Há dez anos na cadeia, Oséias produz
quadros de extrema beleza.

Um grupo de homens reúne-se curioso ao redor de pequenos pedaços de azulejos, cortados assimetricamente, enquanto presta atenção às explicações que são dadas pela professora Eliana Schlogel. Ela, como voluntária, está dando a primeira aula da oficina de mosaico para detentos que estão recolhidos na Prisão Provisória de Curitiba (PPC), no Ahu. As mãos inexperientes dos alunos têm dificuldades para manusear as peças, mas o olhar atento indica a importância que estão dando àquele momento. Ensinar a trabalhar com mosaico e mais tarde produzir peças decorativas é apenas um dos sub-projetos que fazem parte do programa de ressocialização Bem Viver, que está sendo implantado em caráter experimental, naquela unidade penal.

O nome do programa já dá uma boa idéia do que se trata: ressocializar os detentos, promovendo o resgate dos valores éticos e morais, mediante atividades de sensibilização artísticco-cultural e social, em espaço alternativo. O espaço é criado dentro da própria cadeia e parece um oásis, se comparado ao cinza que predomina nos corredores e celas da prisão. A sala que abriga a oficina de mosaico é clara, limpa, ventilada e exibe nas paredes pinturas, desenhos e outros tipos de manifestações artísticas dos apenados, produzidas em outras oficinas.

Boa vontade

“É uma iniciativa nossa, sem custos para o Estado, e que pretende dar ao preso uma nova chance de aprendizado e até a esperança de uma vida nova para quando sair”, explica o diretor da cadeia, Lauro César Valeixo. Com longa experiência no sistema prisional do Paraná -ele também já foi diretor da Colônia Penal Agrícola e promoveu grandes reformas naquela unidade em benefício dos presos -, Valeixo não se intimida em colocar em prática suas idéias. “Vou conversando com um, com outro e quando algumas pessoas aceitam o desafio, o negócio é começar a fazer”, diz ele, que conta com a cooperação valiosa do auxiliar de segurança Carlos Alberto Pereira, que há nove anos trabalha na PPC. Carlos também acredita que falta aos presos uma chance de conhecer um outro lado da vida e poder avaliar para onde seguir, no momento em que alcançarem a liberdade.

Com uma grande dose de boa vontade e o apoio de professores voluntários e de igrejas, já foi possível criar as oficinas de mosaico, pintura (essa ministrada por um preso artista), música e iniciar o sub-projeto experimental Pensar a Vida, que se caracteriza pela proposição de reflexões sobre a condição de vida do apenado em todas as suas dimensões, para que ele, promovendo o autoconhecimento, também aprenda a exercer sua cidadania. “Estamos buscando parcerias e todos que quiserem cooperar serão muito bem vindos”, assegura o diretor.

Dentro do Bem Viver, ainda estão previstas oficinas de reciclagem de lixo, de reciclagem de papéis, esporte e lazer, livre expressão, saúde preventiva, programação religiosa e até medicina natural. Nessa última, a idéia é cultivar plantas medicinais na antiga horta do presídio que atualmente está desativada. Como as refeições dos presos são servidas por uma empresa terceirizada, a horta – que antes fornecia verduras e legumes para o consumo interno – ficou obsoleta. “Vamos usar o espaço que temos por aqui”, lembrou Valeixo.

Pretensão é reduzir os casos de reincidência

A Prisão Provisória de Curitiba (PPC), no Ahu, abriga hoje 850 homens, a maioria ainda sem condenação – por isso ela se chama provisória. Grande parte da massa carcerária é composta por jovens -menos de 30 anos – e o índice de reincidência é de 35% a 40%. Uma das metas do novo projeto de ressocialização e reduzir a reincidência, dando uma chance ao preso de aprender alguma coisa diferente para começar uma nova vida.

“Nós costumamos falar em ressocialização, mas muita gente que está aqui sequer teve chance de ser socializado. Problemas familiares, promiscuidade, pobreza e outros fatores não permitiram a socialização. Então, não dá para exigir de uma pessoa um comportamento que ela nunca aprendeu”, explica Lauro Valeixo, salientando que alguns detentos estão tendo, pela primeira vez, a chance de conhecer “o outro lado da moeda”.

Valorização

Para o agente de segurança Carlos Alberto Pereira, um trabalho como esse também valoriza a própria atividade dos agentes, que, segundo ele, são mal vistos pela sociedade. “As pessoas acham que nós cuidamos da escória humana e nos tratam mal por causa disso. Não nos dão o devido valor. A partir do momento em que a sociedade se conscientizar do nosso verdadeiro papel, que é o de ajudar essas pessoas a conseguirem alcançar uma vida melhor, devolvendo-as ao convívio social melhor do que quando entraram no sistema. Nós também seremos admirados pelo nosso trabalho”, salienta.

Falando baixo e de forma pausada, Carlos se emociona com a possibilidade de “virar o jogo”, e mostra que com boa vontade nada é impossível. Mesmo percorrendo os longos corredores da prisão nos últimos nove anos – tempo que exerce a profissão -, o agente de segurança não se deixou contagiar pelo desânimo nem perdeu a esperança de resgatar a dignidade do ser humano, estando ele dentro ou fora das grades. (MC)

Isolamento interno dificulta o tratamento

Nesse momento de implantação, o programa Bem Viver também está se voltando aos presos que tem problemas de socialização dentro da cadeia. Muitos deles se isolam voluntariamente, evitando qualquer contato com a massa carcerária. “São os mais difíceis de tratar”, explica o diretor Lauro Valeixo. No entanto, três dos “isolados” já retornaram ao convívio na prisão, o que representa uma pequena vitória. “Em contato com a arte, com a música e nas discussões em grupo eles conseguiram se soltar, indicando que estamos no caminho certo”, comemora o diretor.

Outro grupo que está recebendo atenção especial é o de jovens usuários de drogas. Convidados para participarem dos programas, eles estão buscando um entrosamento maior participando de dinâmicas de grupo. Os jovens estão montando um aquário, cuja tarefa leva três meses para ser concluída. Acompanhado pelo pastor Gustavo, o grupo aprende, durante a construção do aquário, a avaliar a própria vida e atingir um objetivo final. (MC)

O futuro nas tintas

Dentre os detentos que se isolavam, um – em especial – chamava a atenção. É o pintor Oséias Leivas Silva, 32 anos. Condenado há mais de 20 anos de reclusão por crime de latrocínio (roubo com morte), ele está na cadeia há dez anos. Dono de talento invejável, produz quadros de extrema beleza. Estudioso das artes, lê incansavelmente. Autodidata, usa óleo sobre tela, aquarela, nanquim, lápis e até caneta esferográfica para criar suas figuras. “Essa é a minha profissão. Não pinto na cadeia para passar o tempo. Pinto porque é o meu trabalho”, diz ele, envaidecido por poder mostrar sua arte. O talento é tamanho que Oséias ganhou um ateliê nos fundos do terreno da prisão. Lá passa todas as horas do dia produzindo e estudando. À noite, volta para a cela.

Durante anos, Oséias não se misturou à massa carcerária. Hoje, engajado no projeto Bem Viver, é o professor das aulas de pintura. Divide sua arte e ensina aos outros presos os mistérios das cores, dos traços e das texturas. A mais importante lição que transmite, porém, é a de que a qualquer momento é possível mudar e iniciar um novo modo de viver.

Exposições

Oséias já passou por várias fases em sua pintura. Arte moderna, retratos, bichos da Amazônia e agora está numa fase em que pinta índios. Já teve exposições patrocinadas pela Secretaria da Cultura. Através de sua marchande, Gláucia Severo, teve obras expostas em Portugal (participou de uma coletiva) e na França. No ano passado, o artista Sérgio Ferro, que mora na França, foi visitá-lo na prisão e levou alguns de seus quadros. “Essa foi uma visita que muito me honrou”, lembra o pintor.

Gláucia Severo, que também é artista plástica, já realizou 25 exposições com obras de Oséias e agora está mandando algumas delas para Londres. “Ele é um hiper realista que faz composições de imagens retiradas de livros e revistas com a sua própria concepção artística. É um belo trabalho”, diz ela, que pode ser contatada pelo fone 354-8687. (MC)

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Serviço: pessoas interessadas em participar do programa de ressocialização Bem Viver podem entrar em contato com a Prisão Provisória de Curitiba através do telefone 313-3700.