| Foto: Chuniti Kawamura/O Estado |
| Beleza que encanta qualquer pessoa. Aves de várias espécies colorem as árvores. continua após a publicidade |
Quem enfrenta 80 quilômetros de estrada de terra em péssimas condições, passando por um mirante interditado por falta de manutenção, nem imagina que no final desse trajeto assustador irá encontrar um verdadeiro santuário da natureza. Mico-leão, jacaré e aves de várias espécies. Sem mencionar comunidades que ainda vivem sem energia elétrica e têm como único meio de transporte o barco; índios que pouco falam o português, como os de Cerco Grande; labirintos de mangue; e até 32 quilômetros de praia deserta, no meio do mar. Tudo isso está no Paraná: Guaraqueçaba.
Embora o acesso seja complicado, não tem como errar. De Curitiba a Morretes, tem duas opções: a BR-277, pegando a saída para Antonina, ou direto pela Estrada da Graciosa. Chegando em Morretes, basta pegar a direção que indicar para Cacatu. A estrada tem pista simples sem acostamento, mas está em boas condições. O caminho é curto, mas já dá provas dos encantos. As casas simples revelam o estilo de vida dos nativos, no meio de uma bela e cheirosa paisagem de Mata Atlântica com vista para o Pico do Paraná. Passando Cacatu, a vista continua deslumbrante. Porém, os buracos e as pedras atrasam a viagem e aumentam o risco, principalmente de danos ao veículo. Começam os entraves e o percurso restante de viagem, que em boas condições, levaria no máximo uma hora e meia, não pode ser percorrido em menos de três horas.
"Com relação à estrada, a PR-405, fizemos nossa reivindicação de um calçamento de pelo menos dez quilômetros da estrada nas localizações onde estão os moradores das comunidades. A Prefeitura, apesar de pobre, conseguiu desenvolver para o Estado esse projeto, mas até agora não saiu. Não tenho como desenvolver o município sem estrada. São oitenta quilômetros de pista não pavimentada e, por isso, Guaraqueçaba está sendo esquecida", lamenta o prefeito Riad Said Zahoui.
De acordo com informações da Secretaria de Estado dos Transportes, há uma constante permanência de máquinas e pessoal cuidando da manutenção da pista, mas com a chuva a estrada acabou piorando. No entanto, a reivindicação do município será brevemente atendida. Segundo a assessoria do órgão, está marcada para janeiro a licitação para trabalhar na recuperação de um total de 20 quilômetros de trechos críticos.
Guaraqueçaba
O município é pequeno, simples e tranqüilo, mas com um potencial turístico muito grande. Hoje com 362 leitos, o diretor de turismo Marcelo Aquino diz que o município não está de fato preparado, mas aos poucos pensa nos avanços. "O que estamos fazendo agora é a regularização dos empreendimentos informais, que são muitos em Guaraqueçaba. O atrativo pronto e imenso que tem aqui é o natural. Temos a reserva do Sibuí, do Morato; temos as ilhas; a Barra do Ararapira; a pesca atrai muita gente até a região; e a revoada dos papagaios na Ilha Pinheirinho", descreve Aquino.
Uma das reclamações da região é a falta de investimentos. Com pouco recursos, infelizmente, segundo Aquino, o município ainda é muito dependente. Segundo ele, a arrecadação tributária de um ano não paga a folha de pagamento de um mês. Porém, isso pode mudar. "Em setembro, uma operadora de turismo inglesa se instalou na região. Eles organizaram roteiros da nossa região. Aí é que vem nossa preocupação, pois estamos ainda despreparados em termos de infra-estrutura", explica o diretor de turismo.
População que vive bem e com simplicidade
Em Guaraqueçaba há cerca de 8.288 habitantes. Desse total, três mil vivem na sede e os demais estão espalhados em mais de 32 comunidades, que vivem na estrada ou nas ilhas que pertencem ao município. O estilo de vida dessas pessoas é uma atração a parte: a maioria vive sem energia elétrica, ao invés de postes de alta tensão são utilizadas placas solares; e utilizam o barco se pretendem se deslocar para distâncias mais longas.
"Cada comunidade é diferente da outra. Por exemplo, no Tromomo a maioria é evangélica; tem outra que vive da pesca, como no Costão; outra vive do artesanato, principalmente cestarias, como as que estão na estrada; e têm ainda as que vivem de agricultura ou até do extrativismo", comenta o diretor de turismo do município, Marcelo Aquino.
Na Ilha das Peças, próxima a Superagüi, estão três comunidades. Em Tibicanga, além de não ter luz elétrica, tem uma cozinha comunitária que está sendo ativada. A diversão das crianças é o mar. E as compras mais pesadas só podem ser feitas na sede. Nessas comunidades, a atividade econômica mais intensa é a pesca. Como é comum em qualquer área de pesca mais movimentada, existem alguns fatores que acabam atrapalhando o pescador. Na região de Superagüi até esses fatores são impressionantes. "Aqui o que atrapalha o pescador não é tanto a pesca predatória, mas os golfinhos e os biguás, o pássaro que pesca", conta Aquino.
Na Ilha dos Papagaios, as quinze famílias que lá vivem dividem o espaço com os papagaios de cara-roxa. O local é o dormitório deles, para onde, no pôr do sol, eles retornam.
Primeira igreja
Na comunidade Colônia do Superagüi está a primeira igreja do Paraná, a Nossa Senhora do Rosário. É lá que Antônio Castanho, com 71 anos, vive com filhos e netos. "Meu pai nasceu e morreu aqui, com 95 anos. É aqui que eu nasci e hoje estou, perto de meus seis filhos e cinco netos", conta o senhor. Antes do controle da legislação ambiental, Antônio conta que eles sobreviviam da lavoura. "Plantávamos arroz, mandioca, milho, feijão e até cana. Só tínhamos que comprar sal. Agora só vivo da pesca", afirma.
A mesma comunidade tem seis casas: todos parentes de Antônio. É lá também que estão as mulheres trabalhadoras. "As mulheres todas pescam aqui. Quando tem festa nós vamos para Superagüi ou Barbados, onde também está a escola das crianças", diz Maria Elisa Castanho, de 31 anos, que vive com outras cinco mulheres, treze crianças e seis homens.
Em Superagüi, Nagib França, de 60 anos, está há 26 anos. Ele tem um pousada para 21 pessoas e um restaurante. "Quando não tem turista a gente espera. Eu estou esperando a temporada", diz. (NF)
Lixo e esgoto ainda são problemas
Dois dos grandes problemas estruturais de Guaraqueçaba são o lixo e o esgoto. No entanto, parece que a todo momento são pensadas soluções para o problema, mas não é fácil. "Para resolver o problema do lixo, nós pegamos a liberação ambiental e estamos fazendo um aterro sanitário na Estrada do Bronze, há mil e oitocentos metros da sede. Em relação ao lixo das ilhas, nós temos um convênio com a própria associação de moradores, que deve cuidar do transporte desse lixo", explica o prefeito Riad Zahoui.
Sobre o saneamento, "falta manutenção nos encanamentos das ilhas. Hoje praticamente setenta famílias estão sem água. O esgoto das ilhas infelizmente também é lamentável. Não é tratado. Junto com a Sanepar, estamos pensando nas soluções para esses problemas", garante Riad.
Investimento
O secretário de Estado do Turismo, Celso Caron, afirma que o litoral é uma região prioritário em termos de apoio, investimento e turismo. Segundo ele, "o litoral está sendo pensado e trabalhado. Saindo o Provetur (um empréstimo internacional junto ao BID), depois de Foz e região, a segunda área a ser contemplada será o litoral, o que inclui Guaraqueçaba. Acredito que o programa será aprovado já no primeiro semestre de 2006". (NF)