Voluntários fazem Natal para solitários

Quando dezembro chega, é inevitável olhar para os lados e  ver a cidade toda enfeitada, propalando o espírito natalino. E quando se fala em Natal, se lembra de estar ao lado dos entes queridos e dividir as alegrias e os momentos de reflexão em torno do símbolo maior de Natal: Jesus Cristo.  

Porém para muitas pessoas, esta visão poética de Natal é apenas utopia. Por um motivo ou outros, algumas pessoas vivem completamente sozinhas, sem sequer um amigo para dividir a ceia natalina. ?Há pessoas que são viúvas, outras separadas, outras ainda nunca casaram e há quem não tenha amigos. A solidão nesta época do ano é um grande mal e não é à toa que dezembro é o mês com maior registro de suicídios?, diz o frei Alvadi Pedro Marmentini.

Pensando nestas pessoas, a Paróquia Nossa Senhora das Mercês (Igreja dos Capuchinhos) criou há quatro anos o Natal dos Solitários. Na noite do dia 24 para o dia 25, no salão da igreja, acontece uma grande ceia natalina, servida a partir de pratos levados pelos próprios convidados. ?É uma grande confraternização e, muitas vezes, os solitários acabam fazendo novos amigos na comemoração?, explica o frade. A festa começa sempre após a missa do dia 24, que este ano cai num domingo. ?Também fazemos uma ceia especial na virada do ano, outra data em que ninguém quer ficar sozinho.?

Para participar do Natal solitários, basta se inscrever pelo telefone 3335-5752. ?No ano passado, foram quase 150 pessoas. Por isso, pedimos que as pessoas se inscrevam com antecedência para que possamos organizar a festa?, explica o frade. Além dos pratos solicitados aos convidados, a igreja também contará com uma doação para fazer um jantar com tudo o que se tem direito.

Mais do que não deixar o Natal passar em branco para quem vive na solidão, a idéia da igreja é trazer as pessoas ao convívio, tratando especialmente do aspecto psicológico. ?As pessoas sozinhas estão mais expostas a sofrer de doenças físicas e emocionais. Nossa intenção é dar alguns momentos de alegria em uma data tão especial.?

Idosas mudam rotina natalina de instituição

Foto: João de Noronha/O Estado
Antônia Wandenbruch.

Enquanto o brinde ao nascimento do Menino Jesus estiver sendo feito em casas de cristãos por todos os cantos, em uma casa muito especial também estará sendo comemorado o Natal, com direito a uma ceia caprichada e missa para o aniversariante do dia. Trata-se do Centro de Integração dos Idosos, onde vivem quase 150 velhinhas – muitas delas não têm mais contato com a família ou simplesmente ficaram sozinhas no mundo.

Mas o que para muitos pode ser encarado como momentos de tristeza e solidão, para elas é uma conseqüência da vida, que procuram tirar de letra. ?Antes de viver aqui, meus Natais não eram muito felizes. Quando eu era criança, fiquei órfã e vivia de um lado para outro. E quando casei, a gente fazia coisa simples, só pra não deixar passar em branco?, diz Encarnacion Vicentini, de 87 anos. Hoje a rotina natalina é diferente. Ela é uma das 30 senhoras que participam da programação preliminar ao dia 25, que inclui cinco apresentações do coral natal Solidário da Vovó Noel. ?É uma alegria cantar para o público e ver a emoção das pessoas. Não tem presente melhor?. Na ceia do dia 24, ela vai estar ao lado das colegas e acredita que vai se divertir. ?São boas companheiras e no ano passado, já foi um Natal muito alegre?.

Antônia Wandenbruch, que vive há dois anos no centro, vai passar a ceia longe das amigas, já que vai para a casa do filho, em Piraquara. Mas assim como Encarnacion, está vivendo o espírito natalino desde a primeira apresentação do coral. ?É gratificante. O melhor presente de Natal que a gente ganha é ver a criançada com os olhos brilhando a cada apresentação. Nos vestimos de mamães-noéis e damos doces à criançada. É uma festa?. Ela lembra com saudade dos natais passados, quando a família dela fazia muita festa, com baile e ceia. ?Esse tempo passou, mas o que importa é manter a emoção de comemorar o Natal?.

Segundo o diretor da entidade, padre José Aparecido, é justamente o espírito natalino da solidariedade que deve ser mantido. ?Essas comemorações pretendem despertar e proporcionar às moradoras, aos colaboradores, à comunidade e aos participantes do São Vicente de Paulo toda a magia do Natal?.

Abrigados aproveitam data para criar ambiente de lar

Foto: Daniel Derevecki/O Estado
Jorge Augusto Dähru.

O calor do lar é algo que passava distante da vida de cerca de 60 pessoas que hoje vivem em um abrigo da Prefeitura. Não que hoje elas tenham necessariamente um lar. Mas a direção da casa tenta, na medida do possível, tornar o local de convivência o mais aprazível possível.

?Nós ensaiamos um auto de Natal, com a participação dos mais animados. E no dia do Natal, vamos fazer uma ceia caprichada para eles?, diz Roseli Muraski, diretora da casa. Ela conta que a maioria dos que vivem no abrigo viviam nas ruas e foram encaminhados pela Fundação de Ação Social.

No caso de Jorge Augusto Dähru, que faz o Rei Augustus e o Anjo Gabriel no auto, realidade se mistura à fantasia para explicar como ele acabou sozinho no mundo. ?Meus pais morreram e eu era filho único. Vivi em um mosteiro, só que saí da congregação para virar vendedor. Acabei me acidentando em um trabalho temporário e fiquei sem as pernas?, diz, apesar da versão do abrigo dar conta que a perda das pernas está relacionada a um diabetes e que Jorge tem um irmão rejeitado.

Culto e com uma impressionante memória para datas, é difícil entender como ele acabou nas ruas até ser recolhido pela FAS. Dos tempos de seminarista, guarda no coração o verdadeiro significado do Natal, apesar de andar desgostoso com o caráter capitalista que a data assimilou. ?Infelizmente, o espírito natalino se transformou em comércio. Não se pensa mais em Jesus Cristo, no amor que ele propagou?, diz.

Jovens carentes experimentam festa pela primeira vez

Foto: Aliocha Mauricio/O Estado
Renato brinca no abrigo.

De longe, os pequenos são os que mais se encantam com o Natal. Da crença ao Papai Noel às guloseimas da época, contam os dias para a chegada do dia 25. No entanto, para algumas crianças, a data passa longe à sua percepção. Em comunidades extremamente carentes, as festas se limitam à distribuição de presentes por alguma empresa ou grupo que se preocupa com os mais carentes.

É o caso de Renato (nome fictício), que com 11 anos vai comemorar pela primeira vez um Natal com uma grande festa. É bem verdade que não é na melhor das circunstâncias. Ele e mais cinco irmãos mais novos foram retirados dos pais, usuários de drogas, pelo conselho tutelar. Há algumas semanas, vivem em uma casa-abrigo, onde hoje haverá ceia e Papai Noel, graças a caridade das pessoas. ?Eu já ganhei um jogo de tabuleiro e outro de futebol de botão. Já aprendi a jogar até?, diz. Ele conta que nunca comemorou o Natal em família. ?Na minha casa, nunca teve festa. Não trocávamos presentes?.

Segundo Mari Lourdes da Rosa, que comanda a casa, os presentes vêm de empresas e doações espontâneas, que querem fazer do Natal das crianças uma época mais feliz. ?Elas geralmente são de origem simples e muitas nunca tiveram Natal. É um mundo diferente para eles poder receber presentes e partilhar uma ceia?, diz.

Vítimas da violência doméstica, os jovens foram afastados do convívio familiar e a direção tenta, no mínimo, tornar a vida deles menos sofrida.

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