Exportações

Sobretaxa da China trava exportações de carne bovina de frigorífico do Paraná

Fotografia em enquadramento médio com perspectiva em profundidade de cortes de carne bovina expostos em um balcão refrigerado de açougue ou mercado comercial. Em primeiro plano, do lado esquerdo, sobressaem grandes peças de carne crua e pernis suspensos por ganchos metálicos alinhados em uma barra superior de aço inoxidável. As peças apresentam tonalidade vermelho-escura com camada externa de gordura clara e fibras musculares aparente. No plano intermediário, alinhados no canto inferior direito ao longo do balcão, veem-se diversos recipientes e bandejas brancas contendo cortes fracionados de carne bovina, costelas e miúdos etiquetados. Ao fundo, a fileira de ganchos com carcaças e peças suspensas estende-se em perspectiva até o lado direito do ambiente, sob iluminação branca e fria característica de expositores refrigerados comerciais.
Brasil esgotou o teto de salvaguarda. Foto: Arquivo/Marcelo Elias/Gazeta do Povo.

O comércio de carne bovina entre o Brasil e a China atingiu um divisor de águas neste início de outubro. Pela primeira vez no histórico das relações comerciais entre os dois países, o Brasil esgotou o teto anual de salvaguarda de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina enviadas sem tarifação punitiva.

A partir de 1º de outubro, todo lote de carne brasileira que desembarcar em portos chineses passa a recolher uma sobretaxa adicional de 55%, acumulada à tarifa padrão de importação de 12% — elevando a tributação total para expressivos 67%.

A medida pega o mercado em um ano atípico, marcado pela disparada nos preços da arroba e pelo abate acentuado de fêmeas nos anos anteriores, o que reduziu a oferta de animais prontos para o ganchos em todo o país.

Apesar de o Brasil responder por quase metade do abastecimento de carne bovina na China, o envio de mercadorias sob a alíquota de 67% travou as novas negociações para aquele destino. É o que explica Diogo Oliveira, operador de comércio exterior do Frigorífico Astra, localizado em Cruzeiro do Oeste, no Noroeste do Estado, a única planta industrial do Paraná habilitada pelo governo chinês para o envio direto de carne bovina.

“O envio de mercadorias com o imposto de 67% para a China se torna inviável, pois o consumidor de lá não tem como assumir esse imposto e nem nós temos como baixar o preço para tornar a operação viável. Nossa estratégia agora é diversificar mercados”, afirma Diogo Oliveira.

A empresa paranaense já previa o esgotamento do teto comercial desde meados do ano e antecipou sua logística para evitar que contêineres chegassem à Ásia durante o período de tarifação cheia.

Cenário no Paraná

Diferentemente de estados como Mato Grosso, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul, que concentram gigantes do setor exportador de bovinos, a vocação do Paraná na pauta internacional de proteínas é focada na avicultura.

De acordo com dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o estado é o maior exportador de carne de frango do país, enquanto a pecuária de corte paranaense é voltada predominantemente para o consumo regional e abastecimento do mercado doméstico.

Para o presidente do Sistema FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Ágide Eduardo Meneguette, a participação paranaense no volume exportado de carne bovina para os chineses é historicamente pequena, o que diminui o impacto direto de uma eventual desaceleração nos portos asiáticos.

“A China mantém a liderança isolada, absorvendo cerca de 55% do volume total exportado pelo Brasil. Mas os exportadores brasileiros já sabiam dos prazos e vêm trabalhando na realocação para outros destinos. É pouco provável que ocorra uma ‘inundação’ desse produto no mercado interno que venha a baixar os preços de maneira significativa”, destaca Meneguette.

Além da China, o Brasil tem direcionado volumes crescentes de proteína para mercados como Estados Unidos, Chile, União Europeia, Rússia, México e Oriente Médio.Preço da arroba alto e capacidade reduzida nos frigoríficos

O travamento temporário das vendas para a China não significa, contudo, carne mais barata nas prateleiras ou sobra de animais no campo. No Paraná, o mercado pecuário enfrenta um gargalo de oferta de matéria-prima.

Foto: Josué Teixeira / Arquivo Gazeta do Povo

Carne bovina paranaense

Segundo o Frigorífico Astra, a escassez de bois gordo pronta para abate fez a arroba atingir patamares históricos de valorização. Sem margem para repassar o custo aos compradores externos e com concorrência acirrada lá fora em preço e qualidade, os frigoríficos paranaenses dependem fortemente da absorção pelo consumidor brasileiro.

Atualmente, a planta da Astra em Cruzeiro do Oeste opera com 80% da sua capacidade produtiva, com previsão de cortar mais 10% do ritmo de abate caso o preço da arroba permaneça elevado e sem sustentação no varejo nacional.

A expectativa da indústria é de que a oferta de animais só volte a se regularizar em um horizonte de um ano e meio, tempo necessário para o ciclo biológico da pecuária recompor o rebanho após o forte abate de matrizes nos últimos dois anos.

Por outro lado, ter ao menos uma indústria no estado com selo e habilitação para as exigências sanitárias da China, Ásia e Europa garante que o produtor paranaense continue recebendo valores competitivos pela arroba, evitando ter de vender animais com desconto para indústrias de menor porte ou de outros Estados.

Bolso do consumidor e disputa no prato

Com a carne bovina sustentando preços altos e oferta ajustada, o consumidor paranaense tende a manter o padrão de consumo verificado nas pesquisas do setor.

Dados levantados pela FAEP mostram que, embora a carne bovina seja a preferida do brasileiro em sabor e ocasiões festivas (com consumo médio de 38kg por pessoa ao ano), a carne de frango lidera com folga a preferência prática do dia a dia, atingindo 47kg por habitante ao ano, impulsionada pelo preço acessível. A carne suína aparece na sequência, com 20kg anuais e forte ritmo de crescimento pela relação custo-benefício.

Com o teto estourado, o mercado aguarda a renovação do ciclo anual de cotas na China para o início do próximo ano, enquanto a pecuária paranaense segue administrando custos e calibrando a oferta entre o balcão do açougue local e os embarques internacionais.

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