Foto: Aliocha Mauricio/O Estado

Para pedestres, motorista curitibano é o mais mal-educado.

O curitibano reclama do trânsito, mas, ao mesmo tempo, demonstra ainda ter alguns privilégios no que se refere a morar em uma capital. Quase metade dos motoristas da cidade acredita que o fator que mais incomoda na hora de dirigir são os congestionamentos – proporção esta que é bem maior em outras capitais, no entanto. Outra observação é que, em Curitiba, o motorista demonstra se irritar com a falta de sinalização de outros carros na hora de fazer uma curva ou mudar de pista. Os dados são referentes à Pesquisa Nacional Abramcet Synovate Brasil, realizada pela Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico de Trânsito (Abramcet).

Pode parecer muito metade dos curitibanos reclamar dos congestionamentos, mas, se olharmos para a média nacional, veremos que aqui o índice é bem menor que em São Paulo – a líder em reclamações, com 71% dos votos como este o tópico que mais incomoda o motorista -, seguido de Salvador (69%) e Recife (67%). Dentre as oito capitais pesquisadas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Curitiba), a paranaense é a que registra o menor índice, ficando atrás, inclusive, de outras quatro grandes cidades do interior de São Paulo incluídas na pesquisa.

Mas há dados que chamam a atenção para a forma como o curitibano dirige. Dessa vez, Curitiba lidera: 13% dos motoristas reclamam que os outros não sinalizam ao virar a rua ou mudar de pista. Porcentagem bem acima de São Paulo, Porto Alegre (ambas com 6%) e até do Rio de Janeiro e Belo Horizonte (com 11% e 10%), cidades reconhecidas nacionalmente pelo trânsito caótico. Além disso, mesmo sinalizados, os radares ainda demonstram incomodar o motorista curitibano: mais uma vez a capital lidera, com 11% das reclamações, contra porcentagens entre 2% e 6% nas outras capitais.

Há também contrapartidas. Nenhum motorista curitibano reclamou de buracos ou desníveis nas ruas – enquanto no Rio de Janeiro 17% fizeram questão de ressaltar a problemática. Mais: a capital paranaense entra em disparada na frente das outras quando a resposta é que nada incomoda no trânsito – 11% dos motoristas disseram isso, contra médias de, no máximo, 6% em outras capitais.

Para o presidente da Abramcet, Sílvio Médici, a despeito dos pontos fortes e fracos do trânsito curitibano, a capital paranaense está abaixo da média nacional em termos de reclamações. ?O problema do trânsito não é tão sintomático quanto em São Paulo, onde existe uma frota de mais de seis milhões de veículos circulando diariamente?, compara, excluindo a região metropolitana. Em Curitiba, essa média é de um milhão. Os congestionamentos que circundam o anel central da cidade, adianta o presidente, são fatores marcantes em todas as capitais. ?A expansão dos grandes centros não é acompanhada de investimentos no sistema viário?, afirma. Pior: implica em prejuízos de toda ordem. ?Nas grandes cidades, os congestionamentos geram gastos, estresse, perda de tempo no deslocamento e conseqüente baixa performance no País. Há impacto direto na economia.?

O que ajudaria a resolver o problema, acredita, é transporte público capaz de dar conta da demanda. ?Em Curitiba, as canaletas exclusivas e o sistema de transporte urbano demonstram ser uma das justificativas para o menor índice de reclamação no que se refere a congestionamentos?, justifica o presidente da associação. Ainda assim, enfatiza, investimentos são necessários para dar conta da demanda crescente. A pesquisa da Abramcet ouviu 1.500 pessoas em cada cidade e tem margem de erro de 2,58%.

Falta educação, aponta pesquisa

A pesquisa da Abramcet também abordou o que o pedestre curitibano pensa a respeito do trânsito. As respostas acusam: dentre as oito principais capitais do Brasil, para o pedestre curitibano, é o motorista daqui o mais mal-educado do ranking. 62% dos entrevistados deram essa resposta, a média nacional mais alta, à frente de Porto Alegre (60%), Fortaleza (59%) e São Paulo (54%), por exemplo.

?Pode ser porque (os pedestres) têm espírito crítico bem aguçado, mas há em contrapartida um posicionamento dos motoristas em relação a eles, apontando que existe também falta de educação por parte do pedestre?, explica Sílvio Médici. ?Muitas vezes não há na cidade conscientização para uso da faixa de pedestres e passarelas. É questão de educação de base e motivo para campanhas orientativas e esclarecimento.?

A média de atropelamentos em Curitiba pode explicar o quadro. De acordo com o Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), 312 pessoas foram atropeladas na cidade em quatro meses este ano (entre janeiro e abril). ?É número muito alto, que dá uma média de três a quatro atropelamentos por dia?, analisa o sargento Ronivaldo Brites Pires. A maior parte deles envolve crianças e idosos – os primeiros pela imprevisibilidade e, os segundos, pela dificuldade criada pela própria idade em conseguir agilidade para driblar o tempo de travessia das ruas.

O que pode-se aferir, no entanto, é que a constatação é apenas um dos fatores que explicam uma realidade bem mais grave vivenciada nas vias brasileiras diariamente. O presidente da Abramcet denuncia que o trânsito (e a falta de preparo para encará-lo) é relegado a segundo plano no Brasil, fator que tem causado prejuízos altos ao País. ?Nossa conta trânsito – índice que contabiliza os danos materiais, pessoais e de perda de produtividade envolvendo acidentes – gira em torno de R$ 5,3 bilhões. E não há um trabalho sistemático para mudar esse comportamento?, denuncia. Afora isso, os índices de mortes por ano por conta de acidentes de trânsito continuam aumentando e já atingem a marca de 40 mil atualmente. (LM)

Carrinheiros representam grande risco

O presidente da Abramcet, Sílvio Médici, já pensa em incluir um novo tópico para a próxima pesquisa da entidade, que deve acontecer ainda este ano. Além das tradicionais perguntas envolvendo pedestres, semáforos, condições do asfalto, sinalização e congestionamentos, pretende tratar da questão dos carrinheiros. Cada vez mais comuns nas grandes cidades, se engana quem pensa que apenas em Curitiba o assunto exige discussão.

?É questão interessante e polêmica, porque está ligada à questão social?, explicita Médici. Para ele, é preciso pautar o tema para se pensar em soluções. Mesma opinião tem o sargento Ronivaldo Pires, do BPTran. ?Na verdade, ele é um pedestre carregando um veículo de maiores proporções do que poderia transitar na calçada?, explica. ?O motorista deve ter compreensão e cuidado. Ao ver o carrinheiro, o ideal é sinalizar bem antes e mudar de pista; da parte do carrinheiro, deve evitar horários de pico e evitar colocar crianças no carrinho?, aconselha o policial.

Apesar de haver poucos registros em Curitiba de acidentes envolvendo carrinheiros, o risco às vezes é grande. O presidente do Instituto da Cidadania e representante do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável, Valdomiro Ferreira da Luz, conta que há uma semana uma carrinheira se acidentou no Viaduto do Capanema. Para ele, ?tem motorista que não tem educação, mas também existe carrinheiro que abusa?. Outro problema é a bebida – muitos saem para catar papel bêbados, o que pode ocasionar acidentes. ?Tem de andar na mão e sempre sóbrio, prestando atenção no trânsito e nos sinaleiros. Tem de respeitar as leis de trânsito?, diz.

No caso específico do Capanema, é tão grande a quantidade de carrinheiros transitando todos os dias que o catador tem projetos de construção de uma via específica para eles no local. Outra medida adotada para segurança é a colocação de faixas refletoras nos carrinhos.

Motorista

Ainda que haja contratempos, o carrinheiro Sidnei José Machado acha o motorista curitibano educado. ?Acredito que me respeitam porque ando como se estivesse de carro.? Ele procura respeitar a mão da rua e, quando dá, vai para o acostamento. ?Mas é um trabalho arriscado?, enfatiza. Em seus 23 anos de trabalho como catador, já presenciou pelo menos quatro acidentes – um deles resultou em morte. (LM)