Uma empresa de tecnologia criada em Curitiba está tentando fazer com a energia elétrica algo parecido com o que Uber e iFood fizeram com mobilidade e alimentação: conectar pontas que antes tinham dificuldade para se encontrar e fazer toda a operação por meio de uma plataforma digital.
A Alexandria Tecnologia criou o LEX, aplicativo que conecta consumidores interessados em economizar na conta de luz, usinas que precisam comercializar sua energia e uma rede de pessoas que pode atuar como vendedor e ganhar dinheiro com as conexões. A companhia projeta superar R$ 430 milhões em receita transacional em 2026, depois de registrar R$ 29,8 milhões no primeiro ano de operação.
A comparação com o iFood ajuda a entender o negócio. O aplicativo de comida não é restaurante nem entregador: ele cria a tecnologia que conecta os dois e organiza a transação. O LEX funciona com a mesma lógica. A Alexandria não é a usina, não fabrica painéis e não é a distribuidora de energia. Ela fornece a tecnologia que coloca consumidores, produtores e vendedores no mesmo ambiente.
Para o consumidor, a promessa é eliminar a burocracia. Na geração distribuída, o cliente entra no aplicativo e a inteligência artificial busca uma proposta, entre as opções disponíveis, que se encaixe com o perfil do cliente. A plataforma também cuida da integração com a distribuidora. Segundo a empresa, em cerca de 90 dias o desconto começa a aparecer na conta de energia, sem que o consumidor precise conduzir os trâmites.
Do outro lado estão as usinas. São empreendimentos de geração solar, hidrelétrica e eólica que precisam encontrar consumidores para comercializar sua energia. “As usinas não sabem falar com o consumidor final. Elas sabem falar B2B”, explica Giulia Sonnenfeld, CMO da Alexandria. O aplicativo entra justamente nessa lacuna.
“Uber” da energia: nova fonte de renda
Há ainda uma terceira ponta, que ajuda a explicar a velocidade de crescimento da Alexandria e do “Uber” da energia. São os chamados Líderes LEX, pessoas que indicam clientes e recebem comissão pelas conexões. A remuneração continua enquanto o cliente permanece ativo, criando uma renda recorrente.
Um dos casos é o de Marcelo Mattos Dutra, de 42 anos. Casado e pai de um menino de quase 7 anos, ele trabalhava havia cinco anos com carteira assinada, de madrugada, e recebia cerca de R$ 3 mil brutos, valor que caía para aproximadamente R$ 1,8 mil líquidos.
A rotina era apertada. Depois do aluguel de R$ 1 mil e das contas básicas, sobrava pouco para o restante das despesas da família. Marcelo começou a vender o LEX como atividade paralela. Em junho deste ano, decidiu deixar o emprego CLT e apostar integralmente na Alexandria.
O resultado veio rápido. Em junho, ele recebeu R$ 22 mil em comissões. No mês de julho, R$ 18 mil. Agosto ficou na casa dos R$ 12 mil e, para setembro, projeta chegar a cerca de R$ 30 mil. “Hoje estou vivendo os melhores momentos da minha vida com minha família”, afirma.
A mudança, segundo ele, já afetou decisões que antes pareciam fora do alcance. Marcelo conta que agora consegue pagar as parcelas da casa que ele comprou recentemente. Passou a ter condições de planejar viagens e outras despesas para o filho. Comprou a ele alguns brinquedos, que meso simples, Marcelo não podia dar.
Outro presente marcante ao filho é uma viagem de aniversário que o menino pediu. Marcelo levará a esposa, o filho e amiguinhos dele para um fim de semana num hotel resort em Gramado (RS). “Hoje posso pagar uma fatura de R$ 5 mil, R$ 6 mil, R$ 7 mil ou R$ 8 mil à vista. É um alívio, uma conquista.”
Ele também passou a trabalhar principalmente com indicações e networking. Atende cerca de cinco clientes por semana e mantém a meta de crescer dentro da própria rede, chegando a uma posição de gerência no LEX. Em um dos negócios fechados por ele, uma empresa de refrigeração com conta de energia de aproximadamente R$ 25 mil mensais, a comissão chegou, segundo Marcelo, a entre R$ 10 mil e R$ 12 mil.
Crescimento em escala nacional
A velocidade da operação foi maior do que os próprios fundadores esperavam. A Alexandria saiu de R$ 29,8 milhões em transações no primeiro ano e registrou R$ 47,1 milhões no primeiro trimestre de 2026 e R$ 72 milhões no segundo trimestre. Para os dois últimos trimestres, a projeção é de R$ 117,2 milhões e R$ 189,5 milhões.
Hoje, a operação reúne mais de 90 mil clientes, cerca de 51 mil parceiros, 47 concessionárias integradas e 300 usinas sob gestão. O modelo é chamado pela empresa de asset light: em vez de crescer pela compra de grandes ativos físicos, a Alexandria aposta em software, automação, dados e escala.
A empresa foi criada por Alexandre Brandão e Octávio Egas de Oliveira e ganhou uma terceira peça com Marcelino Eilert, responsável pela operação e tecnologia. Brandão, que já tinha trajetória no setor de energia, levou a visão de conectar usinas e consumidores. Oliveira investiu no LEX, que virou o “Uber” da energia. Eilert vem com a experiência em administração e finanças.
Para Brandão, o próximo passo é ampliar o que pode ser feito a partir da relação recorrente do consumidor com a energia. “Estamos construindo uma estrutura capaz de converter recorrência em conexão, distribuição e monetização em escala”, afirma o CEO.
Com sede em Curitiba, a Alexandria constrói a expansão nacional a partir do Paraná. Criada em 2024, a empresa já trabalha com uma ambição de longo prazo: preparar a companhia para um eventual IPO até 2028 e transformar a conta de luz em uma porta de entrada para novos serviços digitais e financeiros.
