Temporada de verão no litoral teve de tudo um pouco

Ninguém poderia imaginar que um marlin branco, de mais de 40 quilos e quase dois metros de comprimento pudesse aparecer na praia de Matinhos e ?trombar? com um banhista, cravando parte de seu bico no joelho da vítima. Também seria difícil crer que um rapaz pudesse sair para um inocente passeio de caiaque e acabasse ficando 14 horas no mar, à deriva. E ainda seria impossível supor que um homem que estava se afogando no canal de Pontal do Sul, fosse salvo por um pescador, que cravou o anzol no peito da vítima, trazendo-a para fora da água. Apesar de incríveis, estes fatos foram registrados pelo Corpo de Bombeiros durante a Operação Verão 2007/2008, que se encerrou no dia 17 passado, após 60 dias de atividades ininterruptas em todos os balneários do Estado e na Ilha do Mel.

Se banhistas passaram por momentos de sufoco na praia, também os bombeiros enfrentaram algumas ?saias- justas? durante o trabalho.

Que o diga a soldado Gizele, uma bombeira de 1,58m e muita personalidade, que quase apanhou na praia ao advertir um banhista. A mulher do sujeito não gostou e teve um acesso de ciúme. Foi o ?maior barraco? na areia, que só terminou na sede do quartel, com abertura de sindicância. Outro bombeiro, soldado Henderson, depois de salvar um banhista desatento, teve que lutar com unhas e dentes para reaver seu óculos de sol, ?descuidado? por um malandro.

Mas nem tudo se resumiu a dramas. A temporada também teve momentos de solidariedade, de agradecimentos e de despedida. Que o diga o sargento Neto, que há 32 anos consecutivos participa da Operação Verão sem falhar uma única vez. Salvou centenas de pessoas e neste ano deu adeus ao litoral. Lotado em Londrina, retornou ao quartel e solicitou a aposentadoria. ?Praia agora, só para lazer e para rever os amigos?, garante ele.

A Tribuna também suou a camisa durante a temporada, para registrar estas histórias incríveis.

Boa leitura.

Fisgado por um peixão!

Fotos: Divulgação

Donizete dos Santos, 44 anos, morador no Conjunto Caiuá, na Cidade Industrial de Curitiba, faz de tudo um pouco: é encanador, eletricista, ?manja? de hidráulica, e por isso tem uma prestadora de serviços gerais.

O que ele não sabia, é que um dia iria também ser ?isca? de peixe, e de peixe grande. ?Sempre pesquei, mas nunca imaginei que poderia ser pescado?, diz ele, deitado no sofá de seu pequeno escritório, ainda com um enorme curativo no joelho esquerdo e agarrado a uma muleta. Por pelo menos mais dois meses, ele deverá usar o equipamento para se locomover.

especialpraia01240208.jpgAcontece que Donizete estava tomando banho de mar, em Matinhos, no dia 2 de fevereiro, por volta das 17h, quando um marlin branco, com cerca de 40 quilos, enfiou seu bico serrilhado no joelho dele. Ele lutou bravamente com o peixe, que o arrastava para o fundo, até conseguir quebrar o bico e pedir ajuda ao irmão, o construtor Carlito Pereira, que o acompanhava. Carlito não entendia bem o que estava acontecendo e achou que Donizete estava brincando, quando ouviu o pedido de socorro e viu o peixão.

especialpraia05240208.jpgDepois de se livrar do marlin e avisar o irmão, Donizete foi amparado até sair do fundo, onde tomava seu banho, e alcançar a areia. Carlito conseguiu enfiar o braço pela guelra do peixe e também o trouxe até a beira da praia, atraindo a atenção de dezenas de banhistas. Socorrido pelos bombeiros, de ambulância Donizete foi para dois hospitais (o de Matinhos e o de Paranaguá), mas nenhum deles tinha condições para operá-lo. Trazido para Curitiba, somente às 5h da manhã seguinte é que conseguiu atendimento e foi operado no Cajuru. ?As autoridades precisam tomar providências e equipar os hospitais do litoral. Eles estão funcionando muito precariamente. Dá vergonha de ver aquilo lá e pena das pessoas que precisam de socorro?, protesta Carlito.

especialpraia04240208.jpgPassado o susto, Donizete brinca, dizendo que agora só vai tomar banho de mar com um revólver na bermuda, para se defender. Quanto ao peixão, que ninguém sabe como foi parar na praia, já que seu habitat natural são as águas profundas, virou churrasco. Sobrou só o bico retirado do joelho da vítima, que receberá um tratamento especial e será colocado num quadro, para enfeitar a parede da sala. (MC)

Um banho de 14 horas

Fotos: Mara Cornelsen

Há menos de duas quadras do escritório de Donizete, ainda no Conjunto Caiuá, mora o jovem metalúrgico Peterson Faustino do Nascimento, 23 anos, pai de Júlia, uma garotinha de um ano e oito meses. Ele e a filha resolveram passar alguns dias na praia, em companhia de amigos. No final da tarde de 6 de fevereiro, ele deixou a menina na areia, sob os cuidados de colegas, e com dois amigos alugou três caiaques para um passeio de uma hora, saindo da praia mansa de Caiobá. Tudo estava dando certo, até o momento da volta. O caiaque de Peterson virou e se afastou. O jovem havia caído num poço que tinha correnteza. Tentou nadar para a beira, não conseguiu e foi puxado para alto mar. Seus amigos tinham alcançado a praia e não perceberam o acidente. Dirigiram-se ao comerciante que havia alugado os caiaques e perguntaram por Peterson. Irresponsavelmente ele disse que o rapaz já tinha saído da água, devolvido o colete e o caiaque e ido embora.

especialpraia10240208.jpgEstranhando o gesto, os amigos passaram a procurá-lo. Primeiro nos bares e lanchonetes e depois nos hospitais. Não o encontraram e mesmo assim não comunicaram os bombeiros sobre o sumiço. Enquanto isso, Peterson era arrastado pela água. Quanto mais se debatia, mais cansado ficava.

Procurando manter a calma, aguardou socorro, certo de que o estavam procurando. Veio a noite e nada! Dois iates passaram por ele, mas não o viram. ?Eu temia que me atropelassem?, contou o náufrago, que passou frio, fome e sede. Quando seu corpo amortecia, tratava de nadar um pouco, para se esquentar. Depois boiava. O colete salva vidas chegou a lhe fazer feridas embaixo dos braços e no pescoço. ?Teve uma hora em que tirei o colete e iria soltá-lo, de tanto que me machucava. Daí vi a imagem de minha filha, sorrindo pra mim. Tratei de colocar o colete de novo e manter a fé de que alguém iria me salvar?, relatou o rapaz.

Foi somente às 7h do dia seguinte que seu Érico, um pescador de Matinhos, passou com a canoa próximo dele, para estender uma rede de pesca. Peterson gritou por socorro, mas foi encoberto por uma onda. Seu Érico ouviu e ficou olhando em direção de onde veio o grito. Uma nova marola levantou o rapaz, que finalmente foi avistado. Recolhido na canoa, tomou uns goles de água e desmaiou. Estava no mar há 14 horas. Só acordou quando chegou em Matinhos. Levado pelos bombeiros ao hospital, já com hipotermia, tomou um pouco de soro e tratou de ir embora, para rever a filha.

Em casa, Peterson recebeu o carinho da mãe, dona Raquel, da irmã, Érica. Em Matinhos o caso está sendo atendido pelo delegado local, dr. Tadeu, para apurar as responsabilidades sobre o acidente. Afinal, o dono do caiaque deveria ter um controle sobre as embarcações que aluga. (MC)

Adeus com sabor de dever cumprido

especialpraia06240208.jpgA nota nostálgica da temporada ficou por conta do sargento Pedro Honório Puça Neto, 52 anos. Há 32 anos ele participa da Operação Verão. É do tempo em que o salva-vidas só recebia um par de nadadeira (de qualidade duvidosa) e tinha que ficar o dia inteiro na beira do mar, sem guarda-sol nem água. ?A gente catava um toquinho na beira da praia para poder sentar. Eram tempos difíceis?, recorda.

Hoje os equipamentos dos bombeiros facilitam muito o trabalho e as escalas são mais suaves. Mesmo assim, ele garante que o trabalho é estressante. Cada plantão de oito horas exige atenção total, sem qualquer distração.

especialpraia12240208.jpg?O pior é quando a gente perde alguma pessoa. Não consegue salvar. Uma morte significa o fim da temporada. É muito triste?, diz. Ele já perdeu a conta de quantas pessoas salvou e quantas vezes foi abraçado pelas famílias dos sobreviventes. Mas não esquece nunca do verão de 1982, quando tirava serviço em Pontal do Paraná. Um ônibus de excursão chegou bem cedo na praia. Uns 20 sujeitos desceram correndo em direção ao mar, ignorando a placa de perigo. Entraram exatamente onde tinha uma corrente de água e foram arrastados pelo fundo. Neto e o colega correram para socorrê-los. ?Só eu tirei uns dez da água, mas três foram arrastados e morreram afogados. Foi dramático?, revela.

Terminada a operação, Neto se despediu do mar e do Corpo de Bombeiros. Voltou para Londrina, onde trabalhou praticamente a vida toda, e pediu a (merecida!) aposentadoria. Mas ele não ficará longe da corporação, pois sua filha caçula (de 18 anos) quer seguir a carreira do pai e está se preparando com afinco para ingressar no Bombeiro. (MC)

Além do trabalho, ?barracos?

especialpraia09240208.jpgPara os bombeiros que trabalharam nesta Operação Verão, muita coisa boa aconteceu, afinal foram mais de 700 salvamentos. Porém, entre um apito e outro, cenas ?de novela? também aconteceram na areia. Gizele Aparecida da Silva, 27 anos, é bombeira há três. Entrou na corporação em 2005, na primeira turma feminina do CB. Vinda do município de Conselheiro Maririnck, nunca pensou em seguir tal profissão, mas incentivada por amigos, passou no concurso e foi em frente. Hoje não troca seu trabalho por nenhum outro. ?Adoro o que faço?, garante a jovem. Como salva-vidas também se sai muito bem, e olha que só tem 51 quilos. Mas tira qualquer marmanjo do mar: ?A gente tem técnica e por isso não precisa de força?, garante.

Mas foi na areia que Gizele passou por um apuro. Depois de apitar inúmeras vezes para um banhista que estava em local de perigo, no mar de Caiobá (em frente ao Sesc) esperou-o na areia para fazer a orientação necessária. Quando passava um ?pito? no desavisado, a mulher do sujeito se aproximou e teve um ?piti?, acusando-a de estar ?dando em cima? do marido dela. Foi um bate-boca terrível que só acabou com a chegada de uma viatura da Polícia Militar, que levou a ciumenta mulher para o quartel. Ela deverá responder por desacato a autoridade. Para quem não sabe, bombeiro é autoridade na beira da praia e merece todo o respeito.

especialpraia07240208.jpgTambém o soldado Henderson Luiz de Christo, 26, sofreu nas mãos de um espertalhão. No Balneário de Betaras correu para a água para salvar um rapaz. Arrancou o boné e o óculos e deixou-os sob os cuidados de uma jovem, que estava sentada na areia. Fez o salvamento e retornou para pegar seus pertences. Para triste surpresa, percebeu que alguém havia levado o óculos. Como o acessório era de marca e Henderson havia pago caro, ficou irritado e passou a observar os banhistas. Pouco depois, percebeu um sujeito na água, usando óculos igual. Aproximou-se como quem não queria nada e o cara sentiu-se incomodado. Pediu para ver o óculo e… bingo!

Era o dele. Uma marquinha especial, feita do lado de dentro, confirmava a propriedade. O rapaz tentou se desculpar, dizendo que havia achado o óculos na areia e a muito custo fez a devolução. Ainda instigou sua família a ir brigar com o bombeiro, sentindo-se ofendido. Foi novamente a presença de uma viatura da PM que desfez o barraco na praia. (MC)

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