A população rural do Paraná deve cair de 1,19 milhão de pessoas para cerca de 1,01 milhão no início da próxima década, encolhendo a fatia do campo de 10% para 8,1% dos habitantes, conforme uma projeção do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).
Para a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), a redução faz parte de uma tendência nacional e reflete a urbanização e a mecanização. Contudo, em entrevista à Tribuna do Paraná, o secretário da Seab, Natalino Avance de Souza, alerta que a menor presença de jovens no campo não afeta apenas o interior, mas atinge diretamente o consumidor urbano.
Como a agricultura familiar responde por cerca de 75% dos estabelecimentos rurais do estado, como aponta o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), a falta de sucessores nas pequenas propriedades coloca em risco a segurança e a diversidade alimentar nas cidades, já que os pequenos produtores representam a maioria dos alimentos que chegam à mesa dos paranaenses.
De acordo com o IDR-PR, esse grupo representa 85,6% das propriedades que produzem leite, 68,2% do valor da produção das hortaliças, 55,4% da cebola, 42,8% do feijão preto e 42,2% da mandioca.
Por isso, o secretário da pasta afirma que o desafio para o Estado é garantir que essa mudança do meio rural não comprometa a continuidade da agricultura familiar.
“Pesquisadores e entidades ligadas à agricultura familiar alertam que o êxodo rural fragiliza a segurança alimentar, já que pequenos produtores são responsáveis por grande parte dos alimentos consumidos internamente. Quanto menor o número de agricultores familiares, menor será a variedade de alimentos frescos e maior a perda de diversidade alimentar, além de ampliar a concentração de renda e de terras”, alerta Souza.
Tecnologia como aliada
Gerente do Departamento Técnico e Econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), Jefrey Albers não vê a redução populacional como uma crise. Ele defende que o agro moderno — marcado pelo uso de agricultura de precisão, drones, telemetria e conectividade — tem atraído uma nova safra de jovens de volta à gestão de médias e grandes propriedades.
“Acredito que em todos os setores exista uma escassez de mão de obra qualificada. Mas temos trabalhado para melhorar isso com o nosso braço educacional, o Senar-PR”, diz.
A Seab também aposta na tecnologia como atrativo para manter as novas gerações na terra. Souza aponta que a modernização e a sucessão rural devem ser vistas como agendas complementares.
“A tecnologia precisa chegar também à agricultura familiar, acompanhada de assistência técnica, crédito, cooperativismo, conectividade, infraestrutura, qualificação e oportunidades de agregação de valor. O Estado reconhece esses riscos e tem trabalhado para aplicar políticas públicas que incentivem a permanência dos agricultores no campo”, diz o secretário.
Já Tainá Guanini, secretária de Juventude Rural da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (FETAEP), destaca que os jovens buscam qualidade de vida e independência financeira e, por isso, focar em políticas públicas para manter a qualidade da agricultura familiar é fundamental.
“Não basta levar internet para o galpão de máquinas; é preciso garantir estradas com transporte escolar e universitário, saúde, lazer e incentivo ao cooperativismo jovem. A sucessão no campo só se tornará realidade quando o jovem perceber que pode construir um futuro sustentável, com renda e dignidade, sem precisar abrir mão da sua qualidade de vida.”
Segundo a Seab, entre as principais políticas públicas implementadas e expandidas pelo governo estadual para assegurar a permanência do jovem no interior estão:
- Banco do Agricultor Paranaense: Programa que garante financiamentos com juros subsidiados pelo Estado para automação, energias renováveis e irrigação.
- Assistência Técnica e Extensão: Capacitação continuada de jovens gestores por meio das equipes do IDR-Paraná.
- Infraestrutura Logística: Pavimentação de estradas rurais para facilitar o transporte escolar e o escoamento da produção.
- Agroindustrialização e Cooperativismo: Incentivo para que pequenos produtores agreguem valor à matéria-prima (como queijos, embutidos e orgânicos) dentro da própria comunidade.
E o futuro?
Questionado sobre o risco de o campo paranaense ser dominado exclusivamente por grandes corporações agrícolas nos próximos dez anos, o secretário afasta o cenário de extinção do pequeno produtor e projeta um modelo de “convivência competitiva”.
“Os desafios são muitos: superar desigualdades regionais, ampliar o acesso ao crédito, promover a sucessão rural, garantir maior competitividade para a agricultura familiar e proporcionar qualidade de vida para os habitantes do meio rural. O desafio para os próximos anos não é apenas produzir mais, mas criar condições para que as famílias que vivem no campo possam produzir melhor, gerar mais renda e encontrar oportunidades e perspectivas de futuro”, afirma.
