O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025 trouxe uma luz de alerta para a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), sediada em Foz do Iguaçu. O curso de Medicina da instituição obteve nota 2 — em uma escala que vai até 5 —, o que motivou uma revisão imediata dos processos pedagógicos e da estrutura oferecida aos alunos.

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Criado em 2014, o curso vem registrando uma queda gradual nas avaliações federais. No primeiro ciclo, obteve nota 4; no segundo, 3; e agora atingiu o nível 2. Atualmente, 361 estudantes estão matriculados na graduação, que formou sua primeira turma em 2020.

Diagnóstico e melhorias

Segundo o pró-reitor de Graduação, Antonio Machado Felisberto Junior, a universidade já identificou os pontos onde os alunos tiveram mais dificuldade: pediatria, ginecologia, cirurgia geral e saúde mental. Para reverter o quadro, a Unila planeja reforçar o uso de simulados e oferecer um acompanhamento mais próximo aos estudantes.

O pró-reitor pondera, no entanto, que a nota não deve ser vista de forma isolada. Ele explica que o Enamed compõe o Conceito Preliminar de Curso (CPC) — uma nota geral que o MEC dá aos cursos baseada em vários fatores, como infraestrutura e corpo docente. “A nota 2 impacta o resultado final, mas não reflete sozinha a qualidade da formação”, afirma. Segundo ele, faltaram apenas 5,5 pontos percentuais para que a média dos alunos atingisse a nota 3.

Os gargalos: professores e hospital

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A Unila aponta problemas estruturais que vão além da sala de aula. Um dos principais desafios é a alta rotatividade de professores e a dificuldade em contratar especialistas, um problema que afeta universidades em todo o país.

Outro ponto crítico é a ausência de um hospital universitário próprio. Hoje, os alunos fazem o estágio prático (conhecido como internato) em unidades de saúde e hospitais conveniados de Foz do Iguaçu. A universidade afirma que segue negociando com o governo federal a implantação de uma estrutura hospitalar própria, o que ajudaria a fixar os professores e melhorar o treinamento dos acadêmicos.

Rigor na formação e novos exames

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Na avaliação do conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM) pelo Paraná, Alcindo Cerci Neto, o Enamed 2025 revela fragilidades estruturais na formação médica e desempenho abaixo do esperado entre estudantes do sexto ano — exame que, em alguns casos, também foi usado como critério para acesso à residência.

“Embora considerada de nível fácil a médio, com foco na atenção primária, o resultado das universidades avaliadas foi preocupante. O objetivo deve ser a formação em nível máximo; o nível 3, tido como regular, já fica aquém do esperado”, afirma Cerci Neto.

Segundo ele, ainda faltam dados mais detalhados para uma análise aprofundada, mas já há indícios de impacto na prática médica no país. “Observamos aumento nas denúncias por falhas no atendimento, o que pode refletir deficiências na formação”, diz.

Para ele, a formação prática é central nesse debate. “Quase 40% do currículo de Medicina é composto por atividades práticas. Sem campos de estágio adequados, é impossível formar um médico preparado.”

Exame de proficiência para médicos avança

O Enamed 2025 repercutiu entre entidades médicas em meio ao avanço de um projeto de lei no Senado que cria o Profimed. Se aprovado, esse exame passará a ser obrigatório para que recém-formados em Medicina possam exercer a profissão, funcionando de forma semelhante ao exame da OAB para advogados. A proposta foi aprovada em 25 de fevereiro pela CAS do Senado (12 a 8) e segue para a Câmara dos Deputados.

Preocupado com a qualidade da formação, o CRM-PR apoia o exame e afirma ter consultado a classe médica, alinhando-se ao Conselho Federal de Medicina para garantir a competência técnica e ética dos profissionais.

A proposta não é consenso entre a classe médica. O médico Gilberto Guedes Neto critica o foco no estudante: “O Profimed transfere a responsabilidade de uma formação ruim ao aluno”. Para ele, embora haja corresponsabilidade, cabe às universidades conduzir a formação, e a prova individual desloca esse peso quase totalmente ao estudante.