Tradição

O “uísque caiçara” agora é patrimônio do Paraná: conheça a história da cataia

Cataia, arbusto nativo da Barra do Ararapira, região de Guaraqueçaba.
Cataia, arbusto nativo da Barra do Ararapira, região de Guaraqueçaba. Foto: Antonio Costa / arquivo Gazeta do Povo.

A famosa cataia, conhecida por muitos como o “uísque caiçara”, agora é oficialmente Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná. A aprovação na Assembleia Legislativa reconhece o valor histórico e a força de uma tradição que nasceu no litoral do estado. Para quem vive na Barra do Ararapira, comunidade isolada em Guaraqueçaba e verdadeiro berço da planta e da receita original, a novidade chega acompanhada de reflexões e desafios que vão muito além dos holofotes.

A história da bebida começou há cerca de quatro décadas com o pescador aposentado Rubens Jorge Muniz. Ele lembra que encontrou a folha no mato, sentiu o aroma marcante que lembra cravo e canela e resolveu testar na cachaça para ver no que dava. Rubens distribuiu os primeiros litros da bebida, o pessoal aprovou e a ideia se espalhou por toda a região. O hábito de tomar o chá da folha para aliviar dores de cabeça ou no estômago já vinha de gerações anteriores, mas a mistura na bebida alcoólica transformou a rotina do lugar.

Hoje, quem segura as pontas desse legado é o grupo Mulheres Produtoras de Cataia. Organizadas em uma associação criada em 2007, elas enfrentam uma rotina pesada na Mata Atlântica para fazer a coleta sustentável e o manejo das folhas. A caminhada pelas trilhas até o local onde a árvore nasce não é fácil, o que fez muitas moradoras desistirem ao longo do tempo. O grupo, que começou numeroso há 25 anos, hoje conta com cinco trabalhadoras dedicadas ao processo artesanal e à seca das folhas ao sol.

Edina Aparecida Santana, funcionária da escola local e uma das produtoras da associação, explica que a receita original não leva mel ou cana-de-açúcar: é apenas a folha e a cachaça pura. Apesar disso, o grupo enfrenta dificuldades para transformar o trabalho em renda fixa. A localização isolada e o acesso difícil fazem com que comerciantes de fora comprem folhas de terceiros a preço baixo para fabricar e vender por conta própria em outros pontos do litoral e até no estado vizinho, como em Cananéia e na Ilha do Cardoso. Essa concorrência direta derruba a venda das produtoras da Barra do Ararapira, que comercializam apenas pacotes pequenos e garrafas artesanais.

Mesmo distante do berço da planta, a bebida movimenta o comércio de comunidades vizinhas. Laurentino Souza, aposentado, pescador e dono do bar Akdov, na Vila do Superagui, conta que compra as folhas de jovens da Barra do Ararapira e produz a própria bebida para vender no estabelecimento. “Eu aprendi com o senhor lá da Barra do Ararapira, que se chama Rubens Muniz. Ele foi o rei dessa ideia de hoje ter a cataia conhecida como uísque caiçara. Vendo em doses e em garrafas fechadas porque a procura está sendo boa”, relata. Com a novidade na Assembleia, ele celebra o impacto no turismo: “Com o conhecimento do patrimônio do Paraná, fico muito grato e feliz por ela hoje ser um patrimônio”.

Para as mulheres que mantêm o saber tradicional vivo no meio do mato, o desejo é que a visibilidade do título venha acompanhada do respeito por quem realmente inventou, colhe e protege essa riqueza do litoral paranaense.

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