Foto: Átila AlbertiSentir o espírito ou a consciência livres das amarras do corpo físico. Flutuar e ver o próprio corpo de um outro ângulo; atravessar um túnel e encontrar um portal que separa a vida da morte. Essas são algumas das sensações vividas por milhares de pessoas que já passaram pela experiência de quase-morte (EQM), considerada o primeiro estágio depois da vida.

Estudos sobre o fenômeno, que ocorre com pessoas à beira da morte, passaram a ser discutidos por especialistas em todo o mundo, com afinco, nos últimos 30 anos. Até hoje, o assunto intriga e provoca discussões. A medicina ainda é, na maioria das vezes, cética. Para os cientistas, a EQM é fruto da atividade cerebral. Já os parapsicólogos e estudiosos da projeciologia atribuem a experiência de quase-morte à projeção da consciência, uma vez que ela seria capaz de sobreviver, independentemente do corpo físico. Para os religiosos, é a prova de que o paraíso existe. Para muitos leigos ou curiosos, tudo não passa de mero fruto da imaginação. Mas para quem passou por isso, é a certeza de que o ser humano ainda precisa evoluir muito nesta vida.

Duas chances para viver

Foto: Átila AlbertiManhã de terça-feira de Carnaval de 1972. Uma sensação indescritível de tranqüilidade e paz toma conta da educadora Lucy Lutfi, 37 anos. Do alto, ela assiste seu corpo debater-se na água como se fosse uma folha de papel. As ondas o puxam para baixo e o refluxo o devolve à superfície. Enquanto isso, Lucy sente que entra por um caminho, levada por uma espécie de energia que a suga. É um túnel escuro e nebuloso que, aos poucos, fica iluminado, claro e prateado. A vida dela passa como um filme, desde a infância até aquele momento. Ao fim do túnel, a educadora vê uma figura pacífica e generosa, que lhe transmite paz. É um ser de luz. O homem de barba e que veste roupa branca ouve o apelo da mulher que acaba de cair no mar contra as pedras da costa da praia do Guarujá, em São Paulo: ?Preciso voltar, ainda tenho que fazer muitas coisas?. Lucy não ultrapassa a linha que divide as dimensões da vida e da morte. Ela volta.

Enquanto isso, os veranistas correm em socorro da educadora. O amigo dela a puxa da água pelos cabelos e a coloca sobre uma pedra. A mulher está com o biquíni rasgado e com as costas arranhadas, mas segura e viva. O salvamento não dura mais que três minutos, provavelmente o mesmo tempo no qual Lucy passou pela experiência de quase-morte, conhecida por EQM. Bastante machucada, ela é hospitalizada e passa o dia sob cuidados médicos. Quando volta para casa do amigo que a hospedava, conta a ele e a outras pessoas a experiência que teve. Ninguém acredita que a educadora deixou o corpo físico e que depois voltou para terminar sua missão. ?Ela bateu a cabeça e deve estar delirando?, dizem. O que Lucy não imaginava era que ainda passaria por mais uma experiência igual.

Cirurgia

Oito anos depois, Lucy faz uma cirurgia plástica no rosto. Durante a madrugada seguinte, sente dores fortíssimas e sofre uma hemorragia. Os médicos não conseguem estancar o sangue. Eles a medicam e fazem transfusão. Nada resolve. Lucy volta para o centro cirúrgico, os pontos da plástica são abertos e ela sofre um choque anafilático e uma parada cardíaca. Lucy vive a mesma sensação de tranqüilidade e paz do dia em que caiu nas pedras. Fora de seu corpo, de um ângulo perto do teto da sala, a educadora assiste à equipe médica se desesperar. O eletroencefalograma está em linha reta e os médicos dizem: ?Ela está morta?. Do alto, Lucy tenta avisar: ?Não morri, vou voltar como um dia já voltei?, diz ela, sem ser ouvida.

Massagem cardíaca e o coração da educadora volta a bater. Desta vez Lucy não passa pelo túnel, nem vê um ser de luz, porém, tem a confirmação dos médicos: ?Por algum momento perdemos você?. Recuperada, Lucy conta para o cirurgião sobre sua experiência e, mais uma vez, é desacreditada. ?Essas alucinações são frutos da anestesia?.

Depois de passar por duas EQMs, Lucy passou a estudar o fenômeno parapsíquico para entender o que tinha acontecido com ela. O estudo e suas experiências estão no livro Voltei para ficar, que demorou dez anos para ser concluído. Atualmente, ela é considerada uma das principais especialistas do assunto no Brasil. ?Com meu relato e meus estudos estou ajudando muitas pessoas. Não tenho medo da morte e hoje vivo muito mais tranqüila?, finalizou a educadora.

A dimensão da conciência

Foto: Átila AlbertiPara os parapsicólogos e projeciologistas, a experiência de quase-morte é fruto do desprendimento da consciência do corpo. ?Pesquisas mostram que a consciência pode sobreviver sem o corpo físico, pois ela é muito mais que um mero produto do cérebro?, diz o pesquisador Reginaldo Hiraoka, coordenador do curso de parapsicologia da Faculdades Integradas Espírita.

Segundo o pesquisador, para ser considerada uma EQM, a pessoa precisa ter tido, em algum momento, ausência de batimentos cardíacos ou atividade cerebral. É nesse estágio que a consciência se desprende e migra para outra dimensão. ?É uma evidência que existe vida, independente do corpo físico, após a morte?, diz ele.

O Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia estuda as projeções da consciência, ou seja, a saída da pessoa do corpo físico. No instituto são ensinadas técnicas para que a pessoa faça a projeção, e o estudo da EQM, que é uma projeção involuntária, é um braço desse trabalho.

Para o médico voluntário do instituto, Luiz Espósito, apenas quem já projetou seu corpo é capaz de entender o fenômeno da EQM.

?O cérebro é o instrumento de manifestação da consciência. Ela pode viajar para vários lugares, para várias dimensões e até mesmo para outras vidas, independente do corpo físico. Não posso dizer para as pessoas acreditarem, é preciso passar pela experiência de projeção para ter certeza que a EQM é um fenômeno real?, diz o médico, lembrando que qualquer pessoa pode sair de seu corpo, basta usar a técnica correta.

Segundo Hiraoka e Espósito, as projeções e as EQMs são experiências que surtem um resultado em comum para os que passaram por elas: as pessoas percebem que são seres que ainda podem evoluir muito e geralmente se desprendem de bens materiais e passam a valorizar outros aspectos da vida.

E a vida continua

Madrugada de 15 de agosto de 1995. Uma freada brusca e o barulho ensurdecedor de uma batida de carros acorda a jornalista Maristela (nome fictício), de 25 anos. Ela levanta assustada, corre para a janela e vê que a rua está calma. Vai até o quarto do irmão e sente um alívio ao vê-lo na cama. Foi apenas um pesadelo que, depois, revela-se uma espécie de premonição.

Pela manhã, Maristela segue ansiosa para o jornal onde trabalha há cinco dias. Acompanhada do motorista, de outro jornalista e do fotógrafo, ela senta no banco de trás do carro, rumo a uma reportagem no bairro Boqueirão. O trajeto é tranqüilo e todos conversam. Por volta das 11h, a jornalista vê um caminhão distante e de repente um vento sopra forte e desarruma seu cabelo. Ela o arruma, se olha no espelho retrovisor e repara em seu rosto: ?Nossa, como estou enrugada!?. Maristela mal termina a frase e os estilhaços do vidro do carro cravam sobre sua face. O caminhão que ela vira há pouco atravessara a preferencial e batera no carro. Os outros ocupantes saem ilesos. O cinto de segurança impede que o corpo dela seja projetado para fora do veículo.

Desespero, gritos e muito sangue. A ambulância a leva para o Hospital Cajuru. Consciente, a jornalista não percebe a gravidade da situação. Ela é anestesiada e entra no centro cirúrgico. Durante a operação, que dura 12 horas, Maristela leva 150 pontos para a retirada dos cacos de vidro. Ela está com todas as costelas fraturadas, o pulmão perfurado e os dois braços quebrados.

De repente, uma sensação de paz e tranqüilidade toma conta do corpo machucado. A jornalista é absorvida por uma luz e tem a sensação de levitar lentamente. Alguém a puxa suavemente pelo braço. Quando está no alto, Maristela passa por um túnel e vê um lindo portal, onde enxerga seu vizinho, Carlos. Era ele quem lhe puxava. Carlos sorri para a jornalista e a solta lentamente. Enquanto isso, o médico Gerson Laux e sua equipe lutam para mantê-la viva. A jornalista tem uma parada cardíaca e é reanimada. Eles a puxam novamente para a vida. Ao acordar, a jovem pergunta por seu vizinho, e sua família fica chocada. Carlos havia morrido cerca de meia hora antes dela sofrer o acidente. Ele passou mal pela manhã, foi medicado e morreu repentinamente. Até hoje ninguém sabe qual foi a exata causa de sua morte.

A experiência de quase-morte vivida por Maristela a fez refletir mais sobre a vida e a não se importar com problemas que hoje julga pequenos. Para a família de Carlos, o encontro dele com a jovem foi um alento que significou a paz encontrada pelo rapaz. Hoje, a jornalista está grávida de três meses e, coincidência ou não, o nascimento de seu primeiro filho está previsto para 15 de agosto de 2007, dia em que completa 12 anos do trágico acidente. E a vida continua…

Sob outroponto de vista

A medicina já foi unanimamente cética aos assuntos relacionados à religião ou espiritualidade. Porém, nos últimos anos, alguns médicos têm se rendido à constatação de que a ciência ainda tem muitos mistérios a desvendar. Há 33 anos atendendo no plantão de emergência do Hospital Cajuru, o médico Gerson Laux viveu situações que o levaram a acreditar que fatores alheios à medicina interferem na recuperação dos pacientes.

Gerson atendeu a jornalista Maristela em 1995 e se lembra do estado em que ela chegou no hospital. ?A situação era muito delicada e até hoje não consigo dizer como ela ficou sem seqüelas. Chegamos a perdê-la por alguns instantes, quando teve uma parada cardíaca?, disse o médico, que aceita e acredita no fenômeno, uma vez que é freqüente ouvir outros relatos semelhantes.

Para Gerson, a ciência e a espiritualidade não podem viver separadas. Pessoas com a mesma idade, mesmos problemas e que recebem o mesmo atendimento médico, apresentam resultados diferentes: umas morrem e outras sobrevivem. ?Acredito em Deus e não tenho religião. A minha religião é a que propaga a paz e o bem. Não sei se é a fé, a vontade de viver ou outro tipo de energia que ajuda na recuperação dos pacientes. O que garanto é que a ciência tem um limite e que os médicos céticos precisam acreditar em algo que vai além da medicina?, destaca o médico.

Ante sala do paraíso

?A experiência de quase morte é um estado de libertação do sofrimento?. A opinião é do frei capuchinho Alvadi Pedro Marmentine, que afirma que o homem é um ser espiritual em essência e que a EQM é mais uma evidência de que a vida continua depois da morte física.

Para o frei, é o corpo que nos faz sofrer. Durante a EQM as pessoas encontram um lugar de paz e felicidade à qual ele acredita ser a ante-sala do paraíso. ?Quanto mais perto do encontro com Deus, maior é a sensação de felicidade, pois sentimos que estamos perto de uma vida melhor. É a prova que não há motivos para ter medo da morte?, diz ele.