Quem viveu a realidade da Rua XV de Novembro, também conhecida como Rua das Flores, em Curitiba, há algumas décadas, jura que hoje o lugar está descaracterizado e não tem mais o glamour e o encanto de antigamente. Há quem acredite que a rua, localizada bem no centro e tida como um dos principais pontos turísticos de Curitiba, tenha virado ponto de encontro de desocupados, pessoas envolvidas com drogas, entregadores de panfletos publicitários, mendigos e menores de rua.

Segundo o proprietário das Livrarias Ghignone – que tem uma de suas sedes localizada há oitenta anos na XV -, José Ghignone, quando o calçadão da XV foi criado, no ano de 1971, a rua era considerada um ponto de encontro de artistas, intelectuais, namorados e pessoas que aproveitavam o tempo livre para fazer um lanche nas confeitarias e cafés ou simplesmente para caminhar e observar as vitrines das lojas.

José sente falta de estabelecimentos comerciais que já não existem mais, como a Confeitaria Schaffer, a Foto Brasil e a Joalheria Pérola. Ele conta que seu falecido pai, João Ghignone, falava muito do Cine Groff – antigamente um dos grandes responsáveis pelo movimento noturno da rua – e “ficaria entristecido em ver no que a XV se transformou”. “Meu pai tinha um carinho especial pela Rua das Flores, que acabou se transferindo para mim. Ele lutava muito para manter a ordem e a beleza do lugar”, afirma. “Tenho certeza que, se ele estivesse vivo, ficaria chateado em ver as pessoas andando pelo calçadão com medo de serem assaltadas, os camelôs usando as vitrines das lojas para exporem suas mercadorias, as crianças pedindo esmolas, loucos gritando a todo momento, entregadores empurrando panfletos publicitários para cima de quem passa e carrinheiros juntando papéis e papelões em pleno horário comercial.”

Alvarás

José acredita que há um excesso de lojas na Rua XV e questiona se a Secretaria Municipal de Urbanismo realmente tem critérios para conceder alvarás aos comerciantes. “Hoje tem de tudo na Rua das Flores. Há algum tempo, foi anunciado que o local se tornaria um grande shopping, mas o que vejo são lanchonetes que vendem alimentos de qualidade duvidosa, lojas que abrem e fecham de um dia para o outro e poucos estabelecimentos tradicionais.”

Da mesma opinião, o proprietário da Capital das Modas, que funciona há 61 anos na XV, Edmundo Tacla, questiona o fato de haver uma casa de jogos eletrônicos nas proximidades de um colégio. Ele acha que falta maior controle e atenção por parte da Secretaria de Urbanismo. “O dia todo, vejo estudantes matando aulas e perdendo tempo em casa de jogos. Acho que todo mundo tem direito de trabalhar e ganhar a vida, mas acredito que a Prefeitura deveria ter maior controle ao fornecer alvarás para novas lojas.”

Bancos

Outra crítica dos antigos comerciantes diz respeito à presença de bancos ao longo da Rua das Flores. De acordo com José Ghignone, os bancos, que deveriam servir para descanso de clientes das lojas, encontros de amigos e beneficiar turistas, viraram pontos fixos de mendigos e pessoas desocupadas, que sentam para beber e fumar. “Turistas e clientes das lojas não têm coragem de ficar sentados nos bancos. Temem ser incomodados por menores de rua pedindo esmolas ou mesmo por assaltantes”, declara.

Na opinião da proprietária da Confeitaria das Famílias, Dair da Costa Terzado, a violência, apesar das câmeras de segurança que foram instaladas em meados do ano 2000, continua sendo o principal problema. Ela, que já teve seu estabelecimento invadido por bandidos e se queixa que as pessoas já não têm mais coragem de passear pelo calçadão, principalmente após as 19h. “Antigamente, a Rua XV era movimentada durante a noite. As pessoas iam ao cinema, passeavam pelo calçadão e aproveitavam para fazer um lanche nas confeitarias e cafés. Atualmente, todo mundo tem medo de passar pela XV e o movimento de meu estabelecimento cai bastante à noite”, diz. “Acho que, além de mais policiamento, deve-se fazer alguma coisa para que a rua volte a ter vida noturna.”

Divergências

Algumas pessoas têm opiniões diferentes às dos proprietários dos pontos comerciais tradicionais. É o caso do arquiteto Abrão Assad, que é autor do projeto da Rua das Flores de 1971. Ele concorda que, mesmo com as câmeras de segurança, a violência continua presente na XV. Mas acredita que esse é um problema que atinge toda a cidade e não apenas locais isolados. Para ele, a Rua das Flores vem acompanhando a evolução da sociedade nos últimos tempos. Porém, sempre foi, é e continuará sendo um dos principais atrativos de Curitiba. “Na XV, todo mundo se encontra. Ela oferece tanto joalherias chiques, que atraem pessoas de maior poder aquisitivo, quanto lojas de R$ 1,99. É o coração da cidade.”

O secretário municipal de Urbanismo, Luiz Fernando Jamur, lembra que, há cerca de dois anos, a Rua XV passou por um grande projeto de revitalização estética e estrutural, “que foi amplamente discutido com os comerciantes”. Ele afirma que as obras deram uma nova face ao local e garante que tudo o que foi feito estará passando por processos de manutenção periódicos. “Há a possibilidade de algumas coisas implantadas com o projeto de revitalização virem a se mostrar inadequadas com o decorrer do tempo. Nesse caso, estamos dispostos a sentar com os comerciantes e achar outras alternativas”, declara. “No começo de 2003, vamos iniciar, também com a participação dos lojistas, um trabalho de preservação de imóveis que deve embelezar ainda mais a rua.”

Jamur nega que não haja critérios para a concessão de alvarás. Ele esclarece que todos são fornecidos de acordo com a Lei de Zoneamento de 2000, que estabelece usos e parâmetros para cada local da cidade. Quanto à panfletagem, o secretário diz que ela é proibida segundo a lei municipal 8.471/94. Porém, cinco empresas de mídia conseguiram liminares na Justiça para realizar o serviço. “Assim, não podemos tirar as pessoas que distribuem panfletos da rua. Porém, estamos lutando para derrubar as liminares e fazer com que a lei realmente passe a valer.”

No que diz respeito aos carrinheiros, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente estabelece que eles só podem atuar após o fechamento dos estabelecimentos comerciais. Para que eles deixem de freqüentar a rua fora do horário estabelecido, a dica é que os comerciantes não coloquem o lixo para fora antes do término do expediente, evitando assim que os catadores tenham o que juntar durante o dia.

Quanto à violência, a Polícia Militar informa que, depois que as câmeras foram instaladas, os índices diminuíram. O número de ocorrências, porém, ainda é grande: 909 entre primeiro de novembro de 2000 e 31 de outubro de 2001. Antes das câmeras serem colocadas, entre primeiro de novembro de 1999 e 31 de outubro de 2000, foram notificadas 1.075 ocorrências.

Alguns preferem sem o calçadão

Cintia Végas

Para resolver parte dos problemas da Rua das Flores, algumas pessoas defendem a idéia de que o local deve se abrir novamente para o trânsito de veículos, fechado em 1971 devido à construção do calçadão.

O arquiteto e diretor do curso de arquitetura da PUCPR, Salvador Gnoato, acredita que, com a retirada dos veículos, uma série de atividades comerciais foram impedidas. “O trânsito de veículos faria com que a Rua XV tivesse outras utilidades. Além de lojas, poderiam ser abertos, por exemplo, hotéis ao longo do calçadão”, diz.

Mesma opinião tem o proprietário da loja Capital das Modas, Edmundo Tacla, que acha que o tráfego de automóveis contribuiria para que a vida noturna da rua fosse resgatada. “A passagem de carros traria mais segurança e incentivaria as pessoas a freqüentarem cafés, confeitarias e cinemas durante à noite”, afirma. “Atualmente, depois das 20h, ninguém mais circula pela Rua das Flores.”

Tanto Edmundo quanto Salvador sugerem que a abertura seja parcial, através de uma rua estreita e de baixa velocidade, parecida com a que corta a Boca Maldita. “Esse é um assunto complexo e que exige um debate amplo. Os comerciantes devem ser ouvidos e as possibilidades estudadas pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc)”, declaram.

Dificuldades

O autor do projeto de 1971 da XV, o arquiteto Abrão Assad, explica que a abertura de uma rua na Boca Maldita foi possível graças à largura do local e à necessidade demonstrada pelos proprietários de hotéis, que desejavam proporcionar conforto e segurança a seus hóspedes.

Em outras áreas da XV, Abrão diz que a abertura de ruas de trânsito lento fica complicada. “Em alguns trechos, a Rua das Flores é bastante estreita, o que impede a abertura de ruas. Acho que, para diminuir a insegurança dos freqüentadores, uma solução seria a inauguração de mais estacionamentos para veículos nas proximidades do local.”

Taxas altas causam abre e fecha de boas lojas

Cintia Végas

A falta de lojas tradicionais e o freqüente abre e fecha de estabelecimentos na Rua XV, apontados pelos comerciantes mais antigos, são justificados pelos lojistas mais novos. Além da violência, eles revelam que os altos valores cobrados pelo IPTU dificultam a permanência dos comerciantes e fazem com que muitos comecem a pensar em se mudar.

Os proprietários de pontos que não foram tombados pelo Patrimônio Histórico são os que mais sofrem e pagam caro. “Tenho uma propriedade de quase 300 metros quadrados e tenho pago cerca de R$ 12 mil de IPTU. Acho um absurdo!”, comenta o responsável pela Omar Calçados, Valdecir Batista Veloso. “A sorte é que a minha empresa é de médio porte e ainda consigo pagar o imposto. Porém, pequenos empresários sobrevivem com muitas dificuldades.”

O dono da lanchonete Mister XV, José Roberto Bresser Cueto, confirma a informação. Ele tem um estabelecimento pequeno, de 35 metros quadrados, e revela ter dificuldades para se manter. “Minha receita não é compatível com as minhas despesas”, declara. “Já cheguei a pensar em alugar o ponto, pois noto que os clientes estão se afastando cada vez mais da XV. Está muito difícil conseguir sobreviver.”

Segundo os empresários, os benefícios gerados pelo pagamento do IPTU também não são percebidos. “Falta uma série de coisas na rua. A principal delas é o policiamento. Já arrebentaram as portas de meu estabelecimento e roubaram mercadorias diversas vezes. Há alguns dias, tive notícias de que houve um arrastão na XV e fiquei perplexo. Pagamos uma nota de IPTU e não temos sequer o mínimo, que é segurança para trabalhar”, conta José.

Tabelamento

A Prefeitura de Curitiba, através de sua assessoria de imprensa, diz que o valor do IPTU na Rua das Flores segue a tabela de cálculos válida em toda a cidade. Apenas os prédios históricos, já tombados, têm descontos.

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