Brasília (AE) – Parlamentares que participam das CPIs dos Correios e da Compra de Votos contestaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou haver no País uma "onda de denuncismo, com centenas e centenas de denúncias", e que os deputados estão com muitas dificuldades para apurá-las. "A corrupção nos Correios, por exemplo, é endêmica; e parlamentares do PL renunciaram ao mandato, o que é uma confissão de culpa no recebimento de dinheiro, só para citar dois exemplos", disse o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR).

Para o deputado Antonio Carlos Neto (PFL-BA), o presidente Lula foi de novo vítima de "incontinência verbal" no discurso na Câmara Brasileira da Construção, hoje (3), em São Paulo, quando disse que há 120 dias o País vive uma onda de denuncismo que não chega a lugar nenhum. "O presidente não consegue entender o trabalho das CPIs. Para não dar explicações sobre a corrupção, fala em denuncismo. Ele se esquece de que nenhuma das denúncias foi feita pela oposição, mas pelo próprio governo ou pelo PT", afirmou ACM Neto. "Ou o Silvio Pereira, que disse ter a certeza de que a cúpula do PT sabia do caixa 2, e o presidente da CPI, Delcídio Amaral, que também falou em caixa 2, não são do PT?".

O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), da bancada do governo na CPI dos Correios, foi cuidadoso ao falar sobre o discurso do presidente Lula. Para ele, as críticas de Lula devem ser vistas "como um incentivo para que as investigações continuem". Cardozo disse que Lula procurou refletir o que a sociedade pensa: que todas as denúncias devem ser investigadas. "Muita coisa já foi apurada e muita coisa está para ser apurada. Entendo as críticas do presidente como uma cobrança para que apuremos tudo".

Ao contrário dos outros, o deputado Jorge Bittar (PT-RJ) também da CPI dos Correios, disse que concorda plenamente com o presidente Lula. "Já disse na CPI que tem muita gente que não pode ver um holofote aceso que se anima e corre para a frente dele, com uma denúncia ou uma afirmação infundada", afirmou. "Dizem que é o maior esquema de corrupção já montado no País, falam no envolvimento de fundos de pensão, em contas no exterior em superfaturamento da publicidade. E não comprovam nada".

Para Bittar, se o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza não tivesse entregado à Polícia Federal, ao Ministério Público e à CPI dos Correios e da Compra de Votos a lista das pessoas que recebiam recursos de suas contas, ninguém teria chegado a lugar nenhum. "Nossa salvação foi o Marcos Valério". Bittar quer que a CPI encerre seus trabalhos em dezembro e mande tudo o que apurou para o Ministério Público. "As CPIs investigam mas são também órgãos políticos. Por isso, se interessam mais em tumultuar a vida do governo do que em apurar", afirmou.