Enquanto milhares de estudantes retornaram às salas nesta segunda-feira (27), uma pergunta passa a fazer parte do debate sobre o novo semestre: como chegam os professores para mais um período letivo? No Paraná, o retorno às aulas acontece sob um cenário de desgaste emocional, sobrecarga e desânimo. É o que revela uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Casagrande Social.
Entre os 605 docentes paranaenses ouvidos, 69,1% afirmam terminar a jornada de trabalho diária emocionalmente esgotados. Mais da metade (51,6%) admite ter pensado seriamente em abandonar a docência ao menos algumas vezes no último ano.
Os resultados fazem parte da pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, que ouviu 5.247 docentes de todas as etapas da Educação Básica, da Educação Infantil ao Ensino Médio, em escolas públicas e privadas das cinco regiões do país. Desse total, 18,3% dos participantes são da Região Sul e 605 atuam no Paraná. Entre todos os entrevistados, 71% trabalham nas redes públicas municipais ou estaduais.
Os números paranaenses também mostram que 87,6% dos participantes acreditam que a profissão ficou mais complexa nos últimos anos, 84,3% entendem que as responsabilidades ultrapassam a função de ensinar e 78,1% dizem continuar trabalhando fora da jornada prevista.
Após analisar os resultados, Renato Casagrande, presidente do Instituto Casagrande Social e organizador da pesquisa, afirma que o problema vai além do aumento da carga de trabalho.
“O professor não está simplesmente trabalhando mais. Ele está sendo chamado a responder por um número cada vez maior de problemas. A profissão se expandiu, as responsabilidades se multiplicaram e as estruturas de apoio não cresceram na mesma velocidade. O problema do professor contemporâneo não é apenas excesso de trabalho. É excesso de complexidade.”
A escola continua quando o expediente termina
Os números ajudam a dimensionar o problema. Os relatos mostram como ele acontece na prática. Uma professora da Educação Infantil, que pediu para não ser identificada por receio de sofrer represálias, descreve uma sensação comum entre muitos colegas. “Eu saio da escola, mas a escola não sai de mim.”
Outra docente do Ensino Médio relata que demorou para perceber que o problema não era somente o cansaço. “Eu não dizia que estava doente. Eu dizia que estava cansada. Só que eu estava cansada todos os dias, inclusive depois de dormir e depois do fim de semana.”
Já uma docente dos anos iniciais resume como o trabalho passou a consumir também a vida fora da escola. “Eu dava tudo o que tinha na escola. Quando chegava em casa, não sobrava mais nada para mim.”
Na avaliação de Casagrande, esse é um dos aspectos menos visíveis da profissão atualmente. Segundo ele, as férias acabam funcionando apenas como uma pausa temporária.
“As férias interrompem o trabalho por algumas semanas, mas não modificam aquilo que está produzindo o esgotamento. O professor descansa e volta para encontrar novamente a sobrecarga, a burocracia, a indisciplina, os conflitos e uma quantidade enorme de responsabilidades.”
Pressão dentro e fora da sala de aula
O desgaste não se resume ao excesso de trabalho. A pesquisa também revela mudanças na relação entre professores, estudantes e famílias. No Paraná, 61,5% dos docentes afirmam já ter enfrentado situações recorrentes de desrespeito por parte de alunos.
Outros 77,3% acreditam que a autoridade do professor diminuiu nos últimos anos e 44,6% dizem não se sentir respaldados pelas instituições quando precisam enfrentar conflitos envolvendo alunos ou familiares.
Um professor do Ensino Médio ouvido na pesquisa afirma: “Hoje você pensa duas vezes antes de chamar a atenção de um aluno. Você não sabe como ele vai reagir, se a família vai reclamar ou se alguém vai filmar e colocar aquilo nas redes sociais.”
Os dados dialogam com pesquisas internacionais. Segundo a TALIS 2024, da OCDE (da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), 47% dos professores brasileiros apontam intimidação ou abuso verbal praticado por estudantes como fonte importante de estresse. O levantamento também mostra que 21% relatam elevado nível de estresse no trabalho, percentual superior aos 14% registrados em 2018.
Outra pesquisa, conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), identificou sinais de burnout em praticamente um a cada três professores da Educação Básica.
O medo de abandonar a profissão
O levantamento mostra ainda que 19,2% dos professores paranaenses relatam ter se afastado do trabalho no último ano por problemas de saúde que associam, total ou parcialmente, à atividade profissional. Mas talvez o dado mais preocupante da pesquisa seja outro: muitos professores já não sabem por quanto tempo conseguirão permanecer na profissão. Mais da metade dos participantes paranaenses afirma já ter pensado seriamente em deixar a docência.
Para Renato Casagrande, o resultado revela uma contradição importante. “O professor não deixou de acreditar na educação. O que está acontecendo é que muitos começaram a duvidar se conseguirão continuar exercendo a profissão nas condições atuais.”
Ao comentar o retorno às aulas, Casagrande afirma: “Nós verificamos se as escolas estão prontas, se o material chegou, se o calendário está organizado e se as metas estão definidas. Mas precisamos começar a perguntar também: como estão os professores que vão entrar nessas salas de aula?”
E conclui: “Não haverá educação de qualidade de forma sustentável com professores permanentemente esgotados, desprotegidos e desvalorizados. Cuidar do professor não é apenas cuidar de uma categoria profissional. É cuidar do futuro da própria educação.”
E, depois de todos os percentuais apresentados ao longo da reportagem, a última voz é a de uma professora dos anos finais do Ensino Fundamental, que resume o sentimento de muitos colegas: “Eu não quero deixar de ser professora. Eu quero deixar de viver desse jeito.”
O que diz a Secretaria de Educação
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) informou que mantém uma série de ações voltadas à valorização e ao cuidado com a saúde dos profissionais da rede estadual de ensino. Entre elas está o Programa Bem Cuidar, desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), que oferece atendimento gratuito em áreas como psicologia e psiquiatria aos professores da rede estadual. Segundo a pasta, mais de 28 mil servidores já foram atendidos desde a criação da iniciativa.
A Secretaria também destacou que a rede estadual conta com equipes multiprofissionais formadas por cerca de 300 psicólogos e assistentes sociais, distribuídos pelos 32 Núcleos Regionais de Educação, responsáveis por prestar suporte às escolas e aos profissionais da educação.
Em relação ao quadro de docentes, a Seed informou que segue investindo na ampliação da rede. Na semana passada foi publicado o edital do Processo Seletivo Simplificado (PSS) para contratação temporária de professores e pedagogos. As inscrições ocorrem entre 27 de julho e 24 de agosto, com prova objetiva prevista para 18 de outubro.
Ainda de acordo com a Secretaria, o número de professores da rede estadual passou de 80.467, em 2023, para 84.175, em 2025, um crescimento de 4,6% no período.
Por fim, a pasta ressaltou que os desafios relacionados à saúde mental não se restringem à educação, mas têm sido observados em diferentes categorias profissionais, especialmente no período pós-pandemia. A Seed também esclareceu que os registros envolvendo saúde dos docentes referem-se a licenças médicas temporárias, com diferentes durações, e não representam afastamentos permanentes da atividade docente.
*Nota da Redação: Os depoimentos reproduzidos nesta reportagem foram colhidos durante a etapa qualitativa da pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026. Para garantir a proteção dos participantes, todas as identidades foram preservadas.
