Economizar na alimentação é o último dos itens a ser considerado pela maioria das pessoas, mas todo mundo conhece bem o peso desse tipo de gasto no orçamento. Deixar de lado o aspecto emocional e focar na economia é uma escolha que garante um bom controle sob uma despesa variável e que ameaça qualquer nível de renda. O Bolso Inteligente desta semana foi procurar junto aos consumidores e especialistas as estratégias que fazem toda a diferença na hora de comprar os alimentos da semana, quinzena ou mês.

Dentre todos os entrevistados, duas recomendações foram unanimidade: comparar preços e substituir produtos. “Comprar somente em um estabelecimento é certeza de ficar refém da margem de lucro daquele lugar. Para economizar precisa pesquisar”, indica Fernando César Augusto, fiscal do Disque-Economia – serviço da prefeitura que acompanha a flutuação de preços de 302 itens em 16 supermercados de Curitiba, de segunda a sexta-feira.

Os valores do dia são atualizados no site www.disqueeconomia.curitiba.pr.gov.br a partir das 15h. Também é possível obter informações pelo 3262-6564, Da experiência acumulada, ele diz que o mesmo produto, da mesma marca, pode variar de 30% a 80%. “Recentemente, o pacote de um quilo do arroz branco de uma determinada marca estava com uma diferença de 67,04% entre um mercado e outro. No lugar mais barato, o produto custava R$ 1,79 e no mais caro saía por R$ 2,99”, aponta.

Claro que na peregrinação pelo preço mais em conta, o gasto com o deslocamento – seja de carro ou de ônibus – deve ser levado em conta. Assim como a quantidade que será comprada do produto. “É necessário pensar na necessidade de se comprar aquele produto e a quantidade que a família consome, para evitar desperdício’, explica o economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos do Paraná (Dieese-PR), Fabiano Camargo da Silva.

Outra recomendação do economista é avaliar se os produtos em promoção realmente estão mais baratos do que o valor médio praticado. “Tem que prestar atenção se o valor realmente é mais baixo, porque a placa de promoção nem sempre traduz a realidade. Também é importante cuidar com a compra dos demais itens das listas, uma vez que os estabelecimentos costumam compensar a redução da margem do produto em oferta em outro”, alerta.

Muitas vezes, o barato sai caro!

O economista do Dieese-PR Fabiano Camargo da Silva, destaca que até supermercados da mesma rede apresentam preços diferentes para produtos idênticos, dependendo do bairro onde se encontram. “Nos bairros mais nobres, eles têm um preço maior”, afirma. Outro fator que interfere no valor final dos produtos é a estratégia de preços escolhida pelo supermercado. A mais praticada são as promoções fixadas em determinados dias da semana.

De acordo com o fiscal do Disque-Economia Fernando César Augusto, a diferença para os dias normais chega a 200%. Para quem não tem tempo de ir diariamente ao supermercado para aproveitar as ofertas do dia, essa política de preços nem sempre é a mais vantajosa, já que é certa a compensação dessa redução de margem em outros produtos. Por isso, em outros grupos supermercadistas a estratégia usada é a de preço baixo diariamente. “O preço dos produtos acaba sendo mais linear, não muda todo dia e, na composição da cesta, o consumidor acaba pagando menos no total da compra”, explica o diretor distrital de operações dos hipermercados Big, Sandro Sanches.

Além de perceber qual a política de preço que está por trás, Sanches recomenda aos consumidores dedicarem atenção às substituições de produtos e de marcas no momento da compra. “Na nossa rede, o produto de marca pr&oacute,;pria é de qualidade igual à líder sai entre 30% e 40% mais em conta”, compara. Outros recursos são optar por embalagens especiais que oferecem mais produto pelo mesmo preço ou dão brinde.

Sanches também orienta não se submeter à ampla oscilação de preços dos perecíveis. “A carne bovina disparou em função das pastagens, mas o consumidor que optou por peixe ou frango garantiu a qualidade nutricional do item e ainda economizou, porque alguns peixes foram vendidos neste período com preço do quilo abaixo de R$ 5”.

Pesquisar preços alivia orçamento

Gerson Klaina
Com visitas a sacolões, José Ricardo economiza R$ 300.

Pimentão vermelho, cenoura, batata, maçã gala, banana prata, banana caturra e algumas folhagens. Tudo isso para suprir as necessidades de um casal e uma criança durante três ou quatro dias. Total da compra? R$ 15. Esse foi o valor despendido pelo vendedor José Ricardo Mueller, no início desta semana, para o consumo da família.

Desde que sua filha de dois anos nasceu, ele passou a cuidar com a qualidade dos alimentos que leva para casa, sem caminhar para um desastre financeiro por conta da mais nova integrante da família. Como ficam no trajeto dele vários supermercados e sacolões, o consumidor coloca em prática uma das primeiras regras de economia: comparar preços. E elegeu um sacolão como seu ponto de economia.

O resultado foi uma diferença de quase 80% nos gastos com frutas, legumes e verduras. “Essa mesma quantidade que estou levando aqui, pagaria no mínimo R$ 50 se eu deixasse para comprar em um supermercado”, compara. Carnes e cereais, ele compra nos dias fixos de promoções das grandes redes de supermercados. “No mês, meu gasto com alimentação gira em torno de R$ 600. Sem essas estratégias, estaria passando de R$ 900”, afirma.

Menos gasto em remédios

Gerson Klaina
Luiz Cláudio tirou a geladeira e adotou alimentação mais saudável.

Mais radical na economia, o empresário Luiz Cláudio Bonatto resolveu abolir a geladeira de casa e fazer uma alimentação à base de frutas e verduras. “Hoje o leite longa vida dura dois dias, mesmo fora da geladeira. E sem ela, eu passei a consumir mais frutas e verduras, todas fresquinhas”. Isso exige de Bonatto pelo menos três visitas semanais aos supermercados e sacolões da cidade. “Junto com a economia nos gastos com alimentação, já que compro o que vou consumir imediatamente, ainda não gasto em remédios. Minha saúde melhorou”, atesta.

A decisão de reduzir drasticamente o consumo de carne (por conta dos maus tratos no abate) também deu resultado para o bolso da aposentada Vera Huebner e sua irmã. “Mesmo respeitando um padrão alimentar exigente, estamos gastando menos de R$ 100 por semana”, informa. Ela, no entanto, alerta que nem todos os sacolões são sinônimo de economia. “Nem todos praticam preço único para o quilo da maioria das frutas e verduras. Por isso é importante comparar com o preço médio”, destaca. E ela demonstra que sabe garimpar em um sacolão. “Na bandeja de cogumelo Paris paguei R$ 5 em um produto que a maioria dos mercados cobra o dobro”.