Quem utiliza os Faróis do Saber para fazer consultas bibliográficas ou usar a internet acaba se deparando com uma ?decoração? nada apropriada para o bem público: as pichações. Seja nos bairros ou nas bibliotecas localizadas no centro de Curitiba, elas estão lá, acompanhadas pelo vandalismo que, em muitos casos, resulta em vidros quebrados, jardins destruídos e roubo. Apesar de a maior parte das ações acontecer à noite, enquanto os locais estão vazios, alguns professores relatam que a ousadia é tamanha que até mesmo em plena luz do dia os pichadores resolvem deixar sua marca, afrontando usuários e funcionários da Prefeitura.
A Secretaria de Educação tenta mantê-los conservados, mas, mal dá tempo de pintá-los e, mais uma vez, os Faróis do Saber são novamente pichados. É o caso do Farol Gilberto Freire, no Santa Cândida. Pintado no final do ano passado, resistiu por pouco tempo. ?Na semana passada, estava aqui fora e picharam na minha frente, em plena luz do dia. O pior é que nem tinha como fazer nada?, conta a professora Grazieli Barbosa de Paula, que trabalha no local. Por ser anexo à uma escola, o farol ainda tem o privilégio de contar com a segurança permanente de um guarda que trabalha na instituição, mas nem assim há garantias de que o patrimônio seja preservado. ?Também picham quando não tem ninguém. A escola e o município fazem o possível. A parte de dentro, conseguimos preservar, mas a de fora…?, afirma outra professora que trabalha no farol até a noite, Marieta Largura. Ela convive ainda com o medo dos assaltos. ?Em determinado horário a gente chaveia a porta.?
A situação não é diferente no Farol Manuel Bandeira, no Pilarzinho. Em 2003, foi todo reformado, mas a pintura nova não durou até o ano seguinte. ?Quando a gente vê, já está feito o estrago. O vidro quebraram há pouco tempo, enquanto estávamos aqui. Alguém passou de carro e jogou uma pedra?, lembra a professora Maria Cristina Clímaco, apontando para a janela. À noite, além das pichações, também já houve roubo de computadores, além da placa que bronze que, em frente ao farol, anunciava os dizeres que a professora fez questão de guardar impressos em um papel: ?O Farol do Saber Manuel Bandeira, que completa a escola sinalizando as luzes do saber com toda a segurança…?.
No Farol Telêmaco Borba, localizado no Atuba, as professoras vivem a mesma situação. Neste, a placa de bronze também não existe mais, depois de ter sido substituída pela original, também roubada. ?E durante a noite terminaram de roubar a última porta de alumínio que restava protegendo o ar-condicionado do farol?, contava a professora Andréa Quadros quando da chegada da reportagem. Em outra ocasião, os computadores também foram levados e, tal como nos demais faróis, a fachada é pura pichação. ?Quando pintam, no outro dia já está pichado de novo. Aqui, estamos estudando a possibilidade de um projeto para trazer os pichadores para fazer grafite na escola (o farol é anexo ao Colégio Anísio Teixeira). Acho que é a única forma de resolver o problema?, acredita a professora.
Apesar de não espantar os usuários, a comunidade fica incomodada com o vandalismo que assola as bibliotecas públicas. ?É uma falta de respeito com o bem público. Quem faz isso deveria ter punição rigorosa?, diz o estudante Cleiton Cavejon. O aposentado Achille Feletto, que freqüenta o Farol do Saber perto de sua casa, também reclama. ?Não dá para compreender, nem aceitar. Acho que deveria haver um espaço público feito só para picharem. Quem sabe, assim, os outros locais poderiam ser mantidos.?
Prefeitura realiza obras de recuperação
| Ciciro Back/O Estado |
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| Faróis sem nenhuma proteção. |
É proposital que os Faróis do Saber tenham fácil acesso, sem muros ou grades, uma vez que foram construídos dentro dessa concepção. O problema é que é justamente essa característica que os desprotege das ações dos vândalos. ?Pintamos constantemente, mas na mesma semana picham de novo?, afirma o diretor de logística da Secretaria Municipal de Educação, Silos Roberto Vargas. Mesmo assim, a cada comunicado de nova pichações, a Prefeitura é acionada a pintar novamente para evitar que a sujeira apareça demais. ?Tentamos manter o mais limpo possível, mas, além da recuperação, também estamos trabalhando na linha da prevenção junto com a Guarda Municipal?, destaca.
Segundo Vargas, as pichações este ano caíram pela metade em relação a anos anteriores. Um dos fatores responsáveis seria o número de flagrantes registrados pela Guarda Municipal, responsável por monitorar o patrimônio público. Em 2004, 54 pessoas foram detidas por este motivo; no ano passado, este dado aumentou para 98 e, este ano, 88 pessoas foram pegas até agora pichando prédios públicos e privados. Desse total, 60 eram menores de 18 anos. ?Temos equipes trabalhando especificamente nesse combate e aumentou também o número de denúncias. São as solicitações da população as principais responsáveis pelos flagrantes?, justifica o coordenador do Centro de Operações da Guarda Municipal, inspetor Wagnelson de Oliveira. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 153 ou pelo 190.
Escritor analisa comportamento dos vândalos
| Ciciro Back/O Estado |
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| Tadeu: ?Letras estilizadas?. |
Enquanto fazia uma leitura no Farol do Saber Gibran Khalil, em frente ao Passeio Público, o escritor Tadeu de Miranda Fernandes se prontificou a comentar o assunto do qual a reportagem foi em busca. Lá, a pintura feita na semana passada durou intacta apenas alguns dias, e as pichações são mais uma vez ostentadas nas paredes do monumento, evidenciando que o vandalismo não se limita às periferias.
Fernandes pesquisou durante três anos o comportamento dos pichadores e, hoje, auxilia uma equipe da Pontifícia Universidade Católica (PUCPR) na elaboração de uma monografia sobre o tema. A partir de seus estudos, escreveu o livro Picharte, onde conta, em forma de poesia, o dia-a-dia dos guetos – como são chamados os grupos que delimitam seus territórios e provam sua coragem pichando o patrimônio público e privado.
Ele garante: pichar é uma arte, mas que está sendo aplicada no local errado. ?Eles usam letras estilizadas que, se fossem usadas nos lugares certos, expressariam uma cultura?. A curiosidade do escritor por desvendar a motivação dos pichadores ao cometer os atos de vandalismo o levou a descobrir que esta é a primeira forma de comunicação entre os ?manos? das ruas e que através dela eles expressam sua revolta pela não-aceitação. ?A linguagem que usam tem função de proteção e defesa de suas identidades, evidenciando o conflito de gerações. Por usarem calças caídas e brincos não são aceitos e pensam que, se tudo é proibido para eles, devem transferir isso para os muros?, explica.
Essa espécie de afronta social vem acompanhada de provas de masculinidade e enfrentamento de desafios. ?Pichar em lugares altos e de acesso difícil mostra a superioridade para o grupo?, afirma. Os códigos pichados dizem respeito à assinatura individual ou do grupo (o que é chamado de pichação ?teg?) e ao movimento do qual o pichador faz parte, demarcando seu território (o que se refere aos guetos).




