O deputado Rodrigo Maia (PFL-RJ) leu, na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga denúncias de corrupção nos Correios, um texto que, segundo ele, seria um comentário do diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Mauro Marcelo de Lima e Silva, classificando os parlamentares da CPI de "bestas-feras em pleno picadeiro". O relator Osmar Serraglio (PMDB-PR) disse na sessão que o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Armando Félix, confirmou a existência da nota e explicou que ela foi publicada no sistema interno da Abin. Ainda assim, os integrantes da CPMI apresentaram requerimento ao GSI para verificar a autenticidade do comentário. Até o momento, a Abin não se pronunciou sobre o assunto.

Na suposta nota, Mauro Marcelo de Lima e Silva teria dito que há mais de um mês acompanha com "perplexidade" o envolvimento do nome da Abin com o caso dos Correios e que teria tentado até a última hora evitar o depoimento do agente Edgar Lange à CPI, porque isso traria estragos à atividade profissional do agente e à reputação da agência. "Nesse exato momento, o que deve fazer é elogiar a conduta do profissional Lange, como um verdadeiro herói ao enfrentar as bestas-feras em pleno picadeiro", afirmaria a nota.

O diretor teria dito ainda que está "pessoalmente" tentando entender "a falta de empenho" da Advocacia-Geral da União (AGU) na proteção do servidor. "Desse episódio vamos tirar muitas lições, mas lembrem-se, só podemos consertar o telhado com o tempo bom", conclui.

Em depoimento à CPMI realizado na semana passada, o agente Edgar Lange disse que recebeu uma determinação da chefia de departamento em que serve na Abin para que apurasse possíveis casos de corrupção nos Correios. A partir daí, o agente disse ter preparado um "plano de operações", que foi aprovado pela diretoria geral. Ele contou ter recolhido "o maior número de dados possível", todos de domínio público, como contratos e respectivos valores. Lange informou ainda que essa coleta de material teria sido feita uma semana antes da divulgação da reportagem da revista Veja sobre o suposto esquema de corrupção nos Correios.

Os parlamentares da CPI reagiram ao suposto comentário, que já está sendo considerado verdadeiro por eles. O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) pediu a demissão do diretor-geral da Abin. "É inaceitável essa nota. É um desrespeito ao Congresso Nacional. O governo deve tomar medidas imediatas contra esse servidor. No mínimo tem que demitir de imediato", afirmou. Para Cardozo, o Congresso também deve agir e entrar com ação contra Lima e Silva. "O Congresso tem que entrar com ação na justiça contra esse servidor. Ele usou termos injuriosos e agora cabe as procuradorias da Câmara e do Senado entrarem com as medidas judiciais cabíveis", disse.

O presidente e o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, senador Delcídio Amaral (PT-MS) e deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), cobraram uma atitude do governo contra o diretor da Abin. "Se o governo for inteligente, vai ser tão rápido no gatilho como foi o PFL", disse Serraglio ao se referir à expulsão do deputado João Batista Ramos da Silva, pela Executiva Nacional do partido, um dia depois de ele ter sido detido no aeroporto de Brasília com sete malas que continham mais de R$ 10 milhões em dinheiro.

Já o presidente da comissão acredita que o governo tomará as providências necessárias. "Não se pode confundir uma atividade do Congresso, as atividades da CPMI, com posturas desse nível. É absolutamente inadmissível", disse Delcídio Amaral. Ele acrescentou que providências contra a atitude do diretor-geral da Abin se fazem necessárias "pela delicadeza do momento e pelas expressões utilizadas nesse comunicado". Delcídio Amaral acrescentou que o momento político vivido pelo país requer tranqüilidade.