Os lixões devem ser uma preocupação constante.

“Ninguém se importa com o lixo até que ele comece a virar problema”. Com essa frase, o engenheiro sanitarista e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) Luiz Antônio Bertussi Filho define como a situação atual do destino do lixo nas grandes cidades está problemática. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 70% dos municípios brasileiros possuem lixões a céu aberto, expondo a população aos perigos de contaminação, além dos impactos ambientais nos solos e mananciais. Qual então seria a solução?

De acordo com o engenheiro, o problema é cultural e depende de uma mudança radical de toda a população. Ele afirma que vários fatores influenciam no crescimento desse questionamento, principalmente na parte econômica. Quanto mais consumir, mais lixo a população vai produzir e, paralelamente, a questão volta a aparecer.

A extinção dos lixos, a correta implantação de aterros sanitários, além do uso de novas políticas públicas como a iniciativa dos 3 Rs (redução, reutilização e reciclagem) usada em alguns países da Europa são itens ressaltados por Luiz Antônio, que podem fazer a diferença nesse problema. “Nada no lixo é mágica. Tem que se planejar a médio e longo prazos novas formas de diminuir o volume de resíduos e encontrar novas soluções de destino final de tudo o que é produzido. Mas isso não acontece no Brasil e em outras partes do mundo”, diz.

A reciclagem, já implantada em algumas cidades do País, desponta como a alternativa mais viável e rápida para reduzir o volume de lixo destinado aos aterros sanitários. Com menos quantidade de resíduos, a vida útil dos aterros cresce vertiginosamente, dando mais tempo para que os municípios planejem com melhor e maior estruturas o tratamento do lixo.

Mas Luiz Antônio diz que o processo da reciclagem é um imperativo na nova sociedade brasileira. Segundo ele, “é extremamente necessária a utilização da reciclagem, mas não é a solução. O necessário é questionar o modo de vida que estamos tendo”. Ele explica que a reciclagem faz parte de um ciclo, que seria a implantação dos 3 Rs. Nesse ciclo, o volume do lixo produzido por habitante seria reduzido, depois esse material seria reutilizado e, somente na terceira fase do processo, reciclado.

Na maior parte dos países, a reciclagem é usada como única alternativa para reduzir a quantidade de resíduos. E é nesse ponto que o engenheiro sanitarista reforça o seu ponto de vista. Para Luiz, o estímulo ao consumo desenfreado, sem necessidade, é o principal vilão da história. “Hoje, uma pessoa produz lixo em um volume descomunal. Isso poderia ser revisto e é diretamente ligado a hábitos de consumo. Quanto mais se compra, mais se suja, mais lixo chega aos aterros e o problema nunca se define. Daqui a alguns anos, vamos sentir essa pressão e sem mudança de comportamento não terá solução”, completa.

Caximba

Depois da confusão entre Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smma) e Instituto Ambiental do Paraná (IAP) no início da semana, o problema do lixo de Curitiba e Região Metropolitana (RMC) parece ter sido solucionado provisoriamente. Mas até quando? De acordo com a Smma, o tempo de vida útil do aterro da Caximba é de quatro anos para a área total de ampliação, que ainda não está finalizada.

Luiz Antônio trabalha com resíduos há vinte anos e conhece bem a história de boa parte dos aterros sanitários do País. No caso específico da Caximba, ele alerta que o ponto fundamental para que não ocorra uma superlotação seria a criação de, no mínimo, outros dois aterros na Região Metropolitana de Curitiba sem que houvesse impacto ambiental. “Essa área pode ter mais tempo de uso, mas até quando? É importante já pensar em novas alternativas. Isso é que deveria ser discutido. Planejamento, novas políticas e não uma questão que pode ser resolvida em poucas horas. Essa polêmica serviu para assustar a população”, comenta o engenheiro.

Ele conta que o aterro da Caximba é um dos mais bem estruturados do País e ressalta que, no momento, a situação é até fora dos padrões brasileiros. “Em todo o país se discute sobre o fim dos lixões. Aqui estamos tratando de aterro sanitário. O questionamento é diferente, e isso mostra que pelo menos nesse sentido estamos à frente de muita gente”, declara.

Reciclagem se torna uma alternativa simples

A reciclagem de materiais é uma alternativa simples para evitar o grande acúmulo de lixo presente nas cidades. A separação do que pode ser reaproveitado reflete na redução de lixo, por exemplo, no aterro da Caximba. O caos que veio à tona durante a semana, com a capacidade da Caximba praticamente esgotada, poderia ter sido adiada com mais reciclagem.

O conceito da separação e utilização do que iria para o lixo ajuda a desenvolver a conscientização de cuidar do meio ambiente. É o que estão vivenciando os alunos da Escola Estadual Cecília Meireles, no Bairro Alto, em Curitiba. Cerca de cem estudantes participam da educação ambiental, que compreende a reciclagem trabalhada com as outras disciplinas escolares, como Matemática, Inglês e História. “Os alunos também participam de palestras de conscientização e de exposições com objetos preparados a partir do material reciclado”, conta Michael Teixeira de Faria, aluno do colégio e coordenador do projeto de reciclagem.

A escola disponibilizou cestos para a separação de lixo dentro das salas de aula. O aluno joga em um somente papel e, no outro, resíduos (comida, pontas de lápis). “Todas essas ações fazem com que as crianças sejam multiplicadoras de idéias, mostrando a reciclagem para os outros”, comenta Natália.

É isso que acontece na casa de Paola Raíssa, de 9 anos. “Eu falo lá em casa e eles fazem direitinho”, conta. O aluno Rafael Antunes, de 9 anos, ensina os outros colegas de classe a separar o lixo. “Se eles fizerem errado, eu mostro de novo”, explica.

Competição

Durante a semana, os estudantes recolhem o lixo reaproveitável em casa e, na sexta-feira, levam para a escola. Eles separam cada tipo de material e pesam tudo o que foi recolhido. Os resultados fazem parte de uma grande gincana e a turma que mais contribuir ganha passeios. “O lixo recolhido é vendido para empresas de reciclagem. O dinheiro é aplicado para o própria projeto, dentro da escola”, explica a diretora auxiliar Natália da Silva. Em média, por semana, são vendidos 50 quilos de papelão, 115 quilos de papel colorido, 30 quilos de papel branco, 20 quilos de plástico e 70 quilos de garrafas pet (de refrigerantes). Em três meses, segundo a escola, os alunos conseguiram reciclar 1,7 mil quilos de papel. Isso significa que 35 árvores deixaram de ser cortadas. Com toda a separação na escola, o aterro da Caximba deixou de receber 1.726 quilos de lixo reciclável.

Na Escola Atuação, no bairro Santa Quitéria, os estudantes também fazem uma competição saudável por causa do lixo. O aluno que reunir a maior quantidade de garrafas pet ganhará o material didático para 2005 de graça. “Nós estamos recolhendo 250 garrafas por dia, em média”, explica a coordenadora do projeto, Caroline Bandeira. Além disso, as turmas que mais levarem latinhas e papel serão presenteadas com passeios e lanches.

A aceitabilidade dos alunos está sendo tão grande que os pais, brincando, reclamam da pressão dos filhos em separar o lixo. “Os pequenos chamam a atenção dos familiares para fazerem certo”, comenta Caroline. As crianças aproveitam o material reciclável para construir brinquedos para as aulas de Educação Física. Elas fazem raquetes, bolas, sapatos de lata e outros equipamentos de diversão.

Interior do Paraná estuda melhorias

Juntas, as cidades de Londrina, Maringá, Foz do Iguaçu e Cascavel somam cerca de 1.070 toneladas de lixo por dia, que são depositados nos aterros sanitários das cidades ou nos lixões ainda existentes. Planos de coleta seletiva e implantação mais ampla do programa de reciclagem, porém, já estão sendo elaborados por essas cidades.

Elsoni Delavi, engenheiro responsável pelo aterro sanitário de Londrina, informou que 27 organizações não governamentais e associações fazem parte do programa de reciclagem da cidade. Ele conta que a utilização de prensas de empresas parceiras vai modernizar o processo, proporcionando reciclar um número maior de materiais. “Tirando 80 toneladas dos resíduos que vão para o aterro, já é uma diferença grande. Isso aumenta a vida útil do local e gera novos trabalhos”, confirma.

Em Maringá, segundo o secretário municipal do Meio Ambiente, José Eudes Januário, as cooperativas de reciclagem formadas com pessoas que viviam nos lixões se tornaram um dos destaques da cidade. “Além de retirarmos as pessoas do local, que ficavam expostas à contaminação, criamos uma oportunidade de trabalho para elas”, diz. O lixão ainda é o destino dos resíduos de Maringá, mas por pouco tempo. De acordo com Januário, o município está montando um edital de licitação para que o plano de implantação do aterro seja iniciado. A cidade também já apresentou quatro áreas que podem servir de local para o destino do lixo da cidade. Januário afirmou que só aguarda uma avaliação do Instituto Ambiental do Paraná para começar as obras.

O aterro de Cascavel entrou em funcionamento em 1996. Para estender o tempo de vida útil do local, o município desenvolveu o programa Ecolixo. Esse é um projeto de coleta seletiva e reciclagem dos materiais. Além de reduzir o volume de lixo que vai para o aterro, a inclusão de catadores informais aumentou a abrangência do programa. Os catadores são registrados e receberam capacitação para trabalhar com os materiais recicláveis e obter uma nova fonte de renda. Em média, Cascavel recicla 37 toneladas de lixo por mês.

O projeto Coleta Seletiva, de Foz do Iguaçu, será iniciado amanhã e faz parte do programa Foz Recicla. Esse programa engloba uma série de ações na área ambiental. Segundo o diretor municipal do Meio Ambiente, Zalmir Cubas, um número pequeno de cidades realizam o procedimento e, com essa iniciativa, Foz do Iguaçu será um dos poucos privilegiados. “É um projeto de peso e que a partir de agora será permanente em nossa cidade”, afirma.