Ligar a televisão ou entregar o celular para a criança enquanto resolve tarefas da casa é uma cena comum na rotina das famílias. Ainda mais nesta terça-feira (13), quando a maioria das escolas emendou o feriado puxando o Dia dos Professores para esta data. Mecanismos como reprodução automática, recomendações infinitas e anúncios embutidos transformaram o consumo digital infantil em um campo que exige atenção reforçada dos pais, indo muito além do tempo diante da tela e da classificação etária.
No Paraná, a busca por ambientes controlados reflete nos números de audiência. Na plataforma Watch TV, acessada no estado principalmente via provedores regionais de internet, os perfis infantis somaram 15.971 horas de reprodução em um único mês. O volume envolveu 3.040 usuários ativos, com média de 5,3 horas mensais por perfil e taxa de conclusão de vídeos de 57,3%. Filmes lideraram a preferência (64%), seguidos por séries (26%) e canais ao vivo (11%), com destaque para a entrada rápida do Cartoon Network, que alcançou 16,5% do tempo de canais em menos de duas semanas.
Para a gestora de produtos da Watch TV, Daniella Biselli, o cenário no estado mostra um consumo distribuído entre a rotina de estudos e momentos em família, mas exige que as empresas ofereçam previsibilidade aos responsáveis.
Segundo Daniella, a plataforma optou por não exibir anúncios em conteúdos sob demanda nos perfis infantis, utilizar curadoria fechada e permitir o bloqueio total de transmissões ao vivo para evitar a publicidade das emissoras. Em breve, a ferramenta também deve incluir o limite de tempo de uso.
Do ponto de vista do desenvolvimento, a ausência de pausas nas telas traz impactos diretos ao comportamento. A psicóloga infantil Bianca Zambon alerta que a sequência contínua de vídeos impede a criança de vivenciar a espera e de lidar com a frustração e o tédio — etapas fundamentais para o aprendizado da autorregulação emocional. Segundo a profissional, quando o algoritmo decide o próximo vídeo sem interrupção, a reação com irritação ao desligar o aparelho torna-se mais frequente, além de tirar o espaço de atividades presenciais como brincar e interagir.
Outra preocupação apontada pela psicóloga é a mistura entre entretenimento e publicidade, comum quando personagens ou influenciadores promovem produtos de forma velada.
Como as crianças menores não distinguem o objetivo comercial, a exposição frequente pode estimular um consumo precoce e a ideia de que ter determinado objeto é indispensável para pertencer a um grupo. Para Bianca, o controle parental e os catálogos protegidos são aliados importantes para mitigar riscos, mas não eliminam a necessidade da presença dos adultos em conversas sobre o que é assistido.
