Aos 33 anos, a vereadora de Pinhais Edna Souza (PT), conhecida como Miss Preta, tornou-se a primeira mulher negra eleita para a Assembleia Legislativa do Paraná em mais de 170 anos de história da instituição. Com a marca de 45.311 votos distribuídos por 337 municípios do estado, ela saiu da Região Metropolitana de Curitiba para assumir um mandato estadual pautado pela defesa das cotas, fiscalização orçamentária e combate ao racismo institucional. O ineditismo vem acompanhado da superação de uma campanha marcada por episódios graves de violência política de gênero e raça.
Formada em Processos Gerenciais, ex-modelo publicitária e ativista comunitária criada no assentamento Zumbi dos Palmares, Miss Preta encara sua eleição não apenas como uma conquista individual, mas como um ato público de denúncia contra o apagão histórico de mulheres pretas nos espaços de decisão paranaenses.
“A Assembleia Legislativa do Paraná existe há mais de 170 anos, e o Paraná nunca havia eleito uma deputada negra. Quando eu soube desse dado, tomei isso como uma denúncia que precisava ser feita. Fico feliz que levantei essa bandeira, mas fico triste por não ter mais mulheres negras junto comigo. O caminho está se abrindo. Vamos eleger mais negras na ALEP no futuro. Quem sabe também uma senadora, uma governadora, uma presidente. Temos que sonhar grande”, disse Miss Preta.
A trajetória até a Alep foi precedida pelo mandato de vereadora mais votada em Pinhais em 2024. A campanha estadual em 2026, no entanto, exigiu a reorganização de sua rotina pessoal e familiar devido a repetidas ameaças e atos de vandalismo motivados por racismo e misoginia.
A deputada eleita contou para a reportagem da Tribuna do Paraná que a campanha foi difícil e que chegou a desistir por conta dos ataques. “No primeiro dia em que coloquei windbanners na rua, um homem branco rasgou o meu rosto no material e amassou a estrutura de alumínio. Aquilo foi o ódio impresso. Conseguimos pegá-lo em flagrante e ele foi preso. Recebi mensagens de pessoas dizendo que queriam me queimar viva. Tive que mudar de endereço por logística de segurança e desinstalar redes sociais por um tempo porque não tinha psicológico para ler os comentários. Eles usam a tática do medo para a gente desistir. Mas imagina se eu desisto? A energia boa se tornou muito maior que o momento. O medo não vai nos parar”, revelou.
Propostas de Miss Preta
Para o mandato que se inicia em 2027, Miss Preta afirma que a atuação será focada no fortalecimento de políticas públicas permanentes, no diálogo com movimentos sociais e na fiscalização rigorosa da aplicação dos recursos públicos em áreas sensíveis para a população periférica, com atenção especial à saúde e à educação pública.
“A primeira coisa que a gente precisa pensar é no fortalecimento das cotas. No ano passado, houve tentativas de ferir as cotas das universidades na Assembleia, e isso não pode acontecer. Podem contar comigo para defender as cotas. Outra prioridade é a fiscalização do orçamento nas escolas estaduais e maternidades, observando o recorte racial em casos como a violência obstétrica sofrida por mulheres negras”, garante.
Miss Preta contou que quer percorrer os territórios quilombolas no Paraná, conhecer de perto suas realidades e destinar recursos atrás de emendas parlamentares. “Na política, as pessoas vêm com ideias mirabolantes, mas não é isso que a população quer. Eu sou da escuta e da construção de pontes. Política tem que ser feita para todo mundo”.
Filiada ao Partido dos Trabalhadores, Miss Preta diz que quer trabalhar, ouvir as pessoas, e que precisa trabalhar para todos os paranaenses. “A política tem que ser construída através de pontes, de diálogo. Ela é feita para todo mundo, eu gosto de articular e vou ouvir muito a população”, esclarece.
