Inovação e tecnologia

“Vale do Silício” paranaense cresce longe dos grandes centros

Parque Tecnológico Agroleite, em Castro.
Parque Tecnológico Agroleite, em Castro. Foto: Agroleite Castrolanda / divulgação.

O Governo Paraná tem investido em expansão do seu ecossistema de inovação com novos parques tecnológicos no interior do estado. Embora o Paraná já conte com polos consolidados e com maior volume de capital nas grandes cidades e na Região Metropolitana de Curitiba, a abertura de novos ambientes em municípios como Umuarama, Lapa, Castro e Irati sinalizam a descentralização de recursos e das pesquisas tecnológicas.

Financiar equipamentos, adequar infraestruturas públicas e integrar universidades estaduais e federais com as demandas industriais e agrícolas locais são os eixos centrais de todo o avanço. Os novos parques têm sido viabilizados por meio de editais de fomento e parcerias com o governo estadual, como o Sistema Estadual de Ambientes Promotores de Inovação (Separtec) e a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI).

A criação desses novos espaços busca preencher uma lacuna entre a produção acadêmica e a aplicação prática nas regiões, tanto no agronegócio como no comércio, incentivando a educação e contribuindo para a gestão pública. Gestores e pesquisadores envolvidos na implementação desses ambientes acreditam que o modelo permite descentraliza os investimentos públicos e garante que pequenos e médios municípios também tenham condições de inovar.

Em vez de concentrar startups e laboratórios apenas nos grandes centros urbanos, a estratégia busca aplicar a tecnologia diretamente onde estão as grandes indústrias e a força da pecuária paranaense. Confira a seguir o que cada novo parque tem realizado:

Umuarama: do projeto acadêmico à aplicação na infraestrutura pública

Em Umuarama, o Parque Tecnológico local (Technopark) teve sua sede definida em um imóvel municipal de 12 mil m² e iniciou o processo de credenciamento e captação de recursos via Separtec a partir de 2023. A consolidação da estrutura levou a prefeitura a criar, em 2025, uma secretaria municipal voltada exclusivamente à Inovação, Ciência e Tecnologia, hoje instalada dentro do próprio parque. O espaço capta investimentos estaduais e municipais para arcar com equipamentos e custeio operacional, atuando com a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a Unipar.

A atuação do parque abrange diferentes frentes de formação técnica e suporte direto à gestão de municípios vizinhos. Por meio de iniciativas como o programa TecnoBIM, estudantes e graduandos de engenharia e arquitetura da região desenvolvem projetos de modelagem digital. O programa Projetech utiliza a estrutura do parque para que profissionais contratados via universidade elaborem gratuitamente projetos de infraestrutura urbana, como creches e postos de saúde, para cidades com menos de 30 mil habitantes da região.

Além disso, o complexo abriga laboratórios de desenvolvimento de grafeno, material de alta resistência, e soluções para o setor agropecuário, aproveitando a forte presença da pecuária de corte no município. “A universidade fazia os seus projetos e era algo exclusivo dela. O parque conseguiu integrar esse ecossistema, sendo um elo entre a academia, o empresário e o poder público. Isso facilitou o contato de todo mundo e aproximou a tecnologia da população, abrindo portas para que um jovem tenha um futuro promissor em uma área que está entre as que melhor pagam no mundo, sem precisar sair da sua região”, destaca Junior Ceranto, secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia de Umuarama.

Saber Tech na Lapa: tecnologia no corredor energético

No município da Lapa, o Parque Tecnológico Saber Tech surgiu para uma atuação regional que ultrapassa os limites do município. Ele nasceu da articulação entre a Associação Comercial local, o programa Pro Metrópole, o Sebrae e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), e está inserido geograficamente no corredor energético do estado. A região abrange os setores de biocombustíveis e xisto de cidades vizinhas como São Mateus do Sul e Araucária e vem para fomentar ainda mais com estudo e tecnologia na área.

Em termos práticos, o parque funciona como um centro de transferência tecnológica e incubação de empresas. Pesquisadores utilizam a estrutura para desenvolver novos produtos e subprodutos derivados do biodiesel e da biomassa, buscando transformar matérias-primas e commodities, como soja e milho, em insumos de maior complexidade e valor comercial. O parque conecta pesquisadores e investidores e utiliza metodologias de aceleração para diminuir os riscos do mercado de startups locais nas áreas de saúde humana, animal e meio ambiente.

“Entendemos que o processo tecnológico não tem fronteiras, ele é regional. O parque estuda, fomenta e desenvolve soluções dentro dos municípios para trazer inovações que vão agregar valor às empresas locais. Isso atrai produtos com melhores margens para alavancar o país e gera empregos de base tecnológica, de muito melhor qualidade para a população”, afirma Alvaro Pereira de Souza, diretor de negócios do Saber Tech e coordenador do Produtech na UFPR.

Castro: foco na biotecnologia da cadeia do leite

Em Castro, reconhecida nacionalmente pela produção de leite, a inovação ganhou um espaço dedicado com o lançamento oficial do Parque Tecnológico Agroleite, formalizado em agosto de 2024. A iniciativa uniu o Castrolanda Expo Center junto ao Separtec, transformando o local onde já ocorre um dos maiores eventos da pecuária leiteira da América Latina em um ambiente de inovação e pesquisa. O objetivo é conectar produtores, cooperativas, startups e universidades para elevar os padrões de sustentabilidade e produtividade do setor no mercado nacional e internacional.

O parque baseia suas operações em duas estruturas principais. A primeira é o Laboratório de Biotecnologia do Leite, viabilizado por recursos da SETI e da Fundação Araucária, com gestão científica e técnica conduzida pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). A estrutura é voltada à pesquisa avançada em derivados lácteos e controle de qualidade. A segunda é o Centro de Excelência em Bovinocultura de Leite do Senar Nacional, previsto para iniciar as atividades em 2027, que oferecerá cursos técnicos e especializações gratuitas focados na formação de mão de obra qualificada para o campo e para a indústria processadora.

Irati: retenção de talentos no Centro-Sul

Em Irati, a criação do Centro de Inovação e Tecnologia Terra dos Pinheirais atende a uma demanda histórica no Centro-Sul do estado. A cidade abriga instituições como a Unicentro, o Instituto Federal do Paraná (IFPR) e faculdades privadas, que juntas reúnem mais de 3 mil estudantes de graduação e pós-graduação e cerca de 1,2 mil programas de iniciação científica. A região precisava de um espaço físico para transformar o conhecimento gerado em empresas e soluções de mercado.

Diferente de projetos menores, a estrutura em Irati conta com um aporte do governo estadual de R$ 60,5 milhões, somado a uma contrapartida municipal de R$ 8 milhões. O projeto, atualmente em fase de licitação e com previsão de conclusão até 2028, vai reaproveitar a infraestrutura do teatro da cidade para criar ambientes de coworking, salas de capacitação e incubação de startups. O objetivo central é evitar a fuga de cérebros: sem um ambiente de inovação estruturado, profissionais qualificados e empresas da região acabavam migrando para polos maiores.

“A intenção do parque é fazer essa articulação e aproximar a academia da produção regional. As empresas necessitam de pesquisa e mão de obra especializada e, se não há essa dinâmica, elas migram. O que impulsiona a economia são pessoas qualificadas para empreender e inovar, e esse suporte financeiro do estado viabiliza o desenvolvimento econômico de toda a macro-região”, explica Michel Samaha, coordenador do Fundo Paraná.

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