O fato de a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estar atrelada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), durante os vários anos de luta em que era apenas um líder sindical, não vai impedir a ocorrência de novas ocupações em terras improdutivas ou às sedes do Instituto Nacional de Colonizaçâo e Reforma Agrária (Incra). A afirmação é do coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile, que esteve ontem em Curitiba. “As ocupações vão continuar, porque elas são fruto de uma contradição social e não política. O MST incentiva este tipo de ação, mesmo porque é este o nosso papel: o de organizar a vontade coletiva”, afirmou Stédile.

Ele contou que é grande a expectativa de a reforma agrária ser realizada no atual governo. “As eleições de outubro representaram a vontade do povo em mudar o modelo econômico e social do País. Todos conhecem a relação do Lula com o MST”, comentou. Segundo ele, a vitória de Lula representou “a derrota do latifúndio e a consolidação de um governo que tem compromisso político, claro, de realizar a reforma agrária no Brasil.”

“O latifúndio é um câncer da sociedade brasileira.” De acordo com o coordenador do MST, existem no Brasil 27,5 mil latifúndios com mais de dois mil hectares cada. No governo FHC, segundo dados do Incra, o tamanho das áreas improdutivas passaram de 125 milhões para 178 milhões de hectares. “Quanto maior o lafifúndio, maior a violência”, lamentou Stédile, referindo-se aos conflitos durante as ocupações. Além disso, acrescentou Stédile, no governo anterior foram assentadas 328 mil famílias em todo o País. “A quantidade é bem menor que os 580 mil divulgados pelo Fernando Henrique”, comentou.

Meta

Em relação à meta do governo Lula, Stédile informou que foi negociado com o Incra o assentamento de 60 mil famílias do MST – dez mil no Paraná, das quase 16 mil à espera – ainda este ano. “Há recursos orçamentários para isso”, informou o coordenador do MST, sem detalhar valores. Apesar da confiança que deposita no governo atual, Stédile também se mostrou crítico quanto à lentidão no processo de assentamentos durante os primeiros quatros meses de governo. “Até agora, o governo se mostrou muito lento em montar a equipe. Agora é hora de trabalhar”, criticou.

O coordenador também fez menção ao fatídico 17 de abril de 1996, quando 19 trabalhadores sem-terra foram mortos durante conflito na Serra dos Carajás e outros dois morreram dias depois. Por isso, o 17 de abril foi proclamado o Dia Nacional da Luta pela Reforma Agrária.