O senador paranaense Sérgio Moro, pré-candidato ao Governo do Paraná, concedeu uma entrevista exclusiva para a Tribuna do Paraná no início desta semana. O ex-juiz detalhou seus planos para um eventual mandato como governador, destacando o Paraná como o “projeto-piloto” para uma nova forma de fazer política no Brasil.

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Com foco em tecnologia, segurança pública e uma gestão técnica, o pré-candidato defende que, ao blindar órgãos de controle e impulsionar a inovação no agronegócio e na indústria, o estado pode se tornar um modelo de excelência e prosperidade para o restante do país.

Durante a conversa, Moro rebate críticas sobre sua trajetória, aborda a crise recente no fornecimento de energia pela Copel e explica por que insiste na criação de uma Agência Estadual Anticorrupção, mesmo diante de um cenário nacional ainda marcado por retrocessos. O senador também não fugiu de temas sensíveis, como sua relação com aliados políticos e as mudanças necessárias no Supremo Tribunal Federal (STF).

A entrevista revela um Moro que se diz adaptado à nova rotina política, sem, contudo, abandonar a defesa de seus princípios fundamentais. Mais do que debater o passado na magistratura, ele projeta um futuro onde o Paraná precisa ser protagonista em soluções práticas, afastando-se do “caminho fácil” das velhas práticas partidárias para focar na entrega de resultados concretos ao cidadão paranaense.

Confira a entrevista com o senador Sérgio Moro:

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Tribuna do Paraná: Por que o senhor quer ser governador do Paraná?

Sergio Moro: Acredito que a gente consegue fazer do Paraná um modelo para o país. Nós queremos fazer daqui a nossa fortaleza. Primeiro, garantir as nossas liberdades. Infelizmente, a gente vê nos últimos anos, a partir de Brasília, um cerceamento cada vez maior da liberdade do cidadão, até no que se refere ao que se pensa, a liberdade de expressão, que é uma das coisas mais básicas.

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Também precisamos resgatar a garantia do direito de propriedade. A gente tem terras invadidas no Paraná, questões relacionadas à demarcação de terras indígenas, que a gente não consegue resolver. A gente precisa recuperar o bom caminho da justiça e da integridade, além da agenda anticorrupção que foi abandonada no Brasil.

Voltou a roubalheira com toda a força. As pessoas olham para Brasília e perdem a esperança, se entristecem. Uma das nossas propostas é criar aqui uma Agência Estadual Anticorrupção, que seria um órgão funcionando dentro do governo, mas com independência para atuar, com autonomia na prevenção e combate a fraudes internas e qualquer espécie de desvio. Com isso, a gente quer buscar aquela excelência que a gente entende que o paranaense merece.

O Paraná é um estado acima da média, mas nós queremos ser o melhor estado do país em saúde, educação e em crescimento econômico baseado em tecnologia. E tudo isso é um meio para atingir essa finalidade, que é a prosperidade para todos os paranaenses. Então, a busca de um modelo de excelência para o país começa pelo Paraná.

Tribuna do Paraná: O seu foco continua sendo o melhor para o Brasil, mas usando o Paraná como referência para testar ideias que podem ser usadas em outros lugares?

Sergio Moro: De certa maneira, sim. A ideia é agir localmente, ser o exemplo. As pessoas acreditam muito quando elas veem as coisas acontecerem. Os exemplos arrastam mais do que as palavras. Seremos implacáveis em relação a desvios e no combate à corrupção. Digo isso porque a gente já fez na Operação Lava Jato. Vamos transformar o Paraná no estado mais seguro do país, porque já fizemos isso como ministro da Justiça e Segurança Pública.

Avançamos muito naqueles quase dois anos, tanto que a percepção era de que o crime organizado estava na defensiva. Hoje, a percepção é exatamente o contrário. Aliás, eu sou o único ministro da Justiça ameaçado pelo PCC. Por quê? Porque a gente foi para cima, a gente não recuou. Fazendo isso no Paraná, podemos mostrar que o Brasil pode ser um lugar diferente.

Tribuna do Paraná: O senhor falou dessa agência local de combate à corrupção vinculada ao governo estadual. Só que a gente sabe que é de dentro dos governos que surgem os grandes casos de corrupção. Como blindar essa agência da corrupção que está impregnada em parte considerável dos brasileiros?

Sergio Moro: Posso te dizer uma coisa: durante a minha gestão no Ministério da Justiça e Segurança Pública não houve uma denúncia, sequer uma cogitação de desvios de conduta de qualquer espécie e a gente tinha um orçamento enorme. A ideia é criar uma estrutura institucional que imunize a direção da agência e os seus funcionários de qualquer espécie de pressão política. Defendemos que a posição de diretor seja um mandato, como é no Banco Central. Queremos ele imune a pressões por parte do governo. A nossa Agência Estadual Anticorrupção terá um diretor com mandato, sem influência do governador.

Tribuna do Paraná: Recentemente um ex-assessor na Casa Civil, que também é ex-prefeito, foi alvo de uma operação do Gaeco contra a corrupção. Tivemos casos de deputados assinando acordos de não persecução penal, admitindo recebimento de propina. A corrupção está dentro do sistema. De que forma o senhor vai trabalhar localmente para acalmar o cidadão que se pergunta: ‘Até quando?’

Sergio Moro: A gente olha muito para Brasília e se entristece, né? O caso do INSS, o escândalo do Banco Master. Mas esquecemos de perceber que também temos nossos próprios problemas. Você mesmo mencionou, não foi um, mas três deputados que firmaram o acordo de não persecução penal. Tínhamos um presidente da Assembleia Legislativa que confessou receber suborno e não aconteceu praticamente nada com ele. Como é que você continua na vida pública a partir desse momento? Temos que fazer nossa lição.

Podemos fazer mais e melhor aqui no Paraná também no combate à corrupção. A corrupção não é um fim em si mesmo. A gente consegue um governo mais eficiente, com mais dinheiro para a educação, para resolver questões que representam estrangulamento econômico no nosso estado. Por isso chamamos o Edson Vasconcelos, presidente da FIEP, que é empresário e traz toda a questão da inovação da tecnologia para fazer o Paraná dar um salto econômico. Temos o agro muito pujante, temos orgulho da água que irriga todos os setores da nossa economia.

Mas a economia do futuro é a tecnologia, o data center, tecnologia da informação e ainda estamos patinando nessa área. Hoje a gente está com um problema de fornecimento de energia elétrica estável, principalmente no interior, mas não só lá. Isso acaba impactando não só a produtividade na nossa economia, mas as perspectivas de futuro. É o momento do governador ter a coragem para liderar e enfrentar os interesses que muitas vezes se colocam à frente do interesse da população.

Tribuna do Paraná: O número de reclamações contra a Copel cresceu muito. O senhor acha que a venda foi um erro?

Sergio Moro: Entendo que a perspectiva de tratar a questão não é essa. A Copel foi privatizada e tem o dever e obrigação de prestar um serviço de qualidade aos paranaenses. É nisso que ela está faltando. Fizemos uma audiência pública lá no Senado Federal, chamamos dirigentes da Copel, da Aneel, lideranças do mundo empresarial paranaense, principalmente das federações. A Aneel confirmou que subiu muito o número de reclamações. A Copel diz que tem feito investimentos recordes, mas claramente tem alguma coisa errada, pois, se tem investimento, não está resultando em qualidade na ponta para o consumidor.

Ouvimos muitas histórias de prejuízos em grandes empresas, como a Tetrapak, em Ponta Grossa, que pelas contas deles ficaram 15 dias no ano sem produzir. Imagina o prejuízo. Tem alguma coisa errada. Pedimos explicações e um plano de ação para até 30 dias. Agora, se a gente tivesse também a caneta e os poderes inerentes ao governo, você pode ter certeza que a gente agiria mais firmemente em relação a esse tema. Então acho que a questão não é ser contra a privatização, mas se ela foi privatizada precisa mostrar competência, e isso não está acontecendo, por mais que a Copel tenha um corpo de funcionários que a gente respeita muito.

Tribuna do Paraná: Afinal, foi uma boa venda?

Sergio Moro: Foi feito e agora nós temos que cobrar um serviço de qualidade. Precisamos ter a fiscalização da Aneel, mas também uma fiscalização local, como a da Agepar. Nós temos uma competência fiscalizatória, inclusive para impor sanções diante da falta de cumprimento das metas e atendimento falho ao consumidor. O que não dá é para ficarmos ouvindo histórias de produtores rurais perdendo tudo, peixes, aves, prejuízos milionários. Cadê a indenização desses produtores? Alguma coisa está errada. Não pode ser privatizada e permanecer alheia aos interesses dos paranaenses.

Tribuna do Paraná: Estamos muito próximos de uma privatização da Celepar. Como é que o senhor encara as privatizações, usando a Celepar como exemplo?

Sergio Moro: Eu tenho uma visão liberal do mercado. Eu acho que os países que deram certo apostaram na iniciativa privada, de onde vêm a inovação e a tecnologia. A gente precisa de um ambiente de competição leal. Então a questão da privatização é ver o que funciona e o que não funciona. É um pouco daquela história da cor do gato: não importa qual seja, desde que ele pegue o rato. Então, nós temos que analisar exatamente qual é o modelo de privatização escolhido, porque não adianta fazer a privatização e ter um serviço de má qualidade.

Temos que fazer um estudo aprofundado para ver como cada caso específico vai funcionar. Não dá para trocar um monopólio público por um privado. A questão da Celepar eu acompanhei e foi aprovada uma lei aqui da Assembleia Legislativa, mas que agora teve a privatização suspensa pelo ministro Flávio Dino. Importante destacar que é um processo que está sendo mal feito, sem a preocupação em relação aos dados dos paranaenses.

Então, fazer privatização por fazer é um processo que não vale a pena. Tem que ter um estudo mais aprofundado para saber como não colocar em risco os dados pessoais dos paranaenses. Não é ser contra privatização, sou normalmente a favor, mas o modelo tem que ser bem feito, não pode ser algo feito nas coxas.

Tribuna do Paraná: O senhor se colocou como uma das únicas vozes em Brasília fazendo coisas relevantes. Como é que o senhor avalia o trabalho dos senadores do Paraná? Se virar governador, o senhor vai precisar da ajuda deles.

Sergio Moro: Eu não faria juízo de valor sobre meus colegas. Eu acho que seria algo inapropriado da minha parte. O que a gente tem, porém, é uma boa chapa para apresentar nessa eleição. Temos dois bons pré-candidatos, que são o Deltan Dallagnol, que foi procurador da Lava Jato, e o Felipe Barros, um dos líderes da oposição ao Lula na Câmara. São duas pessoas que, até por essa condição, foram perseguidas.

O Deltan teve seu mandato ilegalmente cassado e, de Felipe, tentaram incluí-lo naquele inquérito das Fake News. São pessoas que mostraram o seu valor. Temos temas importantes para tratar. Eu, por exemplo, não aceito que o Paraná seja discriminado na aprovação de legislações em Brasília, como aconteceu na reforma tributária em determinado momento. Eu era a única voz contra a concessão de benefícios fiscais a empresas se instalarem em outras regiões do país, pois prejudicaria o nosso estado. A gente precisa ter uma bancada ativa e permanentemente focada nos interesses do Paraná.

Tribuna do Paraná: Como foi o Sergio Moro na infância e adolescência? O que aquele Sergio sonhava em ser ou realizar na vida adulta?

Sergio Moro: Eu fui um adolescente normal, assim como fui uma criança normal. Não tem nada muito chamativo. Era filho de professores. Meu pai era professor da Universidade Estadual de Maringá e a minha mãe era professora de literatura e gramática no Ensino Médio público.

Eu estudei tanto no ensino público, quanto no particular. Nossa preocupação era brincar e estudar, mas eu era muito tímido quando eu era mais novo. Depois na profissão, como juiz, também era mais fechado, mas como senador precisa ser mais expansivo; afinal, o diálogo é fundamental.

Tribuna do Paraná: É um desafio para o senhor encarar essas falas em público, em ser mais expansivo?

Sergio Moro: Não é bem um desafio, mas algumas coisas você tem que mudar com o passar do tempo. O juiz é mais circunspecto, não pode ser tão expansivo, não pode fazer política nem nada parecido. Tem que ser mais centrado. Já no Senado, para você aprovar um projeto de lei, e a gente aprovou vários, não tem jeito. Tem que dialogar. Ninguém aprova um projeto sozinho. Na política tem contato com o eleitor, tem que ser mais expansivo.

Um momento que foi de mudança de chave foi que, em 2022, subi em um carro de som naquelas carreatas. Como juiz, isso era impensável. Então é necessário se adaptar às circunstâncias. Eu vi uma frase uma vez que dizia: “Toda pessoa tem que se reinventar a cada 10 anos”. Então, estou me reinventando, porém, mantendo tudo aquilo que eu acredito. Os meus princípios e valores são os mesmos que recebi dos meus pais. Esse é o pensamento do paranaense. Aqui é uma terra de gente honesta, que trabalha e que produz. Isso que precisamos valorizar.

Tribuna do Paraná: Ser político parece realmente uma habilidade. Precisa encarar partidos (e mudanças de partidos), coligações, parcerias, acordos. O senhor já é um político de verdade?

Sergio Moro: É a finalidade da política. Tem que ser o bem comum. Sigo nessa linha. Pode parecer um pouco antiquado, mas se a gente não acreditar que, no final das contas, trabalhamos para o bem-estar da população, em um governo pelo povo e para o povo, estamos no caminho errado. Não é fácil, tem que evitar os rochedos, algumas armadilhas da política, como buscar o caminho mais fácil. Por exemplo, quando construímos a nossa chapa, tivemos dificuldade de obter legenda. Estávamos na Federação Progressistas e não é segredo para ninguém que o presidente de um dos partidos dizia que não seríamos candidatos.

Depois, muitos disseram para eu aceitar um vice indicado pelo mundo político, um político profissional, tradicional, que resolveria todos meus problemas. Mas queria colocar aos paranaenses um projeto técnico e robusto. Não é que não tenhamos diálogo político, mas para uma posição como vice queríamos alguém estratégico, por isso o Edson. Não caímos no canto da sereia de seguir o caminho fácil, mas que poderia ser ruim lá na frente para o nosso projeto.

Nós preferimos seguir o que acreditamos. A política é um aprendizado e o diálogo faz parte. O exercício da paciência é uma virtude, mas a gente não pode cair na tentação de fazer igual a todos os outros. Senão, também não faria sentido a nossa saída da magistratura.

Tribuna do Paraná: O senhor teve mais decepções ou alegrias nesse caminho político até agora?

Sergio Moro: Teve a Operação Lava Jato, que foi um grande avanço no combate à corrupção e trouxe muita esperança para o país. Mas, nos últimos quatro anos, vivenciamos uma grande inversão de valores, com várias condenações de gente culpada por crimes anuladas.

Ninguém nega que a Petrobras foi roubada, mas com base em tecnicismos, com base em formalismos, por conta de uma reviravolta política, várias condenações foram anuladas sem que as pessoas fossem declaradas inocentes. Isso me incomoda.

Não estou falando exatamente da parte política, porque quando era juiz eu não era político, mas vejo retrocesso. Ainda assim, não podemos abaixar a cabeça, desistir. Isso apenas nos mostra que o trabalho é mais longo, que a luta é mais profunda e é mais difícil do que acreditávamos.

Tribuna do Paraná: A postura que o senhor teve desde que deixou de ser juiz, do convite aceito para ser ministro logo que largou a toga, conversas vazadas, declarações fortes após saída do governo, não ajudaram a levar a Lava Jato justamente para esta situação que o senhor critica? Qual é sua culpa nisso?

Sergio Moro: Na verdade, a culpa é daqueles que sempre buscaram a impunidade. O que a gente tem nessa inversão de valores, na narrativa que muitas vezes tenta transferir a responsabilidade. É muito vergonhoso ter gente como o Lula, como o Sérgio Cabral, como Eduardo Cunha, todos com condenações anuladas. Constroem uma narrativa para transferir a responsabilidade. A culpa não é deles. A culpa não é de quem roubou a Petrobras. De repente, a culpa é de quem combateu a corrupção. A culpa é do Deltan, a culpa é minha. É do pessoal que fez o seu trabalho.

Na verdade, temos que ser muito bem realistas: o Brasil tem uma tradição de forte impunidade na grande corrupção e dos crimes praticados pelos poderosos. Nessa narrativa de transferência tentam dizer que a culpa é do promotor ou do juiz que os perseguia. Mas, espera aí. A Petrobras foi roubada ou não? Cabral é inocente? Eduardo Cunha é inocente? Lula é inocente? Nem os tribunais tiveram coragem de fazer esse tipo de afirmação e o resultado disso é o que a gente está vendo hoje: a volta da roubalheira.

A anulação da Lava Jato por motivos meramente políticos abriu as portas do inferno para a volta da roubalheira. As pessoas se sentiram à vontade para roubar de novo e fizeram os mais vergonhosos crimes. O Banco Master, o roubo dos aposentados e pensionistas do INSS, contra pessoas vulneráveis. Tudo isso reflete a necessidade de voltar com essa agenda de anticorrupção. Se por Brasília é muito difícil, vamos retomar pelo Paraná, que nós também temos episódios vergonhosos.

Leia outras entrevistas:

Tribuna do Paraná: O senhor se pronunciou sobre o vazamento dos áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro por uma nota oficial um pouco superficial para quem esperava um posicionamento firme. Essa é uma nova oportunidade para o senhor falar sobre essa relação que envolve o seu candidato à presidência.

Sergio Moro: O Flávio Bolsonaro teve esse episódio que realmente é um episódio infeliz. Ele prestou os esclarecimentos dele. Vamos aguardar os desdobramentos em relação a isso. Mas por agora, ele é o único pré-candidato à presidência da República que tem condições de derrotar o projeto do governo do PT, que é um projeto fundado na roubalheira. O próprio escândalo do Banco Master tem dedo do PT. Começou lá na Bahia, na época de governadores petistas que sempre deram muito apoio ao Lula.

O que defendo particularmente aqui é muito claro: nunca compactuo com o errado e que cada um responda por suas responsabilidades e suas faltas. Então, que se investigue todos. Agora, o que estranho também são alguns vazamentos seletivos, muitas vezes sobre fatos, sem que seja exposto tudo. O que eu fazia na época da Lava Jato era pegar esses processos, quando não havia mais risco em investigação, e levantar o sigilo. Ninguém tem que ser guardião de segredos sombrios de políticos ou de administradores. Então, que se investiguem todos.

Agora, há um ponto importante em relação ao Flávio: ele assinou a CPMI do Banco Master, enquanto a oposição sempre pediu a investigação. A base do governo Lula sempre trabalhou para que a CPMI não fosse instalada.

Tribuna do Paraná: Essa relação próxima do poder com o pessoal que tem o dinheiro, empresas e bancos, sempre pareceu nebulosa. O que o senhor acha disso?

Sergio Moro: Não podemos demonizar o capitalismo nem os grandes empresários. O diálogo é normal. Claro que tem que ser um diálogo sempre republicano, cuidando para evitar conflitos de interesses. É importante que seja tudo transparente, colocado em agenda oficial, publicizado.

Eu fui juiz da Lava Jato, que mexeu com o caso mais sensível de corrupção da história do país, e nunca tive nenhum questionamento em cima da nossa integridade. Como ministro nunca tivemos nenhum indicativo de suspeita e como senador a mesma coisa.

Então é uma página aberta do que faço e, por mais que possa ouvir demandas do setor empresarial, assim como ouço demandas dos trabalhadores, assim como ouço demandas da sociedade em geral, nunca houve qualquer espécie de suspeita sobre a condução do que faço.

Tribuna do Paraná: O senhor diz que nunca houve questionamento sobre sua conduta, mas houve vários, apesar do senhor claramente não concordar. Seja pela imprensa, pela oposição à operação, mas isso aconteceu.

Sergio Moro: Nunca houve questionamento sobre desvios de conduta. Agora, do pessoal que ficou resignado porque seu político favorito foi processado e condenado, isso teve. Mas aí a culpa é deles, né? Não é culpa de quem acabou fazendo o trabalho como juiz.

Tribuna do Paraná: O senhor falou que o juiz tem que ter uma postura mais circunspecta, fora dos holofotes. Mas a gente vê no STF uma exposição muito grande dos ministros, com entrevistas e muitas opiniões públicas. O senhor acha que essa exposição prejudica a credibilidade das decisões?

Sergio Moro: Nós precisamos de uma mudança no STF. Não é de agora que eu tenho falado nisso. Temos que encontrar outro caminho, porque de fato hoje existe uma situação de que alguns ministros do Supremo parecem estar acima da lei. Adotam até um comportamento que é absolutamente equivocado ao meu ver e do ponto de vista da condução da magistratura.

Talvez uma das respostas seja o mandato por tempo determinado. Quem sabe de 12 anos. Tem uma PEC apresentada pelo senador Plínio Valério que está discutindo isso, além de acabar com o foro privilegiado. Acho que é um instituto que não se justifica, anti-republicano, e que gera um ambiente não saudável entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Isso está na agenda do país e certamente vai ser objeto de debate nessas eleições. Tem pessoas que até defendem medidas mais drásticas, como o impedimento de ministros.

O fato é que nós precisamos melhorar a instituição para preservá-la. Acho que isso é essencial. É uma instituição que está desde 1891 nesse formato, mas tem coisas que não estão funcionando. Foi uma surpresa positiva, no entanto, essa recente rejeição do nome do Jorge Messias ao STF. Eu estava lá, participei da sabatina e fiz até indagações importantes, além de votar contra. Ele era visto como uma pessoa muito vinculada ao Lula e ao poder executivo, e esse formato no qual o executivo se socorre ao STF para conseguir governabilidade contra o Congresso é um modelo que não se justifica, é antidemocrático. O Supremo muitas vezes exacerba a sua competência para favorecer o governo na disputa com o Congresso.

Tribuna do Paraná: O senhor se arrepende de largar a toga? Em tese, o senhor estaria hoje no STF, pelo eventual acordo que você tinha feito com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Sergio Moro: Nunca teve um acordo para que eu me tornasse ministro do Supremo. Isso é uma fantasia da época. O próprio Bolsonaro pode até ter falado, mas a gente nunca tinha feito qualquer espécie de compromisso nesse sentido. Na verdade, a minha preocupação sempre foi em fazer as coisas certas. Se o caminho certo te leva a algumas dificuldades, faz parte. Mas não excluiria o caminho mais fácil para contornar as dificuldades em detrimento daquilo que eu acredito.

Tribuna do Paraná: Não estaria mais confortável lá no STF do que tomando pedrada como político?

Sergio Moro: Acho que é uma grande honra ter a oportunidade de eventualmente se tornar governador do Paraná e trabalhar pelo bem da população paranaense. Muito mais do que eventualmente chegar a uma posição de ministro do STF.

Tribuna do Paraná: Segue sonhando em ser presidente?

Sergio Moro: Não, não está na minha perspectiva. A ideia é fazer um bom governo, se for honrado com essa preferência pelos paranaenses.