| Foto: Daniel Derevecki |
| José Soares é diretor e locutor continua após a publicidade |
Expectativa e ansiedade. Depois de três anos de espera, a rádio Itaperuçu FM entrava no ar. Como música de estréia, o Hino Nacional Brasileiro. Quase na mesma hora, moradores compareceram à pequena sede para cumprimentar os voluntários e conferir a novidade. Já que ainda não havia uma linha de telefone própria, os celulares das irmãs Claudete e Míriam Bini não paravam de tocar. A repercussão imediata foi o estímulo necessário para que representantes da comunidade levassem adiante o projeto de implantação de uma rádio comunitária.
A partir daí, estava lançada uma idéia: produção de conteúdo para rádio pelos próprios moradores, assumindo um compromisso público. Depois daquele primeiro dia de transmissão, em 2001, a rádio comunitária de Itaperuçu, na Região Metropolitana de Curitiba, só ganhou em popularidade. Aliando músicas à prestação de serviços, a rádio cede espaço a recados e informativos da comunidade, de escolas, de conselhos municipais e ajuda a promover campanhas de doação de sangue, arrecadação de agasalho e vacinação. ?Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, com a ajuda da rádio, 99% das crianças do município foram vacinadas em 2006?, diz a diretora da rádio, Claudete Bini.
Ações sociais como esta também são o foco da Rádio Esperança, do bairro Cajuru, uma das quatro rádios comunitárias de Curitiba. ?A rádio que toca seu coração?; com esse slogan, a intenção é atrair os moradores. ?Estou satisfeito porque estamos voltados à comunidade do Cajuru, 18 horas por dia no ar?, diz o diretor-executivo da Rádio Esperança, pastor José Soares.
O programa de maior repercussão, Voz da Comunidade, é transmitido à tarde e, como o próprio nome diz, é o espaço dedicado aos moradores que desejam fazer reclamações, anúncios, expor necessidades, vender e trocar objetos e tentar recuperar documentos perdidos. ?Um dos casos mais marcantes é de um senhor de 80 anos que foi assaltado. Depois dos constantes avisos na rádio, todos os documentos foram devolvidos. Só por isso valeu a pena entrar no ar?, recorda Soares.
Boqueirão
Pensando em ampliar sua abrangência na região e incrementar os programas, a Rádio Comunitária Cultural e Artística do Boqueirão está sendo renovada. A primeira rádio comunitária de Curitiba, hoje com quatro anos, tem programas voltados à dona de casa, ao trabalhador e aos jovens. Seu diretor, Celso Schadeck, aponta a dificuldade de captação de verbas. ?Técnicos, locutores e todo o pessoal são voluntários, que precisam conciliar o tempo de suas outras atividades para estar na rádio?.
Como funciona uma rádio comunitária
A rádio comunitária opera com baixa potência e cobertura restrita. Com ênfase nos aspectos locais, divulga acontecimentos de utilidade pública e eventos da comunidade, além da programação musical, sempre com estímulo à participação de todo morador da área de transmissão. Um único canal é disponibilizado para cada município, que, em Curitiba e região, é 98,3 FM.
Para poder executar uma rádio comunitária, um formulário deve ser enviado ao Ministério das Comunicações (MC). A autorização do serviço é válida por dez anos, podendo ser prorrogada se a utilização for julgada adequada. Apenas associações comunitárias sem fins lucrativos podem operá-la.
O outro lado
A legislação sobre as rádios comunitárias é de 1998. Diferente das rádios comerciais, o MC orienta que as rádios comunitárias tenham propagandas apenas na forma de apoio cultural, sem divulgar telefones comerciais ou ofertas de produtos, para não incentivar a competição.
A Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (Aerp), que representa as rádios comerciais do Estado, diz não ver problemas no serviço oferecido pela rádio comunitária, desde que ela opere dentro das especificações vigentes na lei. ?Oitenta por cento das rádios comunitárias fazem propaganda de maneira errada, e muitas sabem a infração que cometem?, acusa o presidente da Aerp, Cezar Telles. Para informar os anunciantes, a Aerp prepara um material educativo. ?O cliente vai pode esclarecer dúvidas sobre a forma correta de anúncio na rádio comunitária, porque, embora a lei restrinja, o texto é muito vago e pode confundir?, explica Telles.