Átila Alberti / O Estado do Paraná
Objetivo é ampliar o mercado além do chimarrão.

A erva-mate está deixando de ser vista como uma planta que serve apenas para fazer chimarrão e chá. Há 10 anos, pesquisadores se debruçaram sobre o assunto e já criaram novos produtos, tendo a planta como uma das principais matérias-primas. Entre eles a bala de erva-mate, o matetino (parecido com o capuccino) e sabonetes.

O pesquisador chefe da Embrapa Florestas no Paraná, Moacir Medrado, conta que antigamente as pesquisas estavam voltadas principalmente para o manejo dos ervais, sempre com o objetivo de aumentar a produtividade. Nessa época, o preço da erva estava em alta e muita gente estava se dedicando à cultura. Eram indicativos de que em breve haveria uma superoferta no mercado.

Moacir explica que havia duas possibilidades para que o setor não entrasse numa crise: ganhar o mercado externo e criar novos produtos para agregar valor à erva. Em parceria com a Universidade Regional Integrada (URI) no Rio Grande do Sul, começaram a ser desenvolvidas uma série de pesquisas. O professor e pesquisador Sérgio Mosele conta que no curso e no mestrado de engenharia de alimentos a erva-mate tornou-se alvo de vários estudos.

Foram quatro anos de trabalho para se chegar ao matetino, extrato solúvel onde é acrescentado leite, chocolate, canela e outros ingredientes. “É uma bebida muito saborosa. Tem o gosto da erva adocicado”, explica. Outro produto é a bala de erva-mate. Ela se parece com a bala de menta, mas com o gosto da erva. “Se a bala de café pegou, por que não a de erva-mate?”, questiona. A universidade também desenvolveu um outro tipo de chá e estudou um novo processo de secagem da folha e do processamento. “Conseguimos um sabor mais suave”, fala. Além dos produtos de alimentação, a URI também pesquisou um tipo de sabonete. Segundo o pesquisador, a tecnologia é bem simples e utiliza os palitos que sobram no processo de secagem. “É um subproduto, que algumas vezes é jogado fora. Por isso, os custos de produção são pequenos”, fala. Algumas empresas já têm outros tipos de sabonetes no mercado. Eles desenvolveram também uma embalagem a vácuo, que conserva a cor e a suavidade da erva por até 18 meses. Normalmente, dentro de um mês ela já perde essas características.

Sérgio fala que algumas empresas no Rio Grande do Sul já se interessaram pelos produtos e aposta que não haverá dificuldades para colocá-los no mercado. Seria um dos caminhos para aumentar o consumo da erva-mate: “Os paulistas, por exemplo, são mais fáceis de conquistar com um matetino do que com o chimarrão”, compara. Já no Nordeste é possível ganhar novos consumidores com os novos chás”.

Custo de produção é alto

A região de São Mateus do Sul é a principal responsável pela produção de erva-mate. A maior parte é formada por pequenos produtores. Alceu Ferreira de Melo, 70 anos, é um deles. Ele não está muito contente com o preço da erva nativa. Conta que no início do mês vendeu 3,5 mil quilos a R$ 0,30, o que rendeu R$ 1.050 bruto. Desse valor, precisa descontar o frete do caminhão e as pessoas que contratou para ajudá-lo. Sem contar os gastos com a manutenção do erval. “Sobra muito pouco”, reclama. Segundo ele, o preço da erva se mantém neste patamar há pelo menos três anos. “O resto tudo subiu”. Por ano, ele colhe 50 mil quilos.

Alceu está na atividade desde os 12 anos, e cultiva o erval pelo método tradicional. Para aumentar a produtividade, corta o tronco rente ao chão e espera o brotamento. Ele mesmo prepara a erva para o próprio consumo, o chimarrão é tomado várias vezes ao dia. A secagem é feita pelo método antigo, fazendo fogo no quintal e socando as folhas com o pilão. Boa parte do que construiu hoje veio da erva, mas agora está pensando em diminuir a dedicação à atividade.

Mais suave

A empresa Vier Ltda. é uma das ervateiras do Rio Grande do Sul que se instalou em São Mateus. Eles compram a erva nativa para suavizar o chimarrão gaúcho. Com a mecanização do processo, são fabricados 800 mil quilos por mês. Depois que a erva está pronta é colocada em sacos de 500 quilos enviados ao Rio Grande. A empresa produz erva para o chimarrão tradicional, outro com plantas medicinais e vários tipos de chás.

Tecnologia mais avançada aumentaria produtividade

O Paraná é o estado que mais produz erva-mate, sendo responsável por 35% da produção nacional. Depois vem o Rio Grande do Sul com 32% e Santa Catarina com 30%. O Mato Grosso do Sul também tem uma pequena participação, cerca de 3%. Todos esses valores fazem do Brasil o maior produtor mundial, com um bilhão de toneladas por ano. Os outros países produtores são a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.

Segundo o coordenador da Câmara Setorial da erva-mate no Estado, Jorge Mazuchwski, desde 1992 tem se observado um crescimento da produção no Paraná. Mesmo assim, ele acha que muitos agricultores não investem em tecnologia. Em alguns casos conseguem apenas 25% do que seria o ideal por hectare. Falta a adubação e também o plantio de novas plantas em ervais nativos (adensamento). Em conseqüência disso, reclamam do baixo preço. “O preço não está baixo. Ele foi se reajustando e equivale ao que era pago há 15 anos. A saída é aumentar a produção”, fala. Completa ainda dizendo que é um erro comparar o preço da erva ao da soja, que está acima dos padrões brasileiros.

Hoje existe a produção de dois tipos de planta. A do erval nativo, sombreado pela mata de araucária e dos ervais plantados a céu aberto. O preço da erva nativa é maior pela qualidade. Quando a planta é cultivada a céu aberto, pega muito sol e há concentração de uma substância chamada tanino, que deixa o sabor mais amargo. A maior parte da produção parananese é nativa. Por isso muitas ervateiras do Rio Grande do Sul se instalam aqui e misturam o nosso produto ao deles, suavizando o sabor da erva gaúcha.

Química

Jorge observa que os estudos sobre a composição química da planta têm avançado. Ele explica que as características dos ervais são diferentes, variando conforme a região do Estado. Agora quer se descobrir que tipo de erva é ideal para a fabricação de determinados produtos. Em vários centros de pesquisa estuda-se o uso em corantes, produtos de higiene e até no setor médico-farmacêutico. Em alguns países já existe até refrigerantes. “Queremos saber que tipo de erva é melhor para a fabricação de tintura para cabelo, por exemplo”, comenta.

Com as pesquisas, os produtores também saem ganhando. Cada um vai poder se especializar em um determinado tipo de erva, tendo o preço do produto elevado. O mercado externo também fica mais próximo. No entanto, a produção ainda é pequena para competir lá fora. Cerca de 80% do que produzimos é consumido pelo país. “Quando se entra neste mercado tem que manter o padrões da erva e a oferta todos os anos”, pondera. De acordo com Jorge, o chá brasileiro possui características superiores ao chá da Índia. Mas não é tão conhecido. Países como China, Japão e Coréia seriam grandes compradores.