Foto: Aliocha Maurício/O Estado

Árvores transgênicas continuam proibidas.

Os organismos geneticamente modificados seguem sendo o tema mais polêmico da 8.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8), que está acontecendo no ExpoTrade, em Pinhais. Após o encerramento dos debates sobre a tecnologia Gurts – quando foi mantida a moratória proibindo a comercialização e as pesquisas de campo com as sementes suicidas -, o assunto que chamou as atenções ontem foi as árvores transgênicas. E a posição brasileira de postergar o cultivo de árvores transgênicas acabou sendo acolhida pelos demais países.

 Ficou acertado que o assunto será analisado pelo órgão científico e tecnológico da convenção, o chamado Sbstta (do inglês Subsidiary Body on Scientific, Technical and Technological Advice). As recomendações do grupo intergovernamental serão então encaminhadas à COP9, em 2008, para que alguma posição sobre esses cultivos seja tomada.

No entanto, outro grupo de países, liderados por Canadá e Austrália, argumentaram que já há estudos de impacto que permitam as pesquisas de campo em determinadas áreas e que as determinações sobre as árvores transgênicas deveriam ser tomadas agora. Esse grupo pretendia uma avaliação global dos riscos da plantação de árvores geneticamente modificadas por as considerarem uma das principais ameaças à conservação da biodiversidade.

O interesse brasileiro se explica, pois empresas produtoras de celulose e papel têm financiado experimentos autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) com árvores transgênicas de eucalipto. Para o diretor de Conservação da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, Paulo Kageyama, a CDB precisa realizar uma profunda avaliação sobre as plantações de árvores geneticamente modificadas antes de se posicionar sobre essa tecnologia.

Produção crescente

No Brasil, quase toda a produção de papel e celulose é destinada ao mercado externo. Na última década, essas vendas cresceram 5% a cada ano. A monocultura de pinho e eucalipto, principalmente, também está associada a disputas por terras em vários estados. O eucalipto hoje ocupa mais de três milhões de hectares no País, fazendo do Brasil a maior área plantada com a espécie em todo o mundo e o maior produtor global de celulose, com cerca de 6,3 milhões de toneladas por ano.

Grandes laboratórios e empresas de madeira e papel têm investido, desde a década de 1990, milhões de dólares para promoverem mudanças genéticas em eucaliptos e pinus para conseguirem árvores resistentes a pragas, a herbicidas e a variações de temperaturas. Também já se desenvolveram árvores com crescimento mais rápido e com maior quantidade de celulose e menos lignina – substância que dá resistência à madeira, mas não serve para a fabricação de papel.

Outro lado

Em um evento paralelo, no Fórum da Sociedade Civil, do lado externo do ExpoTrade, em uma palestra contra as monoculturas de árvores, a organização Núcleo Amigos da Terra Internacional alertou que essas árvores causariam desequilíbrio nos ecossistemas, prejudicando o solo, eliminando elementos da cadeia alimentar, como os insetos, podendo causar impactos irreversíveis à biodiversidade. ?Não existem estudos suficientes ainda. Precisa-se de avaliações mais rigorosas e isentas de interesses, enquanto isso, cobramos uma moratória?, declarou a ativista Ann Paterman, que indicou a posição dos movimentos ambientais nesta questão: definição clara das florestas, excluindo as monoculturas de árvores exóticas da definição; inclusão das monoculturas de florestas como uma das principais causas de perda de biodiversidade; e proibição das árvores transgênicas.