A transformação do trecho da BR-116 que corta Curitiba na chamada Linha Verde, em obras desde janeiro deste ano, já está provocando alterações na configuração dos bairros no entorno da via e defronte a ela. Comércio, residências e características do tráfego devem ser completamente alterados, bem como as expectativas da população que mora ou investe na região. A Prefeitura, por sua vez, garante que até agora o cumprimento do cronograma das obras está em dia e que, se o tempo continuar ajudando, tudo estará pronto dentro do planejado, em abril do ano que vem.

Os investimentos previstos para a obra da Linha Verde em Curitiba são de R$ 121 milhões. Apesar de ter pouco menos de dez quilômetros de extensão, as obras envolverão um total de 65,5 mil metros de ruas pavimentadas. Aí estão incluídas as pistas da linha (uma canaleta exclusiva para ônibus, três pistas marginais em cada sentido e mais as vias locais de acesso às ruas perpendiculares), além dos quatro binários construídos nos bairros que dão acesso à via. Também haverá um parque linear com ciclovia e paisagismo.

Apesar de ser impossível visualizar isso no cenário atual, segundo Wilson Justus, coordenador da obra, depois que estiver pronta, toda a concepção do local será alterada. ?Muita gente ainda está achando que estamos deixando a BR mais bonita. Não se trata disso, mas sim da transformação em uma avenida?, esclarece. Assim, o projeto engloba mais que apenas a melhora da via, mas alterações na configuração dos entornos.

O primeiro passo foi a mudança no zoneamento, planejando o local para estabelecimentos comerciais diferentes dos de hoje (que atendem à demanda da rodovia e seus muitos caminhões) e para edifícios residenciais de até doze andares. Apesar de isso vigorar desde 2000, até a Linha Verde começar a sair do papel, ninguém se interessou em investir nesse tipo de obra por ali. Agora, com a transformação, a expectativa é que os caminhões migrem para o Contorno Leste e as laterais da via comecem a ganhar cara nova. ?Nada vai sumir num primeiro momento e ninguém vai ser convidado a não circular por ali. Mas fatalmente não haverá mais mercado para o tráfego pesado.?

Justus admite que vai levar tempo até isso acontecer – ele arrisca cerca de cinco anos – mas está certo dessas alterações. Algumas já podem ser constatadas, como o anúncio da instalação de uma grande rede de supermercados no local e o planejamento de um condomínio residencial. ?Por enquanto, é natural que todo mundo reclame das obras. Mas daqui a uns quatro meses as pessoas já vão visualizar tudo diferente nos primeiros trechos e as expectativas com certeza vão mudar?, diz, otimista. 

Expectativa de melhorias

Quem vive e trabalha na região diz que a nova avenida fará toda a diferença na vida dos dez bairros diretamente atingidos. A empresária Darianny Letnar, dona de uma tradicional loja de materiais de construção na Vila São Pedro, do outro lado da BR, acredita na valorização do comércio e também das residências. ?O número de terrenos baldios diminuiu muito por aqui e o de obras, em compensação, aumentou bastante?, conta. Perto da loja dela, fica um dos quatro binários sendo executados dentro do projeto da Linha Verde, o que, segundo Darianny, já incrementou as vendas em 18%.

Como moradora – ela vive ao lado da loja – a comerciante também vê benefícios. A casa dela, por exemplo, vale atualmente 30% a mais que há dois anos e meio, quando comprou. ?E eu não passei uma mão de tinta sequer?, garante, dizendo que encomendou a avaliação do imóvel só por curiosidade.

Além disso, para Darianny, a construção da via é uma realização pessoal. O avô, um dos primeiros moradores do bairro, ajudou a construir a Vila São Pedro. Foi o primeiro comerciante, auxiliou na chegada da eletricidade, construiu a primeira igreja. Mas, em 1987, quando faleceu, levou consigo uma frustração: ?Havia um boato de que a vila, assim como todos os bairros depois da BR, seriam separados de Curitiba por causa da rodovia?, conta a neta. ?Ele morreu com essa tristeza, mas sempre acreditou no progresso. E agora estamos aqui para vê-lo?, comemora. (LM)

Imóveis se valorizam

A valorização imobiliária nos bairros atingidos pela Linha Verde já é considerável, aponta o presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi), Hugo Peretti. ?Têm terrenos que aumentaram em 30% o valor, principalmente os defronte à via?, calcula. Além disso, como há incentivos por parte da Prefeitura para quem fizer construções que agreguem residências e comércio, o dirigente acredita que haverá incrementos nesse sentido.

Peretti cita que empreendedores focados na construção de apartamentos pequenos têm procurado a região e acredita que, mesmo os comerciantes que hoje vêem cair o movimento na beira da rodovia, devem ser beneficiados. ?Além do valor agregado, tem crescido a procura pelos terrenos?, estima.

Tanto que o fabricante de peças para indústria Luís Henrique Mannrich decidiu pagar 45% a mais no barracão que comprou em frente à futura avenida que o preço dado quando pleiteou o negócio. ?Não comprei no início porque achei caro. Meses depois, vi que valia a pena.?

Rubens Bocuti Júnior, diretor de novos negócios de uma construtora, também vê boas possibilidades. Tanto que decidiu investir justamente a 50 metros da Linha Verde, na Avenida Brasília, construindo um centro comercial. ?Acabamos de lançar e já vendemos 40% das unidades.? Bocuti julga que a valorização do metro quadrado nos entornos deve chegar a 80%. (LM)