Foto: Aliocha Maurício/O Estado

O sistema de transporte coletivo de Curitiba também sofre.

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O sistema de transporte coletivo de Curitiba se tornou referência no Brasil há alguns anos. O ligeirinho, os biarticulados e as estações-tubo viraram, inclusive, marcas registradas da cidade. As experiências também foram copiadas por muitas cidades no mundo, que procuravam uma forma de aliar baixos custos às soluções para atender as demandas, sempre crescentes. Entretanto, o transporte coletivo da cidade não é elogiado por todos os curitibanos. Ônibus cheios. Demora entre um veículo e outro. Filas nos pontos. Tarifa cara. Essas são as principais reclamações dos usuários entrevistados pela reportagem de O Estado sobre o transporte coletivo de Curitiba.

Os problemas são sentidos tanto por pessoas que usam o sistema diariamente quanto por quem pega ônibus esporadicamente. Mas há usuários que avaliam o transporte da cidade como satisfatório.

O aposentado Paulo Roberto Lopes diz que existem diversas linhas que saem do centro para o Cristo Rei, bairro onde mora. Por isso, pode escolher que ônibus pegar conforme sua necessidade ou comodidade. O gerente comercial Lauro Yagnyz afirma que as linhas são suficientes até a região onde reside, no Jardim das Américas. ?Gosto do transporte daqui, bem melhor do que o de São Paulo?, comenta Yagnyz, que mora em Curitiba há dois anos.

Para a aposentada Margarida de Almeida, seriam necessários mais ônibus durante o final de semana, quando os itinerários sofrem alterações. Há intervalos maiores entre um ônibus e outro da mesma linha. ?Moro na Fazendinha, um bairro onde mora um monte de gente. Sábado e domingo não dá para pegar ônibus porque são pouquíssimos?, lamenta.

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Pela mesma situação passa a dona de casa Erotilde Martins. ?Mais ônibus seria muito bom. Os alimentadores, no sábado e no domingo, passam com um intervalo muito grande: demora muito. Eu nem saio de casa no final de semana para não me chatear.? A professora aposentada Sônia Zanela também não gosta do grande período entre um ônibus e outro, mesmo durante a semana.

Margarida também enfrenta filas nos pontos da Praça Rui Barbosa e ônibus muito cheios, independentemente do horário, o mesmo problema vivido por Erotilde. ?Nas minhas linhas, do Conjunto Mercúrio e Centenário-Boqueirão, nunca tive problemas. É bem tranqüilo durante o dia. Mas já precisei pegar ônibus que, em horário de pico, viram verdadeiras latas de sardinha. É muita gente. É um inferno?, relata Erotilde. A dona de casa Ângela Maria Ramalho e o pedreiro Élcio Ramalho, pai e filha, contam que os ônibus lotados nem param nos pontos na Vila Rio Bonito, em Campo do Santana, onde moram. ?De manhã, os ônibus estão lotados. Tem uns que nem param no ponto. Isso é um absurdo?, declaram.

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Além de enfrentar essa rotina estafante, o usuário muitas vezes se aperta nas contas no final do mês por causa da passagem de ônibus. ?Agora, com R$ 1,80, está melhor, mas poderia abaixar ainda mais. Facilitaria para o pessoal que ganha menos, e que também mora bem mais longe?, acredita a dona de casa Risolete Eduardo. Para Ângela Ramalho, a tarifa está com um valor exorbitante. ?Dá um peso enorme no orçamento da família. Se aumentar a tarifa, não vai dar mais para andar de ônibus?, informa.

Outra reclamação comum é a conduta dos motoristas dos ônibus, que freiam em cima dos pontos ou das estações – tubo. Além disso, arrancam antes da hora e não param no ponto corretamente. ?Em um domingo, o motorista parou antes do ponto e não respeitou a fila, que era enorme. Teve gente que entrou antes no ônibus e foi uma confusão. Um passageiro ficou discutindo com o motorista?, lembra a operadora de telemarketing Desyrre de Oliveira, que mora em Rio Bonito, região sul de Curitiba, e usa ônibus quase todos os dias.

O presidente do Sindicado dos Motoristas e Cobradores da Grande Curitiba (Sindimoc), Denílson Pires, argumenta que esse tipo de atitude não é regra entre os motoristas, mas é motivada pela pressão em cumprir horários determinados pela Urbs, órgão que coordena o sistema de transporte coletivo em Curitiba. 

Ônibus lotados incomodam os passageiros

A operadora de telemarketing Desyrre de Oliveira passa 3 horas de seu dia dentro de ônibus, para ir trabalhar no centro da cidade e voltar para casa. De acordo com ela, os maiores problemas são os ônibus lotados, que demoram para passar pelo ponto. ?Se eu me atrasar, é melhor nem ir mais para onde eu quero. Demora demais. Passo na garagem de uma empresa de ônibus e tem um monte de veículos parados. O povo está pagando. Isso é brincar com a gente?, afirma.

Durante o trajeto, ela ainda presencia brigas e bagunça feitas por grupos de adolescentes. ?Acham que são os donos do ônibus. À noite, o pessoal volta cansado, quer pegar o ônibus sossegado, mas não consegue por causa disso?, conta. Desyrre revela ainda que muitas pessoas entram sem pagar nos ônibus, e os cobradores não fazem nada.

A operadora precisa utilizar freqüentemente o sistema de transporte coletivo aos domingos, quando a tarifa custa R$ 1, por também trabalhar neste dia. Apesar do preço da passagem, ela não vê tantas vantagens em andar de ônibus no domingo. A quantidade de veículos diminui muito, fazendo com que os ônibus fiquem lotados. ?Nunca vi tanta gente?, comenta. Ela acredita que sua rotina estressante vai ser minimizada nos próximos dias, pois há projetos para mudanças da linha que pega diariamente, o que vai diminuir o número de passageiros. (JC)

Mulheres sofrem com assédio sexual

Além da rotina estafante, as mulheres sofrem com um problema em particular dentro dos ônibus: o assédio sexual. Muitos homens aproveitam a situação, com o veículo lotado de passageiros, para cometer atos libidinosos.

A própria Desyrre foi alvo de um desses usuários, quando pegou a linha Colombo-CIC. Um rapaz a observava quando ela ainda estava no terminal. Ele entrou no mesmo ônibus que ela. ?Notei uma mão em cima da minha e vi que era do rapaz. Tirei a mão dele, achando que ele iria se tocar. De repente, senti algo atrás de mim. Anteriormente vi que era uma mulher que estava atrás de mim, de pé. Por isso, pensei que era a bolsa dela. Quando vi, era ele. Ele ficou se encostando. Dei uma cotovelada. Mudei de lugar, amparada por outros passageiros. Fiquei morrendo de raiva. Acho que tem gente que sai de casa preparada para fazer isso?, relata.

A delegada titular da Delegacia da Mulher, Darli Rafael, diz que esse problema acontece todos os dias. As passageiras, porém, não denunciam os casos de assédio. Em 2004, foram somente dois registros; neste ano, nenhum. Ela explica que existem situações que homens se esfregam proposital-mente em mulheres, e vice-versa, para roubar carteiras e bolsas. Mas há realmente uma grande quantidade de homens que vão para os ônibus lotados somente para abordar mulheres dessa maneira. ?Há indivíduos tão nojentos que chegam a ejacular de tanto se esfregar na mulher?, comenta Darli. (JC)

Serviço –  A Delegacia da Mulher fica na Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 480. O telefone é 3223-5323.