Há pouco mais de duas décadas, mais precisamente em 2002, o recém-eleito deputado Estadual Ratinho Junior disse que seu sonho mesmo era ser governador do Paraná. Hoje, prestes a entregar o cargo após dois mandatos, ele faz um balanço de sua passagem pelo Palácio Iguaçu e revela se a presidência do Brasil é ou não o seu novo e maior objetivo.

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Em entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, o governador avalia o cumprimento de suas metas de gestão, a consolidação de um grupo político próprio e defende a necessidade de um planejamento de longo prazo para a administração pública e para a infraestrutura do estado.

Durante a sabatina, o chefe do Executivo destaca as ações que levaram o Paraná ao topo do índice do Ideb nacional, abordando programas de gestão escolar, valorização do aprendizado, expansão das colégios cívico-militares e a implementação de modelos bilíngues.

O governador também detalha o pacote de obras logísticas de R$ 70 bilhões em concessões rodoviárias, melhorias aeroportuárias e ampliação da capacidade ferroviária e de mobilidade urbana, com destaque para o projeto do VLT entre o aeroporto Afonso Pena e o Centro Cívico de Curitiba.

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No campo político, Ratinho Junior explica os bastidores da construção da chapa de sucessão encabeçada por Sandro Alex, rebatendo críticas da oposição e reforçando seu compromisso em combater informações falsas no debate eleitoral. Por fim, o governador reflete sobre sua projeção nacional, analisando a polarização do país e deixando abertas as possibilidades para sua atuação política no cenário federal nos próximos anos.

A entrevista foi realizada pelo coordenador de conteúdo Eduardo Luiz Klisiewicz e pelo chefe de redação da Tribuna Jones Rossi. Confira a seguir:

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Tribuna do Paraná: Logo após sua primeira eleição, em 2002, o senhor disse que tinha o sonho de ser governador do Paraná e iria se preparar. Que avaliação dá para fazer depois de 24 anos daquela entrevista e após dois mandatos?

Ratinho Junior: Desde a minha primeira eleição como deputado estadual, em todas as reuniões eu falava isso. Eu dizia que estava me apresentando na política para ser deputado, mas que meu projeto era chegar ao governo do estado. E pedir o voto de confiança para isso. Talvez tenha parecido um pouco audacioso, mas na verdade eu entendia que era necessário construir um novo grupo político no Paraná. Tivemos bons governadores, mas era necessário ter uma oxigenação e eu, como era novo, começando na vida pública, tinha essa oportunidade de construir isso e me preparar. Tive a oportunidade de ser deputado estadual, depois federal, quando fui líder de bancada no Congresso, o que é um negócio muito difícil e tem um peso muito grande. Eu era o líder de bancada mais novo do Congresso. Tive um conselho muito valioso na época dado pelo Ademir Adur, que hoje trabalha comigo e é meu padrinho político, que eu nunca esqueci. Ele disse que poucos ali (na Assembleia) tinham condições de um dia serem governadores, mas que eu tinha que me preparar e viajar o mundo para entender o que tem de certo e errado. Fui a países muito pobres, países que deram certo economicamente, e rodei muito o Paraná. Foi aí que decidi me apresentar como candidato, pois sabia do que o Paraná precisava. Acho que conseguimos implantar quase que na totalidade tudo aquilo que eu imaginava.

Tribuna do Paraná: Seu pai foi deputado, mas decidiu abandonar a política por entender que não podia fazer nada do que pensava. Como o senhor saiu de um lar onde o pai desacreditava da política para ser governador?

Ratinho Junior: Meu pai sempre gostou muito de política. Trabalhar na comunicação popular acaba te empurrando para isso. Ele foi vereador aqui de Curitiba, depois deputado e realmente não gostou. Ele mesmo fala que não foi um bom deputado, ele não tem paciência para isso. O Parlamento é lento. Quando decidi ser político, ele foi contra. Minha mãe foi contra e minha família também. O pai estava no início da sua ascensão nacional e achava que a vida pública tomaria muito do meu tempo, mas decidi que deveria seguir com isso por gratidão a tudo que o Paraná fez pela minha família, em especial ao meu pai. Foi o Paraná que o projetou para o Brasil.

Tribuna do Paraná: Temos uma nova geração de políticos que me parecem ter caído de paraquedas em seus cargos. Pouco preparo e conhecimento de gestão. O senhor acredita que deveria existir uma profissionalização dos políticos, com foco em eficiência de gestão?

Ratinho Junior: Vivemos uma mudança cultural que não é simples, né? Eu acho que eu tenho um papel inclusive de colaborar com essa mudança cultural por fazer parte de uma nova safra da política do Paraná e do Brasil, mas realmente hoje parece que não se tem uma preocupação efetiva para os candidatos para poder pegar cargos, em especial cargos executivos. Eu acho que os partidos podem ter um trabalho em cima disso, como uma escola de política. O PSD até faz algo parecido, talvez não com a efetividade necessária. Eu acho que é necessário esse treinamento para que se tenha uma visão macro das coisas, de planejamento. Se você analisar os gestores públicos brasileiros de um modo geral, eles geralmente fazem o que dá nos 4 anos de mandato e o próximo que se vire. Não temos planejamento de médio a longo prazo para o Estado e isso é muito ruim. Nenhuma nação, nenhuma região muda em 4 anos. Você pode avançar, mas a transformação mesmo acontece a longo prazo. Aprendi isso numa das viagens que fiz para a China. Eu sou muito admirador dos asiáticos — China, Coreia do Sul, Japão — pelas coisas que fizeram a longo prazo. Fui para a China conhecer a política para idosos, por exemplo, em 2014. Eles tinham um planejamento para 2050. Eles vão ter meio bilhão de idosos e já estão pensando em como dar saúde e segurança alimentar para eles. São 30 ou 40 anos de planejamento.

Qualquer país do mundo que dê um salto no seu desenvolvimento social e econômico fez um planejamento a longo prazo. A Alemanha fez isso se especializando em engenharia. A Coreia do Sul fez isso se especializando em tecnologia. Os próprios Estados Unidos são um país que tem um trabalho de planejamento a longo prazo. Mas o Brasil não. Então é o que eu tenho buscado fazer aqui como governador. Consolidamos o Paraná como o supermercado do mundo, já que temos vocação agrícola. Mas agora estamos industrializando tudo aquilo que nós produzimos, porque antes a gente colocava no navio e mandava para fora sem transformar esse produto aqui dentro. Estamos consolidando o Paraná como uma central logística da América do Sul, porque geograficamente nós estamos no centro de 70% do PIB da América do Sul num raio geográfico de 1.500 km. Isso deixa um legado a longo prazo para os próximos gestores. Por isso estive sempre perto dos prefeitos. Avançamos muito.

Ratinho Junior encerra seu segundo mandato como governador. Foto: Jonathan Campos / SECOM

Tribuna do Paraná: Qual avanço o senhor destacaria com mais orgulho?

Ratinho Junior: Nós arrasamos no Ideb. Nós conseguimos ser primeiro lugar em tudo. Pela primeira vez na história do país, um estado conseguiu ser primeiro em todas as categorias da qualidade da educação. Até no ensino fundamental, que não é nossa responsabilidade. Mas o que eu fiz lá atrás foi criar um projeto chamado Educa Juntos, porque não adianta o prefeito educar bem se o aluno chegar ao Ensino Médio mal. E vice-versa. Fizemos um planejamento em conjunto.

Tribuna do Paraná: No resultado do Ideb, a cidade de Grandes Rios teve a melhor nota do Paraná no Ensino Médio e a pior do Ensino Fundamental. Então tem algo errado ali. Como que vocês pretendem, por exemplo, encarar casos como esse, para que daqui a dois anos a cidade de Grandes Rios melhore no básico, mesmo não sendo responsabilidade do governo?

Ratinho Junior: De forma geral, não é só uma cidade que tem nota ruim. A gente já faz isso com todos os municípios. A gente está reforçando tutorias com os professores da rede municipal. A gente pega nossos tutores, que já fazem um trabalho de melhoria de performance para os nossos professores, e faz isso também com os municípios. Outra coisa: estamos fazendo um trabalho de convencimento junto aos prefeitos de que secretário de Educação não pode ser indicação política. Tem que ser o melhor técnico dos quadros. Se não tiver na cidade, que seja de fora. Não dá para colocar um ‘amigo meu que ajudou na eleição’. Então é um trabalho de mudança cultural, na tomada de decisões na montagem da equipe, por exemplo. Estamos ajudando na preparação do material didático das escolas. Escrevemos nosso próprio material. Ele foi melhorado com o tempo. Os professores foram treinados. Os diretores precisam assistir às aulas para saber que o professor está tendo um bom desempenho também. Tirei as indicações políticas para chefias de núcleo. Agora é uma seleção diferente, com prova e entrevistas. Qualificamos os quadros para tomadas de decisões. Compramos computadores, fazemos aulas gamificadas e mais atrativas. É um processo.

Tribuna do Paraná: Quais são os gargalos principais da educação hoje que o senhor enxerga que precisam ser resolvidos?

Ratinho Junior: São etapas em que temos de avançar. Por isso fizemos o Programa Parceiro da Escola. Ele é muito bom e está indo super bem. Não é uma invenção nossa. O Canadá faz isso, a Inglaterra faz. Temos uma instituição que faz toda a gestão da escola, enquanto o diretor foca o seu trabalho na educação. Ele não precisa chamar encanador, trocar lâmpada. Ele cuida só da parte pedagógica, que é o importante. No programa, todos os professores são do Estado, mas se faltar um professor, eles têm o prazo de 24 horas para encontrar um substituto. Problemas acontecem, a gente sabe, mas agora os alunos não precisam ficar quatro ou cinco dias sem professores por conta de um problema de saúde ou emergência. Tínhamos muitos problemas de faltas e até abuso de atestados médicos. Isso mudou. Chegava a ter 25% do quadro faltante em algumas escolas e momentos. Isso era uma loucura.

Tribuna do Paraná: A APP-Sindicato não quis colocar em negociação coletiva um dispositivo que vinculasse salário com presença em sala de aula…

Ratinho Junior: Eles são contra tudo que o Estado tenta fazer. É um negócio louco, mas hoje eles não têm mais força. Perderam força porque a grande maioria deles é daqueles que são dedicados, que têm missão de vida e que não fazem da profissão um instrumento ideológico. São uns 90%. Eles entenderam que nós estamos no caminho certo. Hoje eles vibram com as ideias e estão sentindo que realmente o Estado está buscando acertar e que as transformações que nós fizemos melhoraram a qualidade da aula. Hoje o professor não tem que ficar perdendo tempo montando a aula. Ele pega o aplicativo e planeja a semana. Antes eles diziam gastar 35% do tempo para ficar preparando aula e hoje não tem isso. Eles têm o direito de ter o descanso deles. A aula vem pronta, com sugestões de imagens e vídeos para usar. Então isso mudou muito. A gente facilitou tirando um pouco de carga das costas do professor.

Tribuna do Paraná: Tem uma coisa muito “paranaense”, que é afirmar: ‘Professor não vota em fulano, professor não vota em ciclano”. Hoje o senhor acredita que o professor vota no Ratinho Junior?

Ratinho Junior: Eu acho que sim. Na verdade, eu tenho certeza. Talvez não a totalidade, mas hoje o meio educacional me respeita porque sabe quem se dedicou para melhorar o trabalho deles e também para melhorar a educação do Paraná. Eu fui comemorar o resultado do Ideb lá na Secretaria de Educação com todos os funcionários. Quando você vê isso, com todos vibrando, professor chorando… foi emocionante. A gente tirou essa questão ideológica de dentro da secretaria e eles estão acompanhando isso. Mas a educação é um organismo vivo, que está sempre avançando. A gente tinha também um problema estrutural, mas já gastamos quase R$ 4 bilhões em reformas e novas escolas. Criamos um programa chamado Escola Mais Bonita, que põe o dinheiro na mão do diretor para ele fazer o que precisa. Até R$ 130 mil. Antes o pedido tinha que ir para a Fundepar, alguém ia fazer vistoria, era burocrático. Hoje, se tem de trocar um telhado, faz três orçamentos e pronto. A lei permite isso e ficou tudo mais ágil. Liberei agora mais R$ 50 milhões para escolas reforçarem os telhados por causa do El Niño.

Agora a gente está conseguindo avançar muito rápido com esse programa Escola Mais Bonita, e agora fizemos uma PPP com 49 escolas, a maior do Brasil, com um investimento de R$ 8 bilhões, com a primeira inaugurando em julho do ano que vem. E são escolas grandes, para 1.500, 1.800, 2.500 alunos, em cidades grandes, com crescimento populacional.

E agora vem a terceira fase, que são as escolas bilíngues. Esse é um salto que nós vamos ter agora, com a primeira em Piraquara, agora em setembro. A gente está chamando de Escola do Futuro.

Tribuna do Paraná: Ainda sobre o Ideb, alguns especialistas dizem que não é uma avaliação tão confiável para medir realmente a qualidade da educação. Que outros mecanismos vocês utilizam?

Ratinho Junior: Temos avaliações internas como a Prova Paraná, que a cada 60 dias tem uma prova para um milhão de alunos. É uma métrica inspirada no modelo Pisa (Nota da edição: O Programa Internacional de Avaliação de Alunos é um modelo de avaliação internacional criado pela OCDE em 2000 para medir se os jovens possuem as habilidades e competências de pensamento crítico necessárias para a vida adulta). Melhoramos muito em redação também. E o Ideb é a métrica que o Governo Federal usa. Agora a gente quer fazer um Pisa no Paraná. Somos um estado que está trabalhando para sermos eleitos para este tipo de avaliação aqui.

Tribuna do Paraná: Gostaríamos que o senhor falasse mais sobre as escolas bilíngues. Qual é o planejamento, estrutura, currículo, tamanho, metodologia…

Ratinho Junior: Serão as escolas mais modernas. A gente está pegando essas escolas novas. O que está acontecendo… as pessoas estão envelhecendo. Temos escolas com mais funcionários que alunos. Tem escola com 30 alunos. Não vamos fechar escolas, mas vamos transformá-las. Não compensa com tão poucos alunos. Estamos fazendo escolas mais robustas, maiores e com mais estrutura, para pegar esses alunos e transferi-los, com mais conforto, modernização, laboratórios.

Tribuna do Paraná: O senhor disse que há uma defasagem de diretores disciplinares nos colégios cívico-militares e que vai criar uma nova lei para acabar com isso. Como resolver essa questão?

Ratinho Junior: É basicamente a mesma lei, mas nós vamos mudar o prazo. Hoje o policial se aposenta e só pode entrar no projeto após cinco anos de aposentadoria. Mas alguns policiais se aposentam muito novos, com 50 anos, e ficam sem o que fazer. Às vezes ficam depressivos, e isso é um grande problema. Quando ele sai da dinâmica do dia a dia, da adrenalina, fica louco. Aí o cara faz o quê? Faz bico na zona, em bailão. É isso, infelizmente. É muito melhor ele trabalhar dentro da escola, ajudando a cuidar de tudo. No momento em que se tem o diretor disciplinar, que é um policial aposentado, até o entorno do colégio fica mais seguro. É um fator psicológico para malandro não se criar, não aliciar as crianças. São esses os relatos. Acabam com os vagabundos na porta da escola. Mas a gente tem uma dificuldade por essa regra dos cinco anos. Então vamos diminuir para dois anos. A Secretaria de Educação e a de Segurança estão estudando isso.

Tribuna do Paraná: E o senhor pretende aumentar a quantidade de colégios cívico-militares?

Ratinho Junior: A gente tem que ter um equilíbrio na prestação de serviço de educação para o pai, para a mãe e para o aluno. Não impus nenhum modelo. Então nós temos hoje próximo de 600 escolas em tempo integral (eram 30). Temos 345 escolas cívico-militares, escolas convencionais e 90 escolas do Parceiros da Escola (a meta é 200). Eu acho que nós temos que chegar em 1.000 escolas em tempo integral, 500 escolas cívico-militares e trabalhar para chegar nas 200 escolas no Parceiros da Escola. E as convencionais, para quem trabalha ou tem a perspectiva de trabalhar, é ideal. Temos que ter esse equilíbrio.

Hoje, para você ter uma ideia, temos fila de espera para escolas aderirem às cívico-militares. Tenho mais 10 mil alunos na fila de espera. Eu tenho fila de espera de professor querendo a cívico-militar. Eu tenho determinação de promotor de Justiça — olha a que ponto chegamos — pedindo para empregar professor na cívico-militar.

É um modelo que deu certo. Sem ideologia, o professor vai numa sala de aula e o moleque respeita, dá bom dia, sim senhor, não senhor, levanta. O professor olha e pensa: ‘Pô, cara, isso aqui que eu quero para mim’. Então começou até a mudar culturalmente a cabeça do professor com a imagem da escola cívico-militar.

Tribuna do Paraná: No primeiro debate, o candidato Requião Filho reclamou que para ter um bom resultado no Ideb os professores estariam deixando de tirar alunos da sala para não influenciar no índice de presença, o que tem causado questões disciplinares de falta de autoridade em sala. Isso procede?

Ratinho Junior: Não. Hoje nossa frequência chega a uma média de 91%, enquanto no Brasil fica em 70%, 75% no pau da goiaba. Eu tenho convicção de que estamos melhorando a frequência em sala de aula pela questão da segurança alimentar. Mas não inventei isso. Na Coreia do Sul, na década de 60, os índices eram terríveis. Era mais miserável que países da África. E decidiram mudar pela educação. E eles não tinham comida em casa, mas tinham na escola. O que eu fiz foi seguir a mesma lógica. A criança se alimenta quando chega, no recreio, e antes de ir para casa. E come carne todos os dias, seja de boi, frango, porco, peixe ou ovos. Isso naturalmente já fez aumentar a nossa frequência. Aí criamos o programa chamado Presente na Escola. O professor monitora se um aluno está faltando demais, aí vamos no pai, na mãe ou responsável para entender o que está acontecendo. É uma busca ativa. No primeiro ano, 60 mil alunos foram trazidos após abandonarem a escola. Conseguimos resgatar.

E a qualidade da aula melhorou. Já pensou aprender como se estivesse jogando videogame? Sabe qual aula eles mais gostam — e não achei que isso fosse possível: educação financeira. O moleque começa a ter noção de como gastar, o que pode gastar. A empreender. Você desperta isso no aluno. Tudo vai ficando mais atrativo.

Tribuna do Paraná: O senhor falou da posição estratégica do Paraná para outros estados e países, mas ainda existem alguns gargalos na logística. Como resolver isso para seguir a industrialização do Estado?

Ratinho Junior: Em termos de infraestrutura pesada, nós resolvemos. Não está tudo pronto, mas com a nova concessão rodoviária que nós fizemos, que vai ter obras nos próximos 4 anos – e elas já começaram e têm um prazo de 5 ou 6 anos para realizar obras de R$ 70 bilhões. É uma loucura. É um orçamento do DNIT por ano que o Paraná vai ter em obra. Já começou pelo Contorno Norte de Curitiba, que está sendo duplicado, o Contorno Sul, a terceira pista de Curitiba até Paranaguá na BR-277, cujo primeiro lote já foi entregue e vai descer para o Litoral. O novo contorno de Curitiba, que vai pegar Balsa Nova, Araucária e vai até Fazenda Rio Grande. Eu já estou contratando o projeto que vai até Pinhais. Vou deixar o projeto contratado. Tem a duplicação da 277 até Foz do Iguaçu, que começou por Irati e vai até Guarapuava. Aí tem uma questão com o Ibama, no Parque do Iguaçu, para começar de Matelândia para cá. Vamos ter duplicado de Foz até Paranaguá. De Guaíra para Paranaguá duplicado. Tudo isso em termos rodoviários. São 1.000 km de rodovia em concreto. Entre Guarapuava e Mauá da Serra, e Guarapuava para Campo Mourão. Um espetáculo.

Aí tem ferrovia, que esta sim é um grande desafio, porque entra a Malha Sul. O dono da concessão quer chegar até o Porto de Paranaguá, senão não adianta. Estamos trabalhando junto ao Ministério sobre isso. Entendemos que o certo é a Ferroeste entrar também na Malha Sul. Mas ela tem que ser superavitária, pois vêm cargas do Mato Grosso do Sul, das cooperativas do interior.

Aí nós estamos fazendo um Moegão, que vai ampliar muito a capacidade. Vamos sair de 500 descargas de vagões por dia para 900 vagões. Vamos ampliar em 35% o volume. Daqui a 70 dias está pronto. O trem vai chegar mais cedo, a descarga não será fracionada como é hoje. Vai descarregar por inteiro. A Serra do Mar não é um problema, pois hoje tem capacidade para descer 29 milhões de toneladas, mas descem só 18 milhões. Vamos chegar a uma medida de 50% da carga por caminhão e 50% por trem.

E aí tem a terceira pista do Aeroporto de São José dos Pinhais. R$ 800 milhões para a construção. A concessionária pediu de 70 a 90 dias para começar a obra. A empresa está contratada, já tem todos os projetos. Vamos ter que ter adaptações em ruas e avenidas, então vai demorar um pouco, mas a empresa já vai começar a montar o canteiro de obras. Ainda na questão aeroportuária, Londrina, Foz e Curitiba, ok. Já tivemos R$ 300 milhões em Londrina, inclusive com o ILS; em Foz eu ampliei a pista para voos internacionais; em Maringá, apesar de ser municipal, o aeroporto está redondo. Vai ampliar ainda embarque e desembarque. Temos estudos de VLP entre Londrina e Maringá, mas é só estudo. É caro manter.

Resolvemos o problema rodoviário, saneei a Ferroeste, tinha R$ 200 milhões de passivos. Temos estudo de traçado de Maracaju até Paranaguá. Gastamos R$ 20 milhões em estudos e projetos, dinheiro do BID, e os aeroportos estão organizados. Estamos fazendo em Guarapuava, que vai dobrar o tamanho de pista e embarque; está sendo feito no aeroporto de Ponta Grossa, que não é meu, é federal, mas está sendo feito, queremos aumentar a pista, mas tem que tirar a linha férrea pela Malha Sul; Cascavel é o melhor aeroporto quatro vezes seguidas, estamos ampliando o Aeroporto de Guaratuba, vamos aumentar a pista; revitalizamos Cornélio, queremos fazer um em Irati e o Aeroporto de Andirá, que será ampliado e revitalizado.

Em termos de infraestrutura, será um salto gigante. O próximo desafio é mobilidade urbana. Agora temos que pegar as 30 maiores cidades do estado e estudar como a gente dá um salto na qualidade do transporte público. Em Curitiba, vamos lançar a consulta pública agora em setembro, junto com o BNDES, que fez todo o modelo. Investimento de R$ 4 bilhões, parte público, parte privado. Será um VLT que sai do aeroporto e vem até o Centro Cívico.

Jones Rossi e Eduardo Klisiewicz, com o governador Ratinho Junior. Foto: Jonathan Campos / SECOM

Tribuna do Paraná: O que está sendo pensado para o transporte público da região metropolitana de Curitiba, que pela primeira vez em 40 anos terá uma licitação?

Ratinho Junior: Olha, vai ter uma ampliação, uma modernização. Nós vamos ter que tirar o edital para atender a uma recomendação do Tribunal de Contas, mas a ideia é modernizar todo o sistema, colocando para rodar ônibus movido a gás natural, ônibus elétrico – talvez não num prazo tão curto. Não podemos deixar isso impactar na tarifa. Vamos pensar em outros modais, como o VLT. Acho que não cabe metrô, pois é muito caro para investir e para manter. Hoje não é mais viável.

Tribuna do Paraná: Como se deu a construção da aliança que o senhor apresentou agora, finalmente com a chapa completa? Deu muita dor de cabeça?

Ratinho Junior: Eu fui muito cauteloso, porque eu quis ouvir a sociedade civil organizada. Eu fui ouvir o setor das cooperativas, o setor da indústria, do comércio, fui ouvir o que essas pessoas querem do Paraná, o que elas estão pensando para o Paraná do futuro, qual é o perfil de gestor que eles esperam para tocar o estado e dar continuidade ao que nós estamos fazendo. Havia cinco bons nomes e claro que todo mundo queria vender o seu peixe para dar essa continuidade, mas eu tive muita cautela. Ouvi todo mundo, ouvi os prefeitos também, que aliás hoje eu acho que o sucesso do nosso governo foi ter trabalhado muito com os prefeitos. Ninguém conhece melhor a cidade do que as pessoas que vivem nas cidades. Então eu sempre preservei o Sandro em não divulgar muito ele, porque geralmente quando você começa a falar de alguém, já chega alguém querendo queimar sua escolha. Então sempre ficaram vários nomes para a gente sentir, receber o feedback dos setores. E o Sandro meio que cresceu ao natural. Nem eu nem ele forçamos nada.

Tribuna do Paraná: Com toda a sinceridade, ele não era o teu primeiro nome no começo?

Ratinho Junior: Não era não, confesso. Mas ele também nunca se apresentou como um nome, como candidato. Ele sempre respeitou isso e estava focado em entregar suas grandes obras. Mas nos bastidores ele sempre esteve no meu radar, só não era como os outros que já estavam trabalhando por suas candidaturas há dois anos. Mas quem surgiu como o nome que deixou uma marca de transformação no estado, e que mostrou isso de forma organizada, foi o Sandro Alex. Isso o próprio setor produtivo veio falando: que ele tinha um perfil de gestor, que é muito preparado, conhece o estado e é muito ligado a mim também. Então aí eu fui construindo isso internamente para poder de alguma maneira consolidar ele como opção natural. Ele não estava na visão política, nem dos partidos, nem da população. Mas a população começa a prestar atenção mesmo agora, e a última pesquisa já mostra isso.

A Quaest mostrou que 83% ainda não sabem em quem votar para governador, sem a indicação de um nome. Então acho que a partir das convenções as pessoas já estão começando a conversar com os outros, já sabem que o Sandro é meu candidato e a chegada do Greca ajudou muito. Deu uma musculatura para a candidatura em Curitiba. Foi uma junção muito boa e uma tranquilidade para mim, como governador, para passar o bastão. Uma dupla boa, como fomos eu e o seu Darci (Piana, vice-governador). A gente conseguiu fazer um bom trabalho juntos. Agora será igual com o Greca, rodando o Paraná com o jeito experiente, que tem uma imagem de seriedade perante a população e já tem serviço prestado. E a costura foi com os partidos que já estavam nos ajudando na Assembleia Legislativa. Essa parte de composição é um pouco mais trabalhosa, mais chatinha, mas foi tudo bem, tudo encaminhado. A gente conseguiu construir uma aliança muito boa.

Tribuna do Paraná: O senhor entrou de vez na campanha? Qual será sua atuação?

Ratinho Junior: Total. Vou me dedicar muito. Obviamente tenho a questão dos horários em que posso participar, mas eu vou me dedicar bastante, como já tenho feito nos finais de semana, à noite e em reuniões.

Tribuna do Paraná: Mas mais defendendo o Sandro ou questionando a postura dos adversários, como o senhor fez recentemente?

Ratinho Junior: Eu tenho que defender o meu governo, né? Eu não vou deixar alguém publicar e ficar propagando fake news. Eu tenho que combater até por obrigação. Eu já vi candidatos, e não foi só um, falando de aumento de tarifa de energia. Estão mentindo para a população, porque a Copel não aumenta nada. É a Aneel quem aumenta. O Google pode ajudar esse pessoal a desmentir isso. É uma tristeza ver isso. Gente com mandato falar uma bobagem dessas. Ou é maldade ou não sabe o que está fazendo com o cargo público. Então eu tenho a minha obrigação, que é desmascarar essas pessoas.

Tribuna do Paraná: No começo da entrevista o senhor falou que se preparou para ser governador. Mas no Congresso viu a realidade do Brasil como um todo. Houve esse desejo de, em algum momento, levar seu trabalho para a esfera federal? É um sonho adiado ou não tem essa ambição?

Ratinho Junior: Eu sou realizado como homem público. Meu sonho era e trabalhei muito para ser governador. Eu nunca nem sonhei que teria a oportunidade de ter o meu nome cogitado para ser presidente e falo com muita sinceridade. Não achava que teria esse tamanho. Eu acho até estranho. Eu sempre achei isso muito distante. Talvez o trabalho que a gente fez aqui no Paraná tenha reverberado no Brasil, e esses bons números fizeram meu nome ser cogitado. Para mim seria uma honra, mas isso tem que ser feito em cima de uma conjuntura que te dê viabilidade. Hoje, nessa polarização em que está o Brasil, não é fácil alguém conseguir romper essa bolha e conseguir ter competitividade para ir para um segundo turno. E eu trabalho com a realidade. Eu queria ter a tranquilidade de o Paraná ter um futuro mantido com um bom planejamento, que vai ter uma continuidade. Mas no nosso partido tínhamos vários bons candidatos. O Caiado foi escolhido e já falei que vou trabalhar por ele, já o recebi aqui, fizemos várias reuniões. Eu preferi ser cauteloso no sentido de poder fazer o meu trabalho, terminar o meu mandato como governador e buscar fazer o nosso sucessor.

Como eu sou novo, lá na frente a gente pode colaborar, ou com um projeto de alguém fazendo uma política que a gente entende que é a melhor para o Brasil, sendo o protagonista ou sendo coadjuvante, sendo colaborador. Eu sou um homem realizado politicamente. Eu acho que Deus me deu, e a população me deu, mais do que eu merecia. Agora, no que eu puder ajudar o país, dentro daquilo que eu acredito, eu estou à disposição.

Tribuna do Paraná: Politicamente, a partir de janeiro, o senhor está “livre”. Vai começar um trabalho que lhe permita viabilizar a candidatura em 2030?

Ratinho Junior: Eu gosto muito de política, sou apaixonado pelo que faço. Gosto de gente. Gosto de participar, estar com gente. Gosto de ter a capacidade de transformar. Isso para mim é uma coisa que me chama, me atenta. Mas isso é uma conjuntura lá na frente. Não dá para a gente prever, fazer grandes planejamentos.

Tribuna do Paraná: Mas você previu ser o governador.

Ratinho Junior: Me dediquei muito a isso. Ser governador era um desejo que eu tinha. Realmente eu achava que, até pela paixão que eu tenho pelo Paraná, a gente podia realmente fazer uma grande transformação. Claro que o fato de você governar um estado importante te dá visibilidade nacional naturalmente. Com os números que a gente tem, isso se potencializou. Eu faço parte de uma geração que quer ver o Brasil dar certo. Se eu tiver lá na frente a oportunidade de estar num projeto ou ser um projeto que vai fazer o Brasil melhorar, eu quero estar junto. Pode ser protagonista, pode ser coadjuvante ou só o cara que vai ajudar a empurrar o carro para subir a ladeira. Eu tive sonhos. Chegar ao governo e fazer um bom governo. A gente está conseguindo entregar bem. É muito difícil chegar ao final dos 8 anos com o respeito da população, com credibilidade.


Metodologia: 1.104 entrevistados pela Quaest de 21 a 25 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº PR-04818/2026.