A um dia da inauguração da Ponte de Guaratuba, marcada para esta sexta-feira, dia 1º de maio, o sentimento predominante entre moradores é de expectativa e também de transformação. Mais do que uma obra de infraestrutura, a nova ligação entre Guaratuba e Matinhos é vista como um marco capaz de alterar a rotina, o ritmo e até o futuro da cidade.

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Com mais de 1,2 quilômetro de extensão, quatro faixas de tráfego, ciclovia e espaço para pedestres, a Ponte de Guaratuba encerra décadas de dependência da travessia por ferry boat, uma realidade que moldou a vida de gerações no Litoral paranaense e que, por muito tempo, foi sinônimo de espera e imprevisibilidade.

Para quem vive o dia a dia da travessia, o impacto é imediato. A funcionária pública Gisele Ferreira de Andrade Alves, moradora da cidade há seis anos, resume: “A balsa funciona, é um trajeto bonito, mas com o aumento dos veículos ao longo dos anos gerou muitas filas e espera, causando engarrafamento”. Segundo ela, a expectativa com a Ponte de Guaratuba é de mais agilidade e melhor conexão com cidades vizinhas, como Matinhos.

Além de reduzir o tempo de deslocamento, a obra também muda a forma como moradores e visitantes se relacionam com a cidade. A possibilidade de ir e voltar no mesmo dia, sem depender de filas ou condições climáticas, tende a tornar o deslocamento mais previsível, um fator considerado essencial por quem vive ou trabalha na região.

Depois de décadas de espera, a travessia entra em uma nova era. Foto: Jonathan Campos/Governo do Paraná

Ponte de Guaratuba: entre desenvolvimento e desafios

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Se por um lado a expectativa é positiva, por outro também há atenção aos efeitos do crescimento acelerado que a Ponte de Guaratuba pode provocar. No setor imobiliário, por exemplo, a mudança já começou antes mesmo da entrega oficial da obra.

O corretor Paulo Adriano Muniz afirma que o cenário atual é de forte valorização. “Hoje Guaratuba conta com mais de 50 alvarás de construção. Construtoras que nunca estiveram lá agora estão presentes. A valorização dos imóveis está muito grande”, explica. Segundo ele, a nova ligação deve impulsionar ainda mais esse movimento, atraindo tanto investidores quanto pessoas interessadas em fixar residência no Litoral.

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A gerente de projetos Kauana Naomy Trojahn reforça essa percepção e aponta uma mudança estrutural no perfil da cidade. “A ponte representa a transição de Guaratuba de um mercado sazonal para um mercado contínuo, mais valorizado e integrado”, diz. Ela observa que a facilidade de acesso deve estimular o turismo de curta duração e o crescimento do chamado “morador híbrido” – aquele que divide a rotina entre o litoral e outras cidades.

Esse novo cenário também tende a impactar o comércio e os serviços locais, que passam a operar com maior fluxo ao longo do ano, e não apenas durante a temporada de verão. Ao mesmo tempo, especialistas e moradores apontam a necessidade de planejamento urbano para acompanhar esse crescimento.

Gisele chama atenção para esse ponto: “O tráfego deve ficar mais rápido, mas o desafio será adequar as ruas de Guaratuba para esse aumento de movimento”. A preocupação é compartilhada por outros moradores, que veem na Ponte de Guaratuba uma oportunidade, mas também um teste para a infraestrutura da cidade.

Com mais de 1,2 km de extensão, a Ponte de Guaratuba liga a cidade a Matinhos e põe fim à travessia por balsa. Foto: Jonathan Campos/Governo do Paraná

Memórias, rotina e um sonho antigo

Para quem já dependeu da travessia diariamente, a Ponte de Guaratuba carrega um significado ainda mais profundo. A veterana do Corpo de Bombeiros Elayne Pauline Maurer lembra da rotina intensa quando trabalhava do outro lado da baía.

“Todos os dias, às 5 horas da manhã, eu pegava a balsa. Muitas vezes enfrentava filas, perdia ônibus, corria no escuro para não perder o embarque”, conta. Segundo ela, a travessia era marcada por incertezas, especialmente em dias de neblina, quando o serviço era interrompido e não havia alternativa para cruzar a baía.

As dificuldades, no entanto, também se transformaram em memória. “Cada pessoa que encontrei nessa balsa tinha seu destino, seus problemas e seus sonhos”, relembra. Hoje, ao ver a obra concluída, o sentimento é de conquista coletiva. “A ponte representa liberdade, evolução e orgulho. É um sonho que parecia impossível e que agora virou realidade”.

A mesma sensação é compartilhada por moradores mais antigos. Edmundo Mafra e Maria Miranda Mafra, ambos com 87 anos, acompanharam por décadas as promessas em torno da construção. “Ouvimos falar da ponte há cerca de 75 anos. Durante muito tempo parecia uma lenda, algo que nunca sairia do papel”, lembram.

Para eles, a Ponte de Guaratuba marca o início de uma nova fase para a cidade. Ao mesmo tempo em que enxergam oportunidades de desenvolvimento, também destacam a importância de preservar a qualidade de vida dos moradores diante das mudanças que virão.

Depois de décadas de espera, a Ponte de Guaratuba deixa de ser promessa e passa a fazer parte da paisagem e da vida dos moradores. Para quem acompanhou essa história ao longo de gerações, o momento carrega um significado ainda mais profundo. Como resumem Edmundo Mafra e Maria Miranda Mafra, “que seja lembrada como uma conquista coletiva: um marco de união, perseverança e progresso para Guaratuba.”