O clima entre os moradores de Matinhos às vésperas do prazo final para a desocupação pacífica da área da União, que ocupam a beira-mar, é de medo e revolta. O prazo para que saiam sem força policial é amanhã. Alguns já estão retirando móveis, utensílios e desmanchando suas casas com medo de perder tudo, se o despejo for efetivado. Mas outros, sem ter para onde ir, esperam para ver o acontece. A desapropriação atinge cerca de quarenta famílias, com setenta crianças.
Maria das Graças Moraes, de 50 anos, dona de uma lanchonete, está passando os últimos dias à base de calmantes. Com medo de perder o que tem, começou a desmanchar a casa e está levando para uma área cedida pela Prefeitura. “Vivo da lanchonete, lá não vai ter condições de abrir outro ponto”, reclama. Outros moradores também ganharam terreno nesse local, mas segundo eles, lá não tem água, luz ou esgoto. Além disso, afirmam que a área está embargada pelo Ibama. “Lá só tem mato. Não é um lugar decente para morar. Se lá tivesse pronto, a gente ia”, desabafa Iolanda Sutil Paulino, 28, mãe de dois filhos. Ela sustenta sozinha a família e ainda não sabe para onde ir.
Jair Pereira também tem um ponto comercial e conta que dá emprego para dez pessoas. “Eu e os outros vamos ficar sem trabalho”, afirma. Segundo ele, a sua propriedade está avaliada em R$ 49 mil. “Como aproveitar a construção se é toda de alvenaria? Se pelo menos houvesse uma indenização”, argumenta. Arno Costa, 50, também já investiu muito dinheiro na área. Segundo ele, sua casa vale R$ 45 mil. “Ela é de alvenaria. Investi 20 anos de aposentadoria aqui”, conta.
Maria Goretti Moser Machado resolveu alugar uma casa próxima do local para esperar e ver o que acontece. “Tudo o que eu tinha na poupança usei para pagar o aluguel de um ano”, conta. Ela e o marido fazem parte de um grupo de pescadores que receberam casa do governo do Estado há quatro meses para morar. Mas ela alega que é muito longe do mar, construída sobre um lixão e as casas são muito pequenas.
Belino dos Santos é um dos que vai esperar para ver o que acontece. Ele comprou a casa há três meses, vivia em Curitiba de aluguel e quando se aposentou quis procurar sossego na praia. Afirma que não sabia do problema. “Não estou esquentando a cabeça. Se derrubarem a minha casa vou armar uma lona aqui. Quero ver o que vão fazer comigo”, desafia.
Muitos moradores questionam o fato de a área ser considerada de risco, motivo pelo qual a União quer realizar o despejo. “Se for analisar tem muitos prédios bonitos que estão ainda mais perto do mar do que a gente”, arremata Jair.
Reunião
Ontem, os moradores se reuniram com o prefeito da cidade, Acindino Ricardo Duarte, para pedir ajuda. De acordo com Luiz Carlos Ribas, presidente da Associação de Moradores da Ressaca, ele se dispôs a realizar obras de infra-estrutura na área em que a Prefeitura está cedendo espaço. O mandado de segurança impetrado semana passada pelos advogados dos moradores no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre foi negado na última terça-feira. A ação civil pública ajuizada na Vara Federal de Paranaguá também. Agora os advogados estão entrando com uma medida de apelação em Paranaguá e outra no Rio Grande do Sul para impedir o despejo.
No fim da tarde de ontem um fiscal da Prefeitura esteve no local fazendo um levantamento de quem já havia deixado o local. As informações seriam repassadas para a Secretaria de Patrimônio da União de Curitiba para ser organizada a ação de despejo.
Os moradores possuíam a concessão da União para morar no local. Outros compraram o direito de antigos moradores. Segundo a União, eles precisam sair porque a área é de risco, devido às ressacas. Os advogados dos moradores têm cópias de um ofício que o prefeito enviou ao ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, pedindo que área fosse cedida ao município para a construção de área de lazer.


