A chegada do corpo do mestre-de-obras Sérgio dos Santos Silva, de 28 anos, em São Tomé, a cerca de 550 quilômetros de Curitiba, no noroeste do Paraná, às 17h de ontem, transformou-se em um ato pela paz. Ele foi a única vítima fatal brasileira no atentado ao metrô de Madri, ocorrido na quinta-feira passada. Pelo menos 50 carros foram a Cianorte, distante 18 quilômetros, e voltaram acompanhando o carro funerário, com a palavra paz pintada no vidro traseiro. Na entrada da cidade, um grupo de estudantes se reuniu para prestar as homenagens, que se estenderam pela rua principal, por onde passou o cortejo. O corpo será sepultado hoje, às 9h, no cemitério municipal.

Sérgio foi à Espanha no fim de setembro do ano passado, na tentativa de conseguir dinheiro para construir uma casa para a mulher e o filho, de 4 anos. Vitimado pelo atentado terrorista às estações de trem em Madri, ele chegou em um caixão lacrado. Desespero dos familiares, sobretudo da mulher, Sara Alves da Silva, de 21 anos. Sem entender muito o que estava acontecendo, seu filho, Miquéias, permanecia no colo de familiares, apenas com os olhos assustados de ver tanta gente.

O amigo José Corrêa, também de São Tomé, acompanhou o caixão desde Madri. Ele retorna domingo, mas é por pouco tempo. “Creio que até o fim do ano estou de volta”, afirmou. A decisão foi tomada após o atentado. “Não dá mais.” Seu irmão Edivaldo e a irmã Ediene talvez voltem antes. Segundo ele, no vôo em que chegou o caixão havia outros 40 brasileiros que desistiram da Espanha.

No velório, que iria se estender noite adentro, muitos fizeram questão de lembrar da existência de Sérgio, como a tia Maria Aparecida dos Santos Cordeiro, que o criou desde os dois anos de idade, quando os pais se separaram. “Ele sempre foi obediente, nunca precisou apanhar quando criança”, dizia Maria Cordeiro. Sem ter terminado o primeiro grau, o rapaz trabalhava havia mais de sete anos em uma indústria química de mandioca em São Tomé, quando decidiu ir à Espanha em busca de melhor remuneração. No dia do embarque, relembra a tia, ele disse que, caso o avião explodisse, estaria preparado para a morte. No domingo anterior à sua morte, ele telefonou para quase todos os familiares. “Para todos ele dizia que as pessoas precisam se entregar a Jesus”, lembrou a tia.