Gerir a Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma das mais antigas e tradicionais instituições de ensino superior do país, tornou-se um exercício diário de equilibrismo entre a escassez material e a transformação do perfil do estudante universitário. Em entrevista à Tribuna do Paraná, o reitor Marcos Sunye traça um diagnóstico sem rodeios sobre o estado da instituição: com um orçamento de custeio estagnado em R$ 200 milhões — o mesmo valor nominal de 2014 —, a universidade enfrenta gargalos severos de manutenção predial e modernização de laboratórios, enquanto tenta estancar a evasão acadêmica.

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Para contornar os problemas, a atual gestão tem apostado na diversificação de fontes de receita, na desburocratização de contratos e em uma inédita aproximação com os governos estadual e municipal. No campo acadêmico, Sunye defende mudanças estruturais profundas: a criação de diplomas intermediários e o combate à resistência de docentes em se adaptarem à realidade dos alunos que precisam trabalhar. “O foco da nossa gestão é o estudante. O mais importante da universidade é ele”, afirma o reitor.

Confira a entrevista completa:

Tribuna: Qual que é o maior gargalo que o senhor acredita que a UFPR enfrenta hoje em que a sua gestão ainda não conseguiu resolver?

Marcos Sunye: Temos vários gargalos: administrativo, científico, acadêmico. No administrativo, nós hoje não temos orçamento suficiente para fazer a manutenção do patrimonial da universidade, que tem um patrimônio imenso. São vários campi aqui em Curitiba, sete no interior. E eles são prédios que exigem manutenção permanente, elétrica, hidráulica. Nós temos um custeio hoje para fazer rodar a universidade, ele é o mesmo que 2014, em torno de R$ 200 milhões. Isso é claramente insuficiente. Essa ausência de recurso para manutenção predial, renovação dos equipamentos, renovação de contrato, é um dos grandes desafios. Estamos enfrentando isso com a diversificação das fontes de renda. Continuamos insistindo que o governo federal tem que aumentar o orçamento, no mínimo, de acordo com a inflação, mas também a gente está procurando investimento na iniciativa privada, parcerias com o governo estadual, com o governo municipal, para diversificar essa entrada. Estamos conseguindo fazer algumas ações. Se não fosse assim, não conseguiríamos.

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Tribuna: A burocracia universitária é frequentemente apontada como um freio para a inovação. O que foi desburocratizado de fato na sua gestão? 

Marcos Sunye: Entramos na gestão criando uma comissão de desburocratização, porque nós tínhamos essa mesma leitura, de que a burocracia, a demora na assinatura de convênios, principalmente, afastava investimentos. Um dos grandes ganhos reais da nossa gestão é a desburocratização dos convênios e contratos da universidade, que rege toda a nossa relação comercial, com os vários entes que trabalham em parceria com a universidade. Depois, estamos trabalhando também na desburocratização acadêmica, facilitando criação e atualização dos cursos.

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Temos um projeto da nossa pró-reitoria de graduação para tentar facilitar a saída de diplomas intermediários. Na França, por exemplo, é muito comum o estudante poder fazer 2 anos e sair com um diploma técnico. Ele faz três anos, sai com um segundo diploma. Ele faz quatro, ele faz um outro diploma. Ele faz cinco e segue um outro diploma. Então, à medida que ele vai sentindo necessidade ou porque encontrou um emprego bom, ele já sai com diploma. Aqui no Brasil temos aquela tendência de faz tudo ou não tem nada. E não é verdade, porque o aluno já fez várias disciplinas, mesmo que ele não vá trabalhar no domínio, ele está fazendo curso. Se ele sair com o curso de técnico é uma coisa bacana e que vai ajudar na vida profissional dele. Fizemos propostas, inclusive na Secretaria Superior do MEC [Ministério da Educação], porque isso envolve também o Conselho Nacional de Educação É uma vontade nossa que nos estamos apontando, até porque essa burocracia de como se forma é a causa dos nossos principais problemas, a evasão.

Estamos com um painel de evasão que criamos, que está funcionando muito bem para apoiar os coordenadores de curso. E esse painel ajuda o coordenador a ver qual conjunto de alunos dele tem um risco maior de evadir, porque eles têm um padrão de comportamento. Temos uma equipe de estatística que trabalha só com análise de dados, inteligência artificial. Eles fazem esses modelos de previsão, então conseguimos prever com uma certa precisão qual é o grupo dentro de cada curso que está mais sujeito a evasão. O coordenador pode atuar naquele grupo para tentar melhorar, ver o que está precisando.

Tribuna: Qual o índice de evasão da Universidade Federal do Paraná hoje? 

Marcos Sunye: A universidade tem um estudo do Tribunal de Contas da União que saiu ano passado e está causando muito impacto em todas as universidades. Ele mostra que o índice de ocupação das universidades federais girava em torno de 93, 94% e hoje está em 81%. Esses 10% é muito.

A Universidade Federal do Paraná está em 85%, 86%. Estamos trabalhando o combate à evasão. O outro problema é a gradual diminuição da entrada de candidatos no vestibular, que foi diminuindo até 2025 e desde 2025 nós fizemos toda uma uma mudança, criamos uma feira chamada Universo UFPR na Expo Barigui. Antes, a universidade fazia feira de cursos nos próprios campi dela, então colocamos a universidade para fora. Fizemos uma feira linda no Barigui. Resultado: em 2025 já nós tivemos 7% a mais inscritos. Agora estamos na expectativa que que 2026 continue subindo. A universidade, ela não pode ficar parada esperando que as pessoas tenham uma visão de universidade como única alternativa, como era nos anos 1980.

Tribuna: Onde estão as políticas de retenção?

Marcos Sunye: É um trabalho que tem se feito pelo coordenador do curso. Ele que está ali na frente de batalha, conhece os alunos dele, os problemas das disciplinas que reprovam mais, os alunos que precisam trabalhar. Esse também é um trabalho que a gente está tentando fazer, de facilitar a vida do estudante. O foco da nossa gestão é o estudante. Eu bani aquela frase ‘ele que decide se ele quer trabalhar ou quer estudar’, porque o perfil do nosso estudante mudou muito. Tem muito estudante que precisa trabalhar, temos que proteger esses estudantes. Tem aquele professor que em o pensamento ‘eu dou aula que eu quero na hora que eu quero, do jeito que eu quero’, estamos tentando mudar isso. O aluno que falta muitas vezes não é porque está com preguiça, está trabalhando.

Tribuna: Como o senhor avalia a atual gestão da estrutura física dos campi? Há prédios históricos que a gente sabe que estão precisando de restauro e alguns laboratórios estão defasados. Qual é a prioridade hoje? 

Marcos Sunye: A universidade tem que captar bons cientistas, bons pesquisadores, que captam cada vez mais recursos. O que acontece na prática? Você vai ter um laboratório que adquire um equipamento de R$ 5 bilhões que exige infraestrutura elétrica maior, às vezes infraestrutura hidráulica melhor, reforma, isolamento acústico, etc, e nós não temos dinheiro. O dinheiro que aumenta com a pesquisa, ele consome. Em geral, nos projetos de pesquisa, como Finep, CNPq, CAPES, nós ganhamos o equipamento e contrapartida da universidade é a infraestrutura. Essa contrapartida é talvez mais curta.

Isso é uma coisa difícil de gerenciar. Estamos priorizando os espaços de pesquisa. Temos investido também no tele trabalho para economizar espaço. Toda a parte financeira, administrativa, obviamente que não a acadêmica, mas toda a parte administrativa, principalmente financeira, ela hoje é feita online. A pró-reitoria de administração agora ela está 100% em tele trabalho. Está é uma estratégia que está funcionando. 

Tribuna: As queixas da precarização do trabalho técnico-administrativo têm sido recorrentes. Como motivar a comunidade acadêmica com as restrições orçamentárias? 

Marcos Sunye: A carreira dos técnicos administrativos, dentro do Executivo Federal, é carente de mais incentivo. Temos apoiado de duas maneiras: uma é ampliar o escopo de ação dos técnicos administrativos. Na nossa gestão, autorizamos o técnico administrativo a coordenar projetos de extensão, a orientar a bolsa de extensão, a receber bolsa. Um técnico administrativo que é muito produtivo consegue entrar no projeto de pesquisa e garantir uma bolsa.

Às vezes atuar na gestão administrativa do projeto, ele recebe um complemento salarial. Isso é uma forma de incentivar o estudante, ou duas formas, uma é pagando e a outra ampliando a área de atuação. Temos técnicos administrativos que tem projetos maravilhosos no Litoral, nas ilhas, em Paranaguá. Antes eles não podiam orientar, precisava de um professor. Está funcionando muito bem. Nós não vamos parar nunca de lutar por uma carreira melhor para eles.

Tribuna: Qual é a relação do governo de vocês com o governo federal? A autonomia da universidade está garantida ou existe ainda uma dependência do humor político do governo federal que ainda dita os rumos da universidade? 

Marcos Sunye: A universidade depende completamente do governo federal para o seu financiamento. Todo seu custeio vem do governo federal, ele que mantém a universidade. A questão da autonomia está na Constituição, mas nunca foi regulamentada. Ou seja, não existe maioria orgânica nas universidades. Então, se não tem maioria orgânica, não tem uma regulamentação.

Governos passados não respeitaram a eleição. A universidade, um dos pilares da autonomia, tem uma eleição por pares do reitor e isso era feito até o ano passado, por uma lista tríplice. Agora, a nova lei eleitoral para as universidades garante que o reitor eleito seja nomeado pelo presidente da República. Isso era um problema 3 anos atrás, 4 anos atrás. A comunidade exigia uma pessoa e o presidente nomeava outra. Eu vejo muito a autonomia como equilíbrio. A universidade depende do governo, ela trabalha para entregar soluções para a sociedade e ela funciona com a sua comunidade interna. Você tem que manter sempre o equilíbrio, não pode fazer uma gestão demasiado para a comunidade interna, não pode fazer só o que o governo quer, senão a universidade vira arma de politicagem direta. Tem que ter uma independência, tanto estatal quanto de gestão própria. Tentamos manter essa autonomia. Você nunca fica muito longe da sociedade, sempre deve tudo para ela, mas você não pode ser refém.

Tribuna: O atual Ministério da Educação tem cumprido as promessas de recomposição orçamentária ou o avanço é mais retórico do que financeiro?

Marcos Sunye: É um avanço retórico, no ponto de vista do orçamento do custeio. Existem duas maneiras de orçamento da universidade, um que inclui as despesas obrigatórias, todos os salários, os aposentados, e orçamento da universidade, que vai para R$ 2,3 bilhões. Se for olhar só o orçamento total da universidade, ele aumenta todo ano, está expandindo. Se você cortar o que é despesa obrigatória, eu digo que ele está invariável desde 2014 em números absolutos. Ou seja, hoje a gente tem recurso disponível de custeio discricionário metade do que tinha em 2014. E essa talvez se for olhar os números, você vai ver que nos últimos governos era meio linear, essa perda. A minha resposta seria que não, ele não está mantendo o orçamento desde 2014. Tem ano que mantém ali a inflação, depois cai, depois mantém, difícil.

Tribuna: Como que a universidade tem se posicionado com as novas diretrizes do governo federal, de ensino superior e de pós-graduação? 

Marcos Sunye: Por exemplo, de graduação, recentemente o ministério fez uma expansão direcionada a cursos de Inteligência Artificial. Não entramos muito nessa, várias universidades não entraram. Eu acredito que é uma política atrasada, não é o momento. Agora, temos duas maneiras de encarar a inteligência artificial. Ela como uma parte da ciência da computação, para criar modelos de inteligência artificial. Isso é muito importante, o país precisa disso. E você tem uma outra, que é como que eu uso a IA que já está aí, que é uma outra questão de como é o desafio do ensino. Isso é uma coisa de usuário, de treinamento. 

Por exemplo, você é jornalista, estudou quatro anos de jornalismo. Se você pegar uma IA que vai te dar dicas sobre uma entrevista ou resumo de um determinado assunto, você tem discernimento para saber onde ela está delirando, alucinando. Agora imagine uma geração que aprendeu já da IA. Ela não vai ter esse discernimento. Outro dia, estava falando com o pessoal da medicina. Eles vão ver o diagnóstico de uma IA, de uma determinada patologia, e eles sabem o que está errado. Acho que isso é um grande desafio que tem que ser pensado. Você tem que manter o aprendizado. Eu acho que, no plano brasileiro de IA, de uma forma geral, o governo está bem atrasado. A IA já está consolidada, aberta, e o Brasil decide fazer um plano. As universidades são um potencial imenso. Imagina o governo com 69 universidades na mão dele. Eu não vejo usar esse potencial das universidades em conjunto.

Tribuna: A relação da UFPR com o governo do Paraná foi historicamente morna. O que impede uma parceria mais agressiva em projetos de desenvolvimento daqui da região, do nosso estado? 

Marcos Sunye: Temos muita parceria, em vários aspectos. A Universidade Federal do Paraná é a maior universidade do Estado. Principalmente se a gente for olhar para a pós-graduação e produção científica. Os números são bem claros em favor da universidade. 

Toda vez que uma Fundação Araucária faz um edital, a chance de algum pesquisador da universidade ganhar esse edital é sempre grande. Hoje, um terço dos editais da Fundação Araucária, a Universidade Federal do Paraná ganha. Depois tem a relação com a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Ela é mantenedora, assim como a SESU (Secretaria de Educação Superior), o MEC (Ministério da Educação), da Federal do Paraná. A SEED (Secretaria de Estado da Educação) é mantenedora das estaduais, do salário, do dinheiro de pesquisa. Então, é compreensível que a maior prioridade da SEED seja as universidades estaduais. E o Paraná tem universidades maravilhosas, que é um patrimônio do estado e que tem que ser mantido. Ninguém é contra que a SEED continue incentivando e mantendo as universidades estaduais. Paralelo a isso, temos feito projetos diretos com a SEED. Gostaria muito de ter feito mais, mas a gente tem conseguido fazer, tem alguma ajuda, alguns projetos no litoral funcionando com financiamento direto da SEED. A Secretaria de Ciência e Tecnologia liberou um recurso para nós, para a infraestrutura, para atenuar um pouco esse problema que nós temos de orçamentário de infraestrutura de laboratório de pesquisa. Então, algumas coisas funcionam.

Quando se compara os números com as estaduais, são menores em função do volume da universidade. Nós fizemos uma segunda iniciativa, que é a criação do Forips, Fórum dos Dirigentes das Instituições Públicas de Ensino Superior do Paraná. Reúne todas as estaduais, nós assinamos faz um mês. E as federais que estão no Paraná, que é a Unila, a UTFPR, a UFPR, o IFPR e a Universidade Federal da Fronteira Sul, que tem um campus no Paraná, estamos tentando criar políticas em comum. Uma ideia que surgiu nessa primeira reunião é, por exemplo, ter um estatuto. Seria uma carteirinha de aluno de instituição pública paranaense. Com isso, ele poderia comer em qualquer RU (restaurante universitário), porque isso acontece muito.

Hoje, temos uma parceria com a UTFPR ali no Campus Rebouças. Os nossos alunos comem no restaurante universitário da UTFPR. Poderíamos ter uma relação não só com RU, mas com transporte também. Às vezes os estudantes precisam de um ônibus para ir para um congresso. O nosso ônibus vai com 20, mas passa em Londrina, pega mais 15 da UEL e leva. Nós fazemos isso informalmente, mas poderia fazer de uma maneira mais organizada. As estaduais são muito parceiras nossas. Somos mais próximos das estaduais públicas do que das outras universidades federais. Temos total interesse em estar cooperando com eles. 

Tribuna: O programa de cotas da universidade tem dialogado com a realidade do ensino médio e com a rede estadual? 

Marcos Sunye: Avaliamos constantemente as cotas, até agora essa equipe de estatística tem trabalhado na relação entre cota e evasão, cota e permanência. O que nós temos observado ao longo desses anos é que não tem muita diferença entre quem entra por cota e quem entra pela ampla concorrência. O percentual de formados é muito parecido, em torno de 72%, 73%. Nesse sentido, não há diferença. Logo, dá para dizer que a política de cotas cumpre seu objetivo.

Tribuna: Recentemente a universidade incluiu uma nova política com cotas para as pessoas trans. A universidade está estruturada para garantir a segurança e o respeito a essa população nos campi? Não corre o risco de uma política pública como essa, virar apenas uma vitrine institucional?

Marcos Sunye: Isso já implica em desenvolvimento de uma infraestrutura, vários campi tem banheiros trans. A infraestrutura já existe, acolhimento, apoio psicológico. São 69 universidades, nós somos a quadragésima a implantar as cotas trans. Fomos dentro da segurança, do que está sendo feito nas outras universidades, tanto no percentual, como na criação de vagas. A nova política foi aprovada agora, então não é para esse vestibular. É só para o vestibular de 2027, para entrada em 2028. A partir de 2028 que a gente vai receber a população oriunda de cotas.

Tribuna: Sobre a presença da UFPR no interior do estado. É sustentável no longo prazo ou gera uma certa dispersão de recursos? 

Marcos Sunye: Sempre que se abre um curso no interior, ele deve ser acompanhado de um estudo de procura dos cursos, da demanda local. Tivemos historicamente um caso de muito sucesso, que é a Palotina. Palotina foi aberta nos anos 1980, 1990. Foi aberto com medicina veterinária, agronomia, que são cursos muito demandados ali. Temos o campus de Toledo, com curso recente de medicina. Temos o Centro do Mar, que sempre teve um curso muito tradicional de oceanografia. É óbvio que se eu tiver um campus lá em Palotina, só de transporte e de duplicação de teto, engenheiro, gente para trabalhar, eu vou ter um um gasto maior. Por isso tem que ser muito bem pensado. O campus de Jandaia, por exemplo, conseguimos negociar, tem sido apoiado pelo governo estadual também. Ele é um dos mais jovens, pouco a pouco está se firmando. 

Tribuna: Com relação à relevância social e inovação da universidade, a UFPR produz muita ciência, mas quanto disso se reverte em patentes e produtos que impactam o mercado do Estado? 

Marcos Sunye: A universidade tem um número de patentes razoável dentro do que é comparado com as outras grandes universidades brasileiras. Não há um exemplo de patente que represente um volume de recursos significativo. Isso nunca aconteceu. Não temos muita expectativa de ter recurso por patentes. Até pelo jeito que funcionam as patentes no Brasil, é uma coisa mais difícil de acontecer. Tem outros países que isso acontece com uma melhor sistemática. Um exemplo é Israel, que consegue muito dinheiro de patentes. Os Estados Unidos têm muito disso. Aqui acontece bem menos, acho que talvez pela cultura brasileira mesmo. A presença da universidade melhora muito para o empresariado. Às vezes a implantação de uma nova indústria precisa de uma cooperação da universidade trabalhando direcionada. Na Renault, na indústria automobilística, isso acontece diretamente. Eu acho que cumprimos bem o papel como formadora de tecnologia.

Tribuna: Há quem critique a universidade por estar distante das dores reais da periferia de Curitiba. Como que vocês conseguem romper essa bolha? 

Marcos Sunye: Eu acho que é verdade, tem muito do encastelamento da universidade, um pouco porque é constituída em formar elite, mas não tem nada de elite nisso. A nossa situação é bem outra, é formar a população em geral e para isso ela tem que se abrir. Então, a própria Feira Universo UFPR, conseguimos trazer 600 escolas públicas da região para feira. Foram 120 mil pessoas em 2025 e 100 mil pessoas em 2026. Esses são os maiores eventos da história do pavilhão do Parque Barigui. Isso mostra assim uma abertura total. A gente tirou a universidade de dentro dos muros e jogou para o Parque Barigui, com o endereço bem curitibano. Chamamos todas as escolas de ensino médio público da região, todas vieram. Isso é um orgulho muito grande na nossa gestão, de ter feito essa abertura e de desencastelar a universidade. 

Tribuna: A liberdade de expressão e o debate político nos campi da universidade estão saudáveis ou ainda existe uma polarização que acabou silenciando o contraditório? 

Marcos Sunye: Eu acho que as discussões sempre foram saudáveis. A universidade é um lugar de debate. O método científico, ele é contraditório, até mesmo aqui da síntese da discussão. Se a universidade não tiver tolerância, ela não é universidade. Não existe avanço científico sem crítica. Toda nova proposição teórica que você faz, você tem que estar aberto para ir no primeiro congresso e alguém tentar destruir seu trabalho completamente. Dizer que a tua fórmula não funciona, que teus dados estão errados, que você coletou tudo errado, que nada do que você está dizendo é verdade. E você tem que saber enfrentar isso e você tem que saber contrapor. Se nós perdermos isso, a tolerância em relação à opinião contrária nossa, vamos deixar de ser universidade.

Tribuna: Sobre o caso da estudante de medicina que foi alvo de assédio. Como foi a resposta da universidade? Foi rápida e punitiva o suficiente? Ou ainda vocês sofreram uma certa burocracia, que acabou protegendo de certa forma os agressores? 

Marcos Sunye: Nesse caso, a reação foi tão imediata que ela durou 15 minutos. Ela própria agradeceu depois a velocidade como a universidade atendeu. Houve uma mensagem no WhatsApp, numa linguagem bem violenta, dizendo que sabia onde ela estava. A pessoa que mandou não foi comprovado que era estudante da universidade. Então, o que fazemos nesses casos? Acolhemos e orientamos a vítima. Abre um processo administrativo imediatamente, uma investigação interna, e ao mesmo tempo uma denúncia, porque como é uma ameaça à segurança dela. Quem tem que investigar isso é a Polícia Civil ou a Polícia Militar, dependendo do tipo de natureza do evento. Comunicamos imediatamente, mas não deixamos de abrir uma investigação internamente. O atendimento é sempre imediato e os canais de acolhimento, principalmente, tem funcionado muito bem. Agora, as pessoas às vezes elas ficam ansiosas porque querem que alguém seja punido. Nesse caso, não foi além dessa mensagem. A Polícia Civil, pelo menos, não comunicou se encontrou quem era o autor.

Tribuna: As greves e paralisações são direitos de protesto dos colaboradores, mas que acabam cobrando um preço dos estudantes. Qual que é o limite da mediação da reitoria entre os sindicatos e o calendário acadêmico? 

Marcos Sunye: Em geral, a greve na universidade varia muito: se é greve somente de técnicos, de técnicos e professores, greve de técnicos, de professores e alunos. Dependendo da adesão, é possível manter o calendário universitário. Tentamos sempre trabalhar com o sindicato, para não prejudicar o andamento das aulas. Se o comando de greve é constituído, a universidade passa toda a greve negociando, vendo o que é possível fazer, cuidando que os números mínimos em cada sessão seja respeitado para tentar diminuir ao máximo o prejuízo.

Tribuna: Quais foram os principais pontos de fricção entre as decisões da reitoria e o pessoal do Diretório Central dos Estudantes, o DCE? 

Marcos Sunye: Estamos negociando novos espaços para os estudantes. Uma das razões da evasão também é a falta de local de permanência. Estamos tentando expandir isso, com mais área de convivência, tornar o Politécnico e o campus da Reitoria mais acolhedores para as pessoas passarem o dia. A relação com os estudantes ficou mais mais fácil com a plataforma Participa que implantamos. Toda vez que você tem um orçamento que envolve direto a comunidade, por exemplo, uma reforma, uma melhoria, uma praça, uma área de convivência, você consulta a comunidade. E aí a comunidade tem direito de propor projetos. Na praça da Reitoria, vamos colocar uma pista de skate, plantas originárias, árvore frutífera. Cada um faz um projeto viável dentro do orçamento e a comunidade vota. Nós tivemos 130 projetos feitos por estudantes para os vários campi da universidade. São projetos que a gente nunca imaginaria como gestão, que era uma demanda deles. O projeto mais mais votado foi a distribuição gratuita de absorvente íntimo feminino dentro dos campi. Coisas que você não espera e que às vezes está dentro do orçamento da universidade para fazer. E isso está funcionando super bem.

Tribuna: Qual é a marca que o senhor quer deixar como legado da sua gestão para a história da Universidade Federal do Paraná? 

Marcos Sunye: É cedo ainda, porque falta dois anos e meio. Tem muita coisa para ser feita. Eu sairia satisfeito se eu tivesse pelo menos mudado o foco da universidade para atender melhor os estudantes, para ter essa cultura. Cada vez que alguém vai abrir um curso novo, que ele pense: qual que é o espaço dos estudantes nesse curso? Se abre um curso na universidade, se define o corpo docente, os técnicos que vão atuar, o número de vagas e o horário do curso. Ninguém diz assim, qual vai ser o espaço dos estudantes? Como que eu vou facilitar a entrada, qual o horário melhor para o estudante. Se eu conseguir trazer esse foco para os estudantes, eu já saio feliz daqui. 

Tribuna: Se o senhor pudesse mudar uma única lei federal que rege as universidades para facilitar sua gestão, qual seria? 

Marcos Sunye: Eu voltaria atrás na PEC do Temer, que desvinculou o orçamento constitucional a um percentual fixo da educação, porque aquela queda que eu falei para você que acontece desde 2014 é exatamente por isso. O orçamento da saúde não está caindo porque está vinculado à Constituição. Então, eu acho que eu revincularia o gasto em educação porque é o futuro do país. 

Tribuna: Qual a pergunta que a comunidade acadêmica costuma fazer o senhor todos os dias? E qual o senhor ainda não tem uma resposta definitiva? 

Marcos Sunye: ‘Cadê a reforma do meu laboratório?’ É uma pergunta que a comunidade faz o tempo todo. Eu acho que hoje em dia a comunidade, os anseios dela, é essa questão da infraestrutura, porque vemos as coisas ficando velhas. Então, isso angustia muito os professores. A evasão angustia muito. Isso é um pesadelo. Eu espero que seja um pesadelo para todos, porque a gente existe para isso. A evasão é uma preocupação muito grande. O foco é o estudante. O mais importante da universidade é o estudante.