Foto: Daniel Derevecki

Iraci Fernandes com os netos: casa feita sobre palafitas.

Grandes enchentes são rotina para quem vive em áreas de ocupação irregular em São José dos Pinhais, que se concentram à beira dos rios Ressaca e Itaqui. Ao contrário das ocupações dos municípios da Região Metropolitana de Curitiba já mostradas pela série de reportagens de O Estado, as de São José são mais antigas. Algumas datam do final dos anos 1950.

Pela proximidade com os rios, alagamentos sempre aconteceram e a população está cansada. Muitos querem reiniciar a vida em outro lugar, sem saber muito bem onde. Uma das moradoras mais antigas da Vila Idalina, às margens do Ressaca, é Maria Isabel de Lima, que passou mais da metade da vida ali. ?Já são 33 anos aqui, com o mesmo problema, que só aumenta. Agora, é só o tempo começar a fechar e a gente já coloca tudo em cima dos móveis, aguardando a água?, contou.

É o que também faz o casal Teófila e Geniplo do Nascimento, há oito anos na Vila, vindos de outra ocupação, a Riacho Doce. ?Nosso presente de Natal, todo ano, é a enchente?, lamentou Nascimento, enquanto mostra as perdas que já teve. ?Estragou nossa máquina de lavar roupa, a máquina de costura. O assoalho, de tão úmido, não seca mais?, completou.

Para tentar viver com um pouco mais de tranqüilidade, a solução é ser criativo. No caso de Iraci Fernandes, de 66 anos, a alternativa foi construir uma casa num nível acima do chão, com palafitas. É uma das únicas casas que não alaga quando o rio transborda.

Como se não bastasse o desastre causado por cada nova enchente, os moradores convivem com os assaltos. ?Quando o Corpo de Bombeiros chega e querem nos levar para o ginásio de esportes, muitos preferem ficar e cuidar dos pertences?, disse Maria Isabel.

Sem resposta

Há exatamente um ano, aconteceu uma das piores enchentes na Vila Idalina. Depois de mais esse alagamento, funcionários da Prefeitura chegaram a dizer aos moradores que iriam retirar as famílias que moram a até 30 metros do rio. Depois disso, nunca mais tiveram notícias das autoridades. ?Não acreditamos em mais nada?, disse a dona de casa Solange Martins, resignada.

Mas agora a Secretaria Municipal de Habitação diz que vai agir. Nesta semana, o município recebeu R$ 4 milhões do Ministério das Cidades. ?Esse valor será utilizado para a remoção de 179 famílias que vivem às margens do rio Ressaca, que inclui a Vila Idalina, além de obras de limpeza do rio?, afirmou o secretário de Habitação, Miguel Ferreira de Paula.

Além disso, para o Jardim Modelo, que tem 200 famílias, ainda para este ano está prevista a instalação da rede de esgoto. Outra grande ocupação é a do Jardim Independência, propriedade do governo estadual, com cerca de 500 famílias. ?Na criação do Parque Iguaçu, 100% das famílias foram retiradas, mas voltaram para lá?. A secretaria de Habitação espera que o governo estadual defina os limites da área para estudar uma solução.

Problema antigo

Como os moradores da beira dos rios estão lá há décadas, não existe só o problema de ocupação irregular. ?Muitos lotes estão regularizados, pois a 40 anos não havia a legislação federal que prevê distância do rio para preservação ambiental?, explicou o secretário.