Foto: Aliocha Maurício/O Estado

Quando iniciou, em 1982, Mari sofria muito preconceito. Hoje, é umas das profissionais de destaque.

Já se foi o tempo em que homens e mulheres tinham profissões próprias. Hoje, elas estão em praticamente todas as atividades e desempenham suas funções em pé de igualdade com os homens. São taxistas, metalúrgicas, motoristas, caminhoneiras e mecânicas. O Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, lembra a luta pela igualdade de direitos e também as conquistas.

Salto alto, maquiagem, cabelos e unhas feitas. É assim que a mais antiga taxista de Curitiba vai todos os dias para o trabalho. "É como repórter de TV, trabalho com o público. Levo desde a pessoa pobre que machucou o pé e está indo para o médico até altos executivos", justifica Maria Neli Ferreira, a Mari. Com 24 anos de estrada, se tornou uma das profissionais mais conhecidas no ramo. Tem a confiança de mães para levar os filhos para a escola e até de empresários de fora da cidade, que solicitam seus serviços para conduzi-los a reuniões ou para conhecer os pontos turísticos da capital.

Para Mari, a profissão de taxista na verdade não tem nada de masculina, é bem feminina. "Quando a gente leva uma criança para a escola você tem que ter um cuidado e um carinho especial. Quando busca um idoso no médico, tenho que ajudá-lo a entrar no carro. Mulher tem mais jeitinho. Além disso, passeia o dia inteiro e ainda volta com dinheiro para casa", brinca.

Mas conquistar espaço nesse mundo considerado tão masculino não foi uma tarefa fácil. Em 1982, o preconceito era muito grande. Conta que todo dia levava uma série de cantadas dos colegas e dos próprios clientes. "Entrei no jogo deles. Não tinha mais dona Mari. Virei um homem vestido de mulher. Se contavam uma piada suja, contava outra pior ainda até adquirir a confiança deles. Tinha que mostrar que eu era forte", lembra. Mas esse não foi o único problema. Quando os homens viam que uma mulher estava dirigindo, passavam pelo táxi e não entravam. As mulheres agiam da mesma forma. No entanto, Mari não se deixou abater e deu a volta por cima.

A taxista entrou na profissão por acaso. Ela era professora em Foz do Iguaçu, Oeste do Estado. O marido ficou doente, venderam a casa e vieram para Curitiba a procura de tratamento. Quando Mari chegou na capital, tinha que arrumar um trabalho que ainda desse tempo para cuidar dos cinco filhos. "Comprei um táxi, podia trabalhar e estar em casa a hora que eu quisesse. Podia levar e trazer os filhos da escola", explica.

Além do preconceito, Mari também não conhecia a cidade, o que para um taxista é fundamental. Lembra que quando o primeiro cliente entrou no carro, estava nervosa e tremia muito. O passageiro era um senhor e pediu para ir até a Praça Oswaldo Cruz, mas ela não tinha a mínima idéia de onde ficava. "Ele foi muito gentil e explicou o caminho. Também disse como teria que fazer para voltar até o meu ponto", conta. Ela teve que adotar várias estratégias para não se perder na cidade. Para chegar até a Rodoviária, ia até a BR-116 e esperava um ônibus passar, depois seguia atrás dele até decorar o caminho.

O tempo foi passando, o marido faleceu, e, mesmo sozinha, conseguiu criar os cinco filhos. Hoje, olha com orgulho a fotografia da família, todos bem encaminhados. O único problema que vê na profissão é a falta de segurança. Ela já foi assaltada três vezes e um colega morreu no seu lugar. "Quando vi aquela pessoa, me senti mal, tive um pressentimento ruim. Eu estava no ponto e saí vazia para não levar o passageiro. Cheguei a falar para o meu colega não fazer a corrida. Mas 20 minutos depois ele estava degolado", relata. Mari também reclama que os policiais não conhecem os sinais que os taxistas emitem quando estão em perigo. Uma vez várias viaturas passaram por ela, mas ninguém a abordou e ela estava com uma pessoa suspeita no carro. Com medo da violência, quer mudar de profissão. "Queria ser motorista particular. É mais seguro", diz.

Não importa a área, a dedicação chama a atenção

A vida de motorista também atraiu Kellen Rodrigues, 26 anos. Ela dirige um ônibus articulado que faz a linha Interbairros IV, em Curitiba. Apesar de o preconceito hoje ser menor do que na década de 1980, conta que não foi muito fácil conseguir a vaga. Só pôde fazer o teste porque o pai já trabalhava na empresa como motorista. Ela fez a prova com oito homens e ficou entre os quatro contratados. Além do fato de ser mulher, a idade também pesava contra ela, já que normalmente os motoristas têm idade mínima de 25 anos e ela tinha apenas 23. "Mas fui bem nos testes e fui contratada", conta.

A paixão pela profissão surgiu quando ainda era criança, às vezes saía de ônibus com o pai e, quando surgiu a oportunidade, não pensou duas vezes. Do pai tem todo o apoio; o marido, que não gostou muito da idéia no começo, apóia a decisão dela e, quando não está viajando, costuma acompanhá-la pela cidade. Kellen agradou tanto os usuários que eles chegam a ligar para a empresa pedindo que ela continue na linha. "O pessoal fala bastante que as freadas e as curvas são menos bruscas. Além disso, procuro sempre ajudar o passageiro. Se ele está correndo para pegar o ônibus, espero um pouco."

Mesmo assim, as piadinhas e os comentários machistas também a acompanham no dia-a-dia. Conta que já ouviu várias grosserias e acha que se fosse homem, as críticas teriam sido mais comedidas. Mesmo assim, se sente realizada e hoje só faria um curso superior para seguir na mesma área.

Outra que invadiu o espaço masculino foi Iracema Celestina Casagrande, 56 anos. Até os 17 anos trabalhou na roça, mas tinha vontade de ser motorista. Conheceu o namorado, fugiu com ele e aprendeu a dirigir caminhão. Passou os primeiros anos de casada revezando o volante na estrada. "Mas dois tigres enjaulados não podem ficar juntos. Compramos outro caminhão e cada um seguia um rumo", lembra. O único filho do casal viveu os quatro primeiros anos na estrada e só depois teve que ficar em casa, devido às atividades escolares. Para tomar conta do filho, os dois começaram a ser revezar nas viagens. Hoje, ela e o marido possuem seis caminhões e passam a maior tempo administrando a empresa que montaram juntos. "Estou realizada, gosto de dirigir, conheço todo o Brasil e outros seis países", relata.

Kelly Selzlein, 25 anos, também atua numa profissão nem um pouco feminina: faz manutenção de aeronaves. Veio do interior de Santa Catarina tentar uma vida melhor em São José dos Pinhais. Ficou sabendo que as empresas de aviação sempre contratavam pessoas para fazer a limpeza das aeronaves e se sentiu atraída pela idéia de conhecer um avião por dentro.

"Era do interior. Avião para mim era uma luz piscando no céu". Ela acabou sendo contratada e, por intermédio do ex-marido, que é mecânico, foi incentivada a fazer um curso. Logo depois, conseguiu a vaga para fazer a manutenção das aeronaves. Também sente preconceito na profissão, embora seja discreto. "Às vezes ficam duvidando da capacidade da gente", comenta.

Rosangela Muchinski, 30 anos, é metalúrgica. Ela e as amigas representam apenas 10% dos funcionários da fábrica onde trabalham. A decisão de fazer um curso na área trouxe uma mudança radical em sua vida. Até então, só havia trabalhado no setor administrativo. O marido dela estranhou muito. "Quando eu fui fazer o curso, ele me acompanhou e disse: mas aqui só tem homem." Mesmo assim, ela venceu a resistência do marido e é graças ao que ganha no novo trabalho que ela consegue pagar a faculdade de Jornalismo. (EW)