Mais de três décadas após a desativação do antigo teleférico, Matinhos deu um novo passo para resgatar um dos seus principais cartões-postais. A Prefeitura iniciou as tratativas para viabilizar um novo equipamento no Morro do Escalvado, que agora entra na fase de estudos técnicos e ambientais. Nos bastidores, até propostas de desapropriações de imóveis na base do morro já estão em tratativas.
O primeiro encontro oficial ocorreu em 24 de junho, entre representantes da Prefeitura e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange, onde está localizado o Morro do Escalvado. Por estar situado integralmente em uma área de preservação da Mata Atlântica e sob jurisdição federal, a proposta será construída em conjunto com os órgãos ambientais.
Segundo a secretária de Turismo, Desenvolvimento Econômico e Cultura de Matinhos, Kássia Novochadlo, a publicação do plano de manejo do parque, em abril de 2024, tornou o projeto viável.
“O que viabiliza o nosso projeto foi o plano de manejo que foi publicado em abril de 2024, que autoriza a exploração nesse sentido. Quanto às outras questões, ainda é muito prematuro. As conversas estão iniciando sobre de quem vai ser a responsabilidade e como será feita a concessão. O projeto ainda é imaturo para fazermos uma análise que possa ser publicada agora”, explica a secretária.
Kássia reforça que, no momento, o foco central é a convergência de interesses entre os órgãos. “O que posso responder é exatamente que o que viabiliza o projeto é o plano de manejo de 2024 e o interesse de ambas as partes, tanto do ICMBio, quanto da Prefeitura”, pontua.
Bastidores e articulação política
Nos bastidores, a Prefeitura de Matinhos já superou a ideia inicial de realizar a licitação por conta própria, uma vez que a área é federal. O processo licitatório e a gestão deverão ficar a cargo do ICMBio, que possui a prerrogativa de terceirizar a operação — modelo similar ao utilizado no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro.
O acordo estabelece que a Prefeitura atuará como articuladora, assumindo a responsabilidade de viabilizar e adiantar os estudos técnicos. A medida visa dar celeridade ao processo, já que o teleférico de Matinhos não figura entre as prioridades orçamentárias imediatas do ICMBio, que tem focado esforços em outras unidades, como o Parque Nacional do Ariri.
Os estudos técnicos deverão ser conduzidos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), por meio da Fundação da UFPR (Funpar), com a qual já existe contrato. Além disso, está prevista uma reunião com a Unipraias, empresa que opera o teleférico em Balneário Camboriú (SC).
As tratativas para a regularização fundiária da área, etapa essencial para garantir segurança jurídica ao projeto, também avançaram significativamente. O processo de desapropriação e a definição de titularidades para os acessos estão adiantados, restando apenas uma propriedade privada na área, que pertenceria ao antigo dono do teleférico.
O encontro inédito entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o ICMBio para tratar da regularização fundiária do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange foi intermediado pelo deputado estadual Goura (PDT). “Esse avanço na discussão do novo teleférico é resultado de um trabalho iniciado em setembro do ano passado. Foi por iniciativa do nosso mandato que ICMBio e Incra começaram a tratar da regularização fundiária do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange”, destaca Goura.
O parlamentar avalia que a aproximação entre as instituições é fundamental para o andamento da proposta. “A atual reunião entre o ICMBio e a Prefeitura de Matinhos cria as condições para que o projeto do teleférico possa seguir em frente com segurança jurídica e respeito ao Parque Nacional. Essa é uma demanda antiga da região, que agora começa a sair do papel. A gente sempre defendeu que é possível conciliar conservação ambiental com desenvolvimento. Se for bem conduzido, esse projeto pode fortalecer o turismo, gerar renda e valorizar o litoral paranaense”, conclui.

Turismo e segurança: desafios e o papel do teleférico
Com cerca de 224 metros de altitude, o Morro do Escalvado é um dos principais atrativos de Matinhos. Atualmente, o acesso ao topo é feito por uma trilha de aproximadamente 800 metros, considerada de dificuldade fácil a moderada. O percurso leva entre 15 e 30 minutos, dependendo do ritmo da caminhada. Ao longo do trajeto ainda é possível encontrar vestígios da antiga estrutura do teleférico.
Além do potencial turístico, o Morro do Escalvado também apresenta desafios para as equipes de resgate. Segundo a 2ª tenente Luana Mara Pessanha, do 8º Batalhão de Bombeiro Militar do Paraná, a região exige atenção dos visitantes devido ao relevo acidentado e à presença de pedras escorregadias em alguns pontos da trilha. “Isso aumenta os riscos de entorses e escorregões, principalmente durante ou após condições climáticas de chuva e umidade”, explica.
“A trilha possui dois acessos principais: um pela antiga estação do teleférico e outro nas proximidades da estação de água da Sanepar. Nos dias chuvosos e nos períodos posteriores às chuvas, o percurso fica bastante escorregadio, o que aumenta o risco de quedas. É importante que os visitantes utilizem vestimentas fechadas e calçados adequados (fechados, com solas aderentes), que também respeitem a sinalização existente na trilha e permaneçam na trilha principal, não acessando as áreas de risco fora da trilha, especialmente perto dos costões rochosos que o morro possui”, alerta a tenente. Ela acrescenta que, durante a temporada de verão, o Morro do Escalvado recebe o maior número de visitantes.
O maior desafio para as equipes de resgate é a retirada das vítimas em macas por causa do terreno e do difícil acesso. “A cada minuto de descida em uma caminhada normal, a equipe leva cerca de sete minutos quando transporta uma vítima na maca”, detalha Pessanha. “O sistema do teleférico contribuiria porque facilita o deslocamento das equipes e o transporte dos equipamentos de salvamento e resgate, isso reduziria o tempo de resposta nas ocorrências”, conclui.
O projeto é discutido em um momento de grandes investimentos em Matinhos, impulsionado por obras como a revitalização da orla, a Ponte de Guaratuba, a duplicação da PR-412 e a revisão do Plano Diretor. Ainda sem prazo para sair do papel, a proposta reacende a expectativa de moradores e visitantes pela volta de um dos atrativos mais conhecidos da história do município.
A reportagem da Tribuna do Paraná procurou os representantes do ICMBio de Matinhos e tenta contado desde sexta-feira (26/06), mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
