Três meses após a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que funciona como um termômetro da qualidade da formação dos futuros médicos, duas instituições privadas do Paraná com desempenho considerado insatisfatório começam a lidar com os impactos da avaliação.

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A Universidade Paranaense (Unipar), em Umuarama, e o Centro Universitário Ingá (Uningá), de Maringá, receberam nota dois — faixa abaixo do esperado numa escala que vai até cinco — e integram o grupo de mais de 100 cursos no país com desempenho negativo.

Com conceito dois e proficiência entre 40% e 50%, as instituições passaram a sofrer efeitos regulatórios do Enamed, como a redução de até 25% das vagas autorizadas, a suspensão de novos contratos do Fies, o impedimento de participação no ProUni e a proibição de ampliar a oferta de vagas. As medidas seguem válidas até a próxima edição do exame, prevista para outubro de 2026.

CRM: sinal de alerta

Para o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), o desempenho no estado acende um sinal de alerta, especialmente pelos resultados de cursos privados como os da Unipar e da Uningá. De acordo com o conselheiro e representante do Paraná no Conselho Federal de Medicina (CFM), Alcindo Cerci Neto, “o Enamed mostra um raio-x do ensino médico no Brasil, marcado por uma expansão desordenada, principalmente em instituições privadas, que concentram os piores desempenhos”.

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Segundo ele, o impacto vai além da avaliação acadêmica e pode refletir diretamente na assistência à população. “Um médico mal formado gera um risco muito grande para a saúde pública, porque pode ter dificuldade de diagnóstico, solicitar exames em excesso ou comprometer a prevenção. Ele também critica o perfil de parte dos cursos. “Há um caráter muito mercadológico, com foco econômico acima da qualidade, o que exige mais fiscalização dos órgãos competentes”, finaliza Cerci Neto.

No Paraná, 21 cursos de Medicina de instituições públicas e privadas foram avaliados. Nenhum recebeu nota um, mas três tiveram conceito dois — entre eles, Unipar, Uningá e Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), de Foz do Iguaçu. Outros três cursos ficaram com conceito três, nove alcançaram nota quatro e seis obtiveram a nota máxima, cinco.

Reestruturação na Unipar

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No caso da Unipar, o resultado do Enamed 2025, divulgado em janeiro deste ano, desencadeou um processo de reorganização interna. O curso, criado em 2018 e com cerca de 332 médicos formados, entrou em uma nova fase em 2026, com mudanças na gestão, revisão de práticas pedagógicas e maior integração entre ensino, prática e avaliação.

Como parte desse processo, a direção do curso foi reestruturada e passou a ser conduzida por Adriana Pelizzari, doutora em Biotecnologia, com mais de 30 anos de experiência em gestão educacional. A instituição também ampliou a equipe de gestão, com a criação de uma nova coordenação específica para o internato, etapa final da formação médica.

Segundo a universidade, o foco tem sido aproximar ainda mais a formação acadêmica das exigências do exame e da atuação profissional no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Após análises dos resultados do exame, estamos promovendo uma revisão estruturada do curso, com foco na integração entre teoria e prática e no fortalecimento das competências exigidas na formação médica. Nosso compromisso é com a qualidade do ensino e a formação de profissionais preparados para atuar no sistema de saúde”, afirma Adriana.

A universidade também diz ter reforçado o uso de estruturas como o centro de simulação e ampliado estratégias de acompanhamento pedagógico individual do desempenho dos estudantes ao longo do curso.

A coordenação informou que neste ano há aproximadamente 700 acadêmicos matriculados no curso de Medicina, que realizam estágios em espaços com parceria com o poder público, ampliando a vivência prática na rede de saúde.

Posição da Uningá

Já o Centro Universitário Ingá (Uningá), em Maringá, informou por meio de sua assessoria de imprensa que “a Uningá não se pronunciará sobre o tema”.

O curso de Medicina teve início em 2007 e completa 19 anos em 2026, sendo um dos pioneiros no interior do Paraná, conforme informações divulgadas pela própria universidade. A implantação, porém, foi marcada por disputas judiciais: após indeferimento do Conselho Nacional de Educação (CNE), a instituição obteve liminar para abrir 100 vagas, posteriormente suspensa pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

À época, conforme nota do Conselho Regional de Medicina (CRM), o Ministério da Educação apontou que a autorização ocorreu sem avaliação prévia, em meio a mudanças nos critérios de regulação. O histórico do curso também é relatado pelo portal Escolas Médicas do Brasil. A graduação foi posteriormente regularizada e reconhecida oficialmente pelo MEC em 2019.

Entidades questionam o Enamed

No campo institucional, a Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP) e a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) — entidade que representa mais de 5.300 unidades educacionais privadas de educação superior — acompanham os desdobramentos do exame e defendem ajustes em sua metodologia.

A ANUP afirma que tem atuado de forma mais ampla, analisando os dados e defendendo aperfeiçoamentos para garantir maior precisão e equilíbrio na avaliação dos cursos, além de destacar a autonomia das instituições na interpretação dos resultados.

Já a ABMES ingressou na Justiça contra o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) no dia 12 de fevereiro de 2026, questionando pontos centrais do Enamed e as medidas regulatórias aplicadas após sua primeira edição.

Segundo a associação, a definição e divulgação da nota de corte apenas após a realização da prova comprometeram a previsibilidade e a segurança jurídica do processo. A ação foi discutida em audiência de conciliação no início de abril, sem acordo.

A entidade afirma que não contesta a avaliação em si, mas a forma como as regras e consequências foram estabelecidas, e defende critérios mais transparentes, destacando ainda o papel do setor privado como parceiro histórico do ensino superior no país.