militar, ele obteve sinal verde do governo do presidente Emílio Garrastazu Médice que, em caráter sigiloso, autorizou o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, cônsul brasileiro na então colônia inglesa de Hong Kong, a acompanhar o empresário na condição de assessor especial.

Utilizando seus contatos de negócios de café solúvel em Hong-Kong, Horacio Coimbra obteve visto do governo chinês para ele e seu “assessor”, a fim de participarem da Feira de Cantão e conseguiu agendar encontros com importantes personalidades em Cantão e, depois, em Pequim.

As informações a seguir foram extraídas do relatório pós-viagem, elaborado pelo empresário.

À época, a China estava isolada diplomaticamente do mundo, com poucas embaixadas, a maioria nos países comunistas e socialistas. Por isso, avultava em relevância a Feira de Cantão, de primavera (15 de abril a 15 de maio) e de outono (15 de outubro a 15 de novembro). Compareciam milhares de compradores e fornecedores estrangeiros e se fechavam negócios equivalentes a cerca de 60% das exportações da China e também se entabulavam operações de importação.

Horacio Coimbra e o diplomata Holanda Cavalcanti mantiveram reuniões em Cantão com o subsecretário geral de Feiras Sr. Huang Ching-po, e com o gerente-geral da China Resources Company, Sr. Fong Hoc Yin.

Para ilustrar a importância que os chineses deram ao empresário brasileiro, na noite de sua chegada em Cantão, dia 17 de outubro de 1971, ele foi homenageado com banquete oferecido pelo vice-presidente da Feira, Sr. Wong Yun-sang, atitude que demonstrava especial apreço pelo Brasil, haja visto que havia milhares de visitantes de países já parceiros de negócios com a China.

Nos discursos de saudação dos anfitriões, especialmente do Sr. Wong, foi enfatizado o interesse dos chineses em estabelecer laços de comércio com o Brasil, tese também esposada pelo Sr. Horacio Coimbra, ambos mencionando lista de produtos, incluindo café solúvel, factíveis de negócios de exportação e importação entre Brasil e China.

O sr. Wong organizou encontros do industrial com o secretário geral da Feira, com o responsável pela Corporação Nacional do Comércio de Minerais e Metais (os chineses já vislumbravam a futura importação de minério de ferro) e com o subchefe do Pavilhão de Produtos Alimentícios. Foram trocadas e discutidas listas de produtos de eventual interesse das partes.

Na capital chinesa, Pequim, o visitante foi recebido pelo vice-Ministro do Comércio Exterior, Sr. Chen Hsu-fu, que estava substituindo o ministro Pai Hsiang-kuo, em viagem à Argélia. Horacio enfatizou que sua viagem era estritamente particular, embora do conhecimento das autoridades de seu país, e o vice-ministro chinês ressaltou a conveniência recíproca de viabilizar-se fluxo comercial.

De retorno ao Brasil, Horacio Coimbra elaborou relatório ao governo federal com os principais aspectos econômicos de sua viagem. Ele proferiu várias palestras a dirigentes de classe patronal e reuniu-se com Ministros de Estado e com Oficiais de nossas Forças Armadas, expondo as vantagens do Brasil reatar vínculos de comércio com a China.

Quando os chineses vieram ao Brasil para entendimentos referentes ao reatamento de relações, inicialmente somente comerciais, foram recepcionados na casa de Horacio Coimbra em São Paulo. Eles pediram ao Itamaraty incluir essa programação na agenda oficial, porque queriam retribuir o gesto de amizade da visita pioneira ao seu país.

A semente lançada pelo empresário de café solúvel em 1971 viria a frutificar em 1974 no governo Ernesto Geisel, quando foram restabelecidas as relações diplomáticas Brasil e China, seguindo-se 30 anos de profícuo intercâmbio comercial e tecnológico, transformando-se a China no terceiro maior importador de produtos brasileiros. Com a ida do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva à República Popular da China espera-se ainda maior incremento do comércio entre os dois países, mais acordos tecnológicos de mútuo interesse e recíprocos investimentos em áreas estratégicas.

Léo de Almeida Neves ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil. Autor dos livros “Destino do Brasil: Potência Mundial, Editora Graal, RJ, 1995, e “Vivência de Fatos Históricos”, Editora Paz e Terra, SP, 2002.