A cevada que vira cerveja está ganhando novos endereços de cultivo no Brasil, atendendo uma demanda de mercado. No Paraná, a colheita de cevada deste ano deve ser de 550 mil toneladas, o equivalente a cerca de 88% da produção nacional. Com uma área plantada recorde de 118 mil hectares neste inverno, o estado também avança na expansão do cultivo para novas regiões, em meio ao esforço para ampliar a oferta nacional do cereal usado na produção de malte. Atualmente, o Brasil ainda precisa importar metade das 800 mil toneladas de cevada que consome por ano para essa finalidade.

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Quem lidera esse avanço da cevada por novas áreas no Sul e Sudeste (ela prefere o clima frio) é a Cooperativa Agrária. Localizada em Guarapuava, ela é pioneira no cultivo do grão e está à frente das duas maiores fábricas de malte cervejeiro do país. Além de desenvolver novas cultivares, a cooperativa firma parcerias com outras regiões para ampliar a cultura de inverno.

“Nosso objetivo para os próximos cinco anos é que 70% do nosso consumo seja de cevada nacional”, afirma James Dondolini, gerente comercial da Agrária.

Para chegar lá, a capacidade das fábricas também cresce. Segundo James, a unidade de Entre Rios tem capacidade de produção de aproximadamente 340 mil toneladas, com ampliação de 80 mil toneladas em andamento. Já a Maltaria Campos Gerais (MCG), mantida em intercooperação com as cooperativas Bom Jesus, Capal, Castrolanda e Frísia, tem capacidade de cerca de 240 mil toneladas.

Expertise desenvolvida desde os anos 1970

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Expandir, porém, não significa simplesmente escolher uma nova região e distribuir sementes. No campo, a cevada precisa de condições específicas para atingir a qualidade cervejeira. Na fábrica, os grãos devem atender aos padrões exigidos pelos clientes finais, as maiores cervejarias do Brasil.

Essa experiência vem de longe. Desde a década de 1970, a Agrária cultiva cevada nos campos de Guarapuava, no Centro-Sul do Paraná. A produção atendia, inicialmente, à demanda da maltaria da Antártica, posteriormente comprada pela cooperativa. Desde então, a Fundação Agrária de Pesquisas Agropecuárias (FAPA) desenvolve novas cultivares voltadas à qualidade cervejeira. Existem também variedades forrageiras, que não servem para a produção de malte. É todo esse conhecimento acumulado que agora está sendo compartilhado com as cooperativas parceiras.

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A primeira frente de expansão ocorreu nos Campos Gerais e no Sul de São Paulo. O cultivo havia começado antes, quando os grãos ainda eram enviados para a unidade de Entre Rios, e em 2024 foi inaugurada a MCG, que passou a absorver toda a produção da região.

Parceria com a Cooperativa Holambra, de São Paulo

Em outra frente, para suprir a demanda da maltaria de Guarapuava, a Agrária firmou parcerias com a Cooperativa Integrada, que atua no Norte do Paraná, e com a Cooperativa Holambra, em Paranapanema, no interior de São Paulo.

“Nosso posicionamento para crescer área é por meio da genética. A gente vai fazer produtos mais adaptados, com materiais mais resistentes a doenças, e também desenvolver materiais específicos para essas regiões em que não era comum a cevada”, explica Bruno Dondolini, gerente agrícola da Agrária, irmão de James, já citado anteriormente.

Segundo ele, a proposta é fazer a intercooperação: chegar aos parceiros com tecnologia já testada em pesquisas anteriores e em campos experimentais de cada região, dar apoio técnico e garantir a compra de 100% da produção. Com isso, a cevada se torna uma alternativa rentável no inverno, época em que os produtores têm mais desafios para rentabilizar os plantios.

Essa iniciativa contribui para uma produção recorde em 2026. A área plantada com cevada em todo o Paraná alcançou 118 mil hectares neste inverno, a maior da história. O estado deve colher 550 mil toneladas, o equivalente a cerca de 88% da produção nacional, conforme projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Vale ressaltar que apenas parte dessa produção é destinada à indústria cervejeira.

Preferência da cevada por regiões mais altas e menos quentes

Em Mauá da Serra, em áreas com altitudes entre 800 e 1.200 metros, produtores da Cooperativa Integrada começaram a plantar em 2022, com apenas cinco hectares em um campo demonstrativo na propriedade do cooperado Umberto Uemura. Na safra seguinte, já eram 16 produtores, com quase 800 hectares. Hoje, são 5.500 hectares distribuídos em 43 áreas.

Neste inverno, a cultura chegou também a Arapongas, Rolândia e Tamarana, onde três produtores associados à Integrada cultivaram aproximadamente 350 hectares na primeira safra da região. A variedade utilizada foi a Princesa, desenvolvida pela FAPA.

“É muito fácil de ser conduzida na comparação com o trigo, um pouco mais segura em relação a chuvas. Ela suporta mais”, afirma o produtor Raul José Cocatto, que colheu 141 sacas por alqueire em sua primeira experiência com a cultura.

Na colheita, o que mais chamou a atenção dele foi a palha. “A primeira coisa que observamos quando começamos a colheita é o volume de palha. Mais que muitas culturas de cobertura. É muita palha, mas que é fácil para depois plantar, não atrapalha em nada”, relata.

Palhada da cevada favorece o cultivo da soja, no verão

A cevada ainda pode render dividendos no verão. A expectativa é que o aumento da matéria orgânica melhore a produtividade da soja cultivada na mesma área. Outra vantagem já observada é que o sistema radicular da cevada recicla nutrientes de camadas mais profundas do solo, que depois podem ser aproveitados pela soja.

Toda a produção do Norte do Paraná será recebida e processada pela unidade da Integrada em Mauá da Serra. A Agrária comprará 100% do volume produzido, que será transformado em malte na unidade de Entre Rios.

Para receber o grão, a cooperativa precisou se preparar. “Tivemos que nos especializar em cevada, não só em equipamentos, mas em pessoas que foram treinadas. Tem toda uma característica de potenciais de proteína, de toxinas, de teor de pH, enfim, uma série de análises que precisamos nos preparar com um laboratório que atende cevada e trigo”, explica Arthur Ribeiro da Silva, gerente da unidade de Mauá da Serra. Segundo ele, o investimento foi de cerca de R$ 500 mil.

Cevada para cerveja exige cuidados especiais

A estruturação foi necessária porque o recebimento da cevada é bastante diferente do de outras culturas. Primeiro, toda a produção precisa ser segregada para chegar à indústria de forma homogênea e garantir o malte exigido pelo cliente. Depois vem a secagem, uma das etapas críticas: a temperatura precisa ser controlada e a aeração, adequada, para preservar a capacidade germinativa dos grãos. A meta é manter uma taxa de germinação de aproximadamente 95%.

Se o procedimento for inadequado, o lote pode perder o padrão exigido pela indústria cervejeira e acabar destinado à produção de ração, que oferece remuneração menor.

“A próxima fronteira que queremos atingir é a região do Sudoeste. Existem cidades com características aptas para a cultura da cevada”, afirma James. A região paranaense já conta com campos experimentais da cooperativa há cerca de uma década, voltados à seleção de cultivares e ao desenvolvimento de técnicas de manejo mais adequadas às condições locais.

A Agrária busca áreas com altitude superior a 700 metros e condições climáticas adequadas, principalmente temperaturas mais baixas durante a noite no período de enchimento dos grãos, em setembro. Pesquisas da cooperativa já demonstraram que esses fatores são essenciais para a qualidade do malte e, consequentemente, da cerveja.

Rastreabilidade de ponta a ponta

A produção de malte da Agrária conta com rastreabilidade de toda a cadeia e já inclui o cálculo da pegada de carbono, da lavoura à fábrica. Por isso, as cooperativas parceiras que cultivam cevada em suas regiões precisam se adequar aos padrões desenvolvidos pela pioneira da cultura no estado.

“Mantemos a rastreabilidade da cadeia inteira, desde a semente, qual talhão está sendo plantado, quem está plantando, para qual unidade será enviada, como vamos maltear, tem rastreabilidade desde a sementinha que está indo até efetivamente o malte que está indo para o cliente”, detalha James.

A iniciativa atende a uma demanda crescente das grandes empresas compradoras, que estabeleceram metas de redução de emissões para os próximos anos. “É uma cobrança do cliente que já existe e estamos nos preparando para uma exigência maior do mercado”, afirma James.