Em menos de uma hora o temporal
conseguiu bloquear o trânsito,
numa imagem atípica: o granizo
acumulado era como neve pelas
calçadas e gramados.

Um forte vendaval, acompanhado de chuva de granizo, causou muitos estragos em Curitiba no final da tarde de ontem. Diversas ruas ficaram interditadas, tanto por árvores que foram derrubadas pelo vento, ou pela grossa camada de gelo que tornou as ruas escorregadias e intransitáveis. Muitas residências e estabelecimentos comerciais foram destruídos e o Corpo de Bombeiros não teve condições de atender todas as ocorrências. Os hospitais Cajuru e Evangélico ficaram parcialmente impedidos de atender o público, porque foram alagados e grande parte das vítimas foram transferidas para o Hospital do Trabalhador.

A dona-de-casa Rose Rodrigues Fernandes, que mora atrás do Parque Tanguá, estava desesperada. Ela e três filhos menores tiveram que sair correndo da casa, dividida ao meio por um eucalipto de mais de cinquenta metros de altura. A árvore também danificou outras duas casas na mesma rua. Rose e outros moradores da região chamaram o Corpo de Bombeiros, mas passada uma hora da ocorrência, ninguém havia prestado socorro. Maria Dália Oro, vizinha de Rose, conta que a população do bairro já tinha pedido para diversos órgãos o corte dos eucaliptos, mas não foram atendidos. “Quem sabe agora com essa tragédia eles tomem uma atitude”, desabafou.

No hipermercado Condor, na Rua Nilo Peçanha, quatro pessoas teriam ficado feridas levemente devido a queda de parte do telhado. No local, ninguém quis dar informações, mas a ocorrência foi confirmada pelo Hospital do Trabalhador, que recebeu as vítimas atendidas pelo Siate. O atendimento estava prejudicado. O Cajuru e o Evangélico tiveram equipamentos danificados por causa de alagamentos.

No bairro Alto da XV diversas ruas estavam interditadas, e os próprios moradores sinalizavam nas principais travessas. Além dos alagamentos e quedas de árvores, as ruas também foram fechadas porque muitos carros tiveram pane na parte elétrica e encalharam. Na fábrica Gelo Puro o telhado caiu e a casa ficou sem energia elétrica. O proprietário Valmor Simioni estima que irá perder seu estoque.

A comerciante Katiana Karan levou um susto quando chegou em casa e encontrou parte do cômodos e a loja de carpetes, no Jardim das Américas, alagadas. Como o local também estava sem energia, ela não tinha idéia dos prejuízos. O muro frontal do estádio do Pinheirão, no Tarumã, não agüentou e caiu. Apenas um vigia estava no local no momento do desabamento, e ninguém ficou ferido.

Polícia Militar não teve sossego

De acordo com as ocorrências registradas ontem na Sala de Imprensa da Polícia Militar, mais de 90% dos telefonemas para a central de atendimento 190 eram decorrentes do temporal que assolou a cidade.

As chamadas registravam queda de árvores sobre casas e estabelecimentos comerciais, alagamentos em residências e garagens de prédios e destelhamentos em casas e edifícios.

Os bairros mais atingidos foram Bigorrilho, Mercês, Pilarzinho, Bom Retiro, Santa Felicidade, São Braz, Ahú, Abranches, Jardim Social, Hugo Lange e Tarumã. Também nos municípios de Pinhais e Almirante Tamandaré houve destruição.

O comando da PM colocou praticamente todo o efetivo em ação – no final da tarde, em vez de troca de turno, como ocorreria normalmente, o efetivo foi dobrado e o restante das equipes ficou em estado de alerta.

Viaturas

Todas as viaturas do Siate e do Corpo de Bombeiros estavam nas ruas prestando atendimento às ocorrências. Mesmo assim, as vítimas do vendaval tiveram que ter paciência: estava impossível atender a todos os pedidos dentro do tempo normal.

“As viaturas saem de um local direto para outro e os telefones não param de tocar”, informou o soldado Domanski, da Sala de Imprensa.

Mais de 50 mil moradores de Curitiba ficaram sem energia elétrica durante a tarde e o início da noite.

No Pilarzinho, Mercês, São Francisco e parte do Centro, os semáfiros não funcionavam, exigindo atenção redobrada dos motoristas.

Serviços essenciais foram prejudicados

O temporal de ontem à tarde também atingiu os serviços essenciais, como abastecimento de água e energia, em toda a capital.

A Sanepar teve muito trabalho para atender as ocorrências.

Em menos de cinco horas a empresa recebeu mais de cinqüenta chamadas, sendo que o atendimento ficou ainda mais lento quando o sistema “on-line” saiu do ar. Além disso, muitas pessoas que não conseguiam ligar para o Copel chamavam pelo telefone 195 para pedir o fornecimento de energia.

Esgotos

A Sanepar confirmou que os casos mais sérios foram atendidos no bairro Jardim das Américas, onde seis casas tiveram refluxo de esgoto.

A Sanepar informou ainda que com a falta de energia, 40 mil famílias na Santa Felicidade e 30 mil no bairro São Francisco tiveram problemas com abastecimento de água.

Energia

A Copel não havia fechado, até por volta das 22h, o levantamento completo sobre os cortes de abastecimento, mas garante que muitos bairros ficaram sem energia devido a quedas de árvores e postes.

Em alguns locais, como na Avenida Vítor Ferreira do Amaral, oito postes caíram e a população ficou sem luz.

Mais atingidas

As áreas mais atingidas foram Centro, Pilarzinho, Bom Retiro, Mercês e Santa Felicidade. A Copel previa que até o final da noite o fornecimento deveria estar reestabelecido.

Centrais telefônicas também foram atingidas pelo temporal deste domingo.

A GVT sofreu pane, e usuários da operadora – principalmente na região central – ficaram sem telefone. Parte do telhado da TV e Rádio Educativa, que funciona dentro do prédio do Canal da Música, nas Mercês, desabou por volta das 17h.

O temporal danificou computadores e equipamentos de transmissão, e a programação das emissoras deverá ficar fora do ar durante no dia de hoje.

Vários funcionários estavam no prédio na hora do desabamento, mas ninguém ficou ferido. Os carros que estavam no estacionamento do Canal da Música ficaram cobertos de gelo. Os ventos também derrubaram a antena da TV Exclusiva, no mesmo bairro.

Mais chuva

A previsão do Simepar -Sistema Meteorológico do Paraná, é de mais chuva para esta segunda-feira em todo o Estado. O tempo só deve melhorar a partir de quinta-feira. Sobre o temporal de ontem, o Simepar informou que o fenômeno foi provocado pela entrada de uma frente fria, o que favorece a ocorrência de formação de granizo.

Durante o temporal, na estação do Simepar, que fica no Jardim das Américas, a velocidade do vento chegou a 30 quilômetros por hora. Nesta segunda, a temperatura em Curitiba vai variar entre 13ºC e 20ºC.

Bombeiros têm 150 chamadas

O Corpo de Bombeiros recebeu 150 chamadas durante o temporal. A maioria eram para atendimento de alagamento e queda de árvores. A corporação não teve condições de atender todas as solicitações, e algumas foram passadas para a Prefeitura de Curitiba.

Além das situações provocadas pelo temporal, o CB também atendeu diversas ocorrências de atropelamento e vítimas de arma de fogo. A mais grave aconteceu na BR 476 – rodovia do Xisto -quando dois veículos colidiram deixando nove vítimas. Morreu neste acidente Mário José Czaja, de 45 anos.