Foto: Anderson Tozato

João Ramos: ?eu não tinha tempo, acesso nem disposição para estudar?.

A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima que o índice de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais, no Brasil, seja de 10,4%. Ou seja, essas mais de 14 milhões de pessoas não sabem ler e escrever.

Somente no Paraná, são 508 mil pessoas que ainda não foram alfabetizadas, um índice de 6,5% da população. A meta do Estado é acabar com o analfabetismo até 2010. Para isso, o melhor instrumento tem sido a oferta de turmas de alfabetização para jovens e adultos. Ainda são poucas, mas existem iniciativas de combate a esse ?problema social? não apenas do poder público.

João Ramos tem 53 anos. Na roça, ele começou a trabalhar aos 7 anos. ?Eu tirava leite, plantava, colhia, fazia de tudo?, conta. Porém, não tinha tempo, acesso nem disposição para estudar. ?Não tinha como ir todos os dias. As contas eu aprendi bem, mas ler e escrever não deu?, lamenta. Ramos, que hoje mora em Curitiba, é moldador. Em São Paulo, ele trabalhou num laboratório de concreto. Até 2002, quando foi mandado embora. ?Em São Paulo eu passei apuros por não saber ler. Até para pegar ônibus de um lugar para outro era difícil?, lembra.

Há cerca de um mês ele entrou numa turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA), numa escola municipal próxima à residência, no Campo Comprido. ?Estou aprendendo a ler e a escrever e quero me aperfeiçoar. Na sala tem pessoas mais velhas e até mais novas do que eu. Não é vergonha nenhuma, devagarzinho a gente chega lá?, diz. João conta que o primeiro objetivo é ?poder pegar um jornal e ler, de cima para baixo e de baixo para cima?.

Curitiba

A Escola Municipal Ulisses Falcão Vieira, freqüentada por João, é uma das 124 do município que oferta turma de EJA de 1.ª a 4.ª séries, à noite. Além dessas, outras duas escolas disponibilizam alfabetização à tarde, no mesmo nível, e outras quatro têm turmas de EJA de 5.ª a 8.ª séries. Em parceria com a Secretaria de Estado da Educação (Seed), disponibilizar os espaços é a alternativa que a Prefeitura de Curitiba, através da Secretaria Municipal de Educação, encontrou para combater o analfabetismo local.

Segundo a gerente da educação de Jovens e Adultos do órgão, Gilcélia Mara Cornelsen, em 2007 foram 329 alunos que passaram pelas turmas de EJA – eles têm idade entre 23 e mais de 60, mas a maioria é mulher, na faixa dos 40 anos. ?Em Curitiba, 97,7% da população já está alfabetizada. Em 2007, o município recebeu o selo de livre do analfabetismo, ou seja, com índice menor de 4%, segundo norma da Unesco?, afirma. Porém, ainda existem, segundo o PNAD, 40 mil analfabetos na capital e região metropolitana.

Escolarização e saúde

A Secretaria Municipal de Educação de Curitiba também apóia outros projetos: a Hora da EJA e Alfabetizando com Saúde. De acordo com Gilcélia Mara Cornelsen, o primeiro é desenvolvido por voluntários de várias áreas, que oferecem educação a jovens e adultos em associações de bairro, salões de igrejas e outros espaços, em períodos alternativos. A Prefeitura cuida do material e da capacitação dos educadores.

A outra iniciativa é uma parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e a Fundação de Ação Social. O programa Alfabetizando com Saúde foi implantado há sete anos. Através desse, a escolarização é ofertada até nas unidades de saúde. Como divulga a Prefeitura, ?o programa está em 38 unidades de saúde, com mais de 500 alunos. As aulas são ministradas por voluntários treinados pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA)?. A Prefeitura trabalha em parceria com o programa Paraná Alfabetizando, do governo do Estado. Segundo o coordenador, Wagner do Amaral, esse programa, parceiro do programa nacional, tem o objetivo de criar uma rede para atender o maior número de pessoas possível e universalizar o acesso à leitura e à escrita.

A ação foi implantada em agosto de 2004. Até 2007, foram atendidas mais de 216 mil pessoas com mais de 15 anos e não alfabetizadas. Isso representa, segundo Wagner, 30% da população analfabeta do Estado. ?Nós estamos sempre buscando parcerias com as prefeituras e outras instituições para atingirmos o nosso objetivo de acabar com o analfabetismo no Paraná?, afirma.

CUT tem rojeto no Paraná

Da sociedade civil organizada, uma das iniciativas é o programa Todas as Letras, da Central Única dos Trabalhadores (CUT). A ação é a mesma: alfabetizar jovens e adultos. Desde 2004, o projeto é desenvolvido em todas as regiões do Estado. A terceira etapa do projeto foi encerrada no final de março passado. Desde a primeira já foram mais de 300 turmas formadas e mais de 10 mil alunos que tiveram acesso a educação. Segundo o coordenador pedagógico do projeto, Edmilson Feliciano Leite, os alunos são trabalhadores de diversas realidades, desde pescadores e agricultores até os trabalhadores urbanos, quase todos da informalidade. Eles têm entre 18 e 90 anos e a maioria é mulher. ?O número de alunos mais jovens, na faixa de 18 a 35 anos, nas turmas, é considerável e preocupante. Entre as dificuldades apontadas pelo educador para a educação de jovens e adultos está a sensibilização. ?A primeira dificuldade é sensibilizar e convencer a pessoa a se predispor a participar de uma turma. Elas estão nessa condição há tanto tempo que não enxergam no ler e escrever uma necessidade e uma oportunidade de melhoria na qualidade de vida?, lamenta. De acordo com o secretário de formação da CUT-PR, Serginho Athayde, ler e escrever, assim como toda educação, é direito básico e questão de cidadania. ?Entre os trabalhadores, a questão da exploração é muito mais violenta para com aqueles que não têm estudo. Desenvolvemos esse projeto sobre um tripé, pretendendo conciliar e proporcionar aos alunos educação, trabalho e emancipação?, afirma.