O operador de máquinas Juracir Francisco da Silva, de 32 anos, não acredita em justiça quando o assunto é a indenização a que teria direito depois de ter ficado paraplégico. Juracir foi um dos quase 1.200 trabalhadores que atuaram na limpeza dos rios Barigüi e Iguaçu, quando, no dia 16 de julho de 2000, quatro milhões de litros de óleo cru vazaram da Refinaria. Em contato direto com o óleo, Juracir conta que sentiu fortes dores na cabeça e por todo o corpo. Em pouco mais de dois meses, revela, suas pernas começaram a perder movimento e hoje Juracir está fadado a viver em cima de uma cama. Sente a parte inferior do corpo, mas não consegue se mexer. Nem a Petrobras nem a Arauserv Limpeza e Conservação, uma das contratadas pela estatal para fazer a limpeza dos rios, reconhecem o problema de Juracir como acidente de trabalho.

“Há tanta gente doente por aí, e o Estado não faz nada. O Ministério Público fez alguma coisa? Também não”, lamenta. Pai de quatro crianças, Juracir conta que vive de doações. “Minha mulher não pode trabalhar, porque dependo dela para tudo”, diz, acrescentando que tem incontinência urinária e depende da bolsa coletora.

Juraci trabalhou de 17 a 25 de julho, nos pontos de Guajuvira a Balsa Nova. “Trabalhei dentro do rio, com óleo até a cintura. Ninguém falou que o produto era tóxico, nem forneceram equipamentos de segurança”, denuncia. Segundo ele, botas, macacão e luvas chegaram apenas dias depois de iniciada a operação de limpeza. “A gente ficava o tempo todo em contato com o óleo. Almoçava por lá e às vezes trabalhava até 36 horas seguidas.” O ?bico? lhe rendeu R$ 240,00, mas trouxe conseqüências que, segundo Juracir, devem afetá-lo para o resto da vida. “Pelo o que disseram não há cura.”

O diagnóstico de médicos do Hospital de Clínicas, conta ele, é paraplegia com obesidade sem causa ? desde que ficou doente, passou de 80 quilos para 140 quilos. O problema, revela, é que não existe no Estado perito em intoxicação capaz de fazer um diagnóstico definitivo. “É preciso ir para São Paulo para fazer este exame, mas é caro e não tenho condições”, afirma. “Justiça só existe para quem tem condições de pagar por ela”, arremata desconsolado.

Petrobras

A diretoria da Petrobras/Repar, em nota à imprensa, contestou as acusações de Juracir da Silva. De acordo com a nota, “o quadro apresentado pelo senhor Juracir era de doença viral de sistema respiratório seguida, possivelmente, de reação imunológica e síndrome neurológica de mielite transversa de origem viral”. Na nota, a refinaria informou ainda que “foram adotados todos os procedimentos para garantir segurança e integridade à saúde dos trabalhadores envolvidos na atividades”, entre os quais destacam-se as medições de hidrocarbonetos voláteis, nos locais de maior contaminação, e exames clínicos nos trabalhadores, por amostragem. Na Arauserv, ninguém falou a respeito. (LS)